por F. Morais Gomes

06
Mai 11
Sintra é um microcosmos onde o natural muito se interpenetra com o humanizado, decorrente de morfologicamente, a serra ser o que hoje é muito graças à intervenção humana e florestação exótica a partir de D.Fernando II, isto para o bem, mas também por ser o jardim às portas da Grande Urbe que já lhe ameaça as fronteiras naturais e a invade com as  avassaladoras hordas de turistas e excursionistas, que pouco ou nada deixam dormitar as pedras seculares ou as armérias e camélias com que um dia a quiseram presentear.
E temos assim uma Sintra do desleixo, da ruína desmazelada promovida a vestígio sagrado, onde se mexe estraga se não mexe morre;a Sintra do excursionismo de fim de semana, do turista do circuito Vila-Piriquita-Regaleira-Comboio;a Sintra do plano de urbanização mais antigo de Portugal e ao mesmo tempo da incapacidade de planear o que quer que seja para levar ao terreno;a Sintra onde muitos mandam, poucos executam e nenhum respeita; a Sintra onde o que cheire a ouvir as pessoas cheira a heresia, onde se olha o património como o faqueiro precioso que se compra no dia do casamento, mas que quase nunca vai à mesa ao longo dos anos, com medo de estragar; a Sintra dos proprietários urbanos que, donos de vasto património o deixam ruir esperando mais valias urbanísticas, mas que apesar disso, são agraciados com comendas pela sua benemerência e filantropia(vamos a ver agora com os aumentos do IMI...); a Sintra do comércio ora débil ora elitista, da restauração ora precária ora do bolso cheio, da hotelaria do hostel barato ou da byroniana suite, mas onde o meio termo dificilmente tem lugar.
Tudo isto é  muito antigo, nada novo, velhos problemas e também velhas críticas à incapacidade de resolver, o que é muito nosso aliás.
Hoje, uma pequena viagem no comboio-fantasma pela Sintra que fenece, culpa de todos e que por isso talvez a não mereçam.Alguns exemplos:
1-O edifício da Pensão Bristol,embargado em 2006,e eternizado na paisagem do Centro Histórico.Este edifício é um case study de como uma obra aprovada pelas autoridades  por respeitar um plano de 50 anos é 3 meses  depois parada pelas mesmas autoridades  com o argumento preciso de desrespeitar  esse mesmo documento, o tal plano de Groer de 1949 .O tribunal leva o seu tempo a resolver, a paisagem vai-se habituando ao entrapado desta nova múmia, um dia qualquer coisa servirá pois será melhor que o que está.A coisa só podia correr mal pois com um licença emitida a 6 de Junho de 2006...(666, número fatídico)
2-Edifício na Vila Velha, também ele é sentinela de incúria e inércia.
3-Casas na Volta do Duche. Obras prometidas,com instalações  e cartazes pós-modernos  as embrulharam, qual Christo,mas lá continuam as casas em ruínas. Alguém saberá que há leis que impõe obras de 8 em 8 anos? E que tal se os IMI’S  fossem  penalizadores para os adeptos do dolce fare niente?.. 
4-Hotel Neto.
Mais uma chaga, esta já antiga. Antigo poiso de Ferreira de Castro no seu veraneio por Sintra, é o contraponto do inenarrável Hotel Tivoli, homenagem de Sintra a essa nobre espécie chamada patos bravos…
 
 
 5-Edifício na R.Alfredo Costa
Ao menos o do lado foi recuperado.Pode ser que o contágio seja benéfico..
6-Edifício na Av.Heliodoro Salgado.
Bela imagem para quem avista Sintra vindo de Chão de Meninos.É uma casa senhorial? Um palacete assombrado? Não, é Sintra, bucólica, ladeada de alguidares de chineses e plásticos tupperware, mas, atenção, património da Humanidade…
 
7-Garagem na Estefânea, Sintra
Aqui está um espaço que recuperado poderia dar um local multiusos para contratualizar  com os agentes culturais locais. Uma nova centralidade. Assim, continuamos a ver os comboios passar…
8-Hospital da Misericórdia
Recuperado, fechado,não é já tempo demais?
 9-Quinta do Relógio
D.Carlos passou aqui a lua de mel,a ver vamos que outras festas aqui poderão ocorrer.A Câmara parece que ia comprar.
10-Obras na Junta de Freguesia de S.Maria e S.Miguel.
Mais um mamarracho. A velha junta entaipada, a nova,(o “caixote”) parada por  se escolherem uns empreiteiros sem capacidade, um dia algo acontecerá.
11-Vivenda particular na Quinta de Vale dos Anjos, Seteais.O ex-TVI Paes do Amaral dum anexo ao abandono prepara-se para se instalar na jóia da Coroa.Quem pode, pode…
12-Casal de S.Domingos,R.Alfredo Costa
Já foi espaço expositivo, mas a cultura segue dentro de momentos.Mais um espaço que podia estar ao serviço da comunidade mediante protocolo com agentes culturais ou artistas.
13-Edifício em frente ao Café “Saudade”, junto à Câmara.Disto não queremos ter saudades.
 
14-Logradouros das antigas garagens do Larmanjat, o primeiro comboio monocarril de Sintra.
Quem,saído do comboio desce para a Vila, depara logo com estes exemplos de desmazelo.E por vezes não há uma segunda oportunidade para deixar uma primeira boa impressão…
15-R.dos Arcos, debaixo do Café Paris, na Vila, também a precisar de obras e limpeza.
 
Já agora, o que aconteceu à cúpula em ruínas desse edifício, que desapareceu misteriosamente?
AGORA
A par disto, outros exemplos: a forma como o mobiliário urbano é arrumado de forma “discreta” ou enquadrado na paisagem, surgindo casos em que muitas vezes é ele em si quase a peça mais dominante do espaço envolvente, como  muitos dos  recipientes de lixo,dominantes na paisagem ou erradamente colocados, o atestam.
Outros aspectos a ter em atenção, tendo em conta a existência de um Elucidário Arquitectónico aprovado, são os letreiros, a adequar à imagem de conjunto e não dissonantes, como o da imagem abaixo; e a necessidade de aos poucos ir retirando as “espinhas de carapau” das antenas antigas.
 
E já não falamos de outros exemplos, mais na zona de S.Pedro de Penaferrim: a Gandarinha, esventrada, a Quinta D.Diniz, que ao lado da realeza, dos Marialvas e outros fidalgos, parece o solar do Cavaleiro sem Cabeça. Alguém com cabeça para viabilizar isto? Já lá se realizaram actividades culturais muito interessantes nos anos 90.Quando o interesse público for mais forte que o direito de herdeiros,o Estado de Direito vencerá o imoral direito a estar neste estado…E a Quinta de Santa Teresa? Nem hotel, nem solar, nem habitação. Assim é que está bem, talvez  à espera que os Dois irmãos do túmulo à porta ali dancem à noite uma valsa walpurgiana entre fluidos inspirados em De Groer.E muito mais.Apontar não é escarnecer, é lembrar para que não saia das preocupações.Só assim seremos dignos de Sintra Património da Humanidade, maravilha natural onde estas coisas não podem nem devem ser naturais.
 
Deixa sobre as ruínas crescer heras,
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!
 
Florbela Espanca   
publicado por Fernando Morais Gomes às 09:31

Excelente post como habitualmente. Infelizmente tudo o que escreveu aqui é a mais pura das realidades. Esta é também uma "guerra" que eu tenho combatido embora com a modéstia dos meus artigos. Há muito que designo Sintra, a minha terra, como a capital do desleixo. E como me custa dizer isso!
Guilherme a 6 de Maio de 2011 às 11:24

Estimado Fernando Morais Gomes,
Como o compreendo, como sofro, como me envergonho,

O tão simples roteiro que aqui traça é um espelho restrito de quem nos tem governado nos últimos anos.

Sintra apenas tem servido para objectivos pessoais de gente cheia de lábia, de belas palavras que nos envenenam.

Chegámos a isto e, sem um traço de acanho, é vê-los quase dia sim dia não a falar de Sintra, a mostrarem a cara que devia estar pintada de uma cor horrivel.

Sintra é a catapulta para outras ambições, mas ao menos sejam leais para com a terra que os recebe tão bem.

É hora de pepararmos o futuro com sintrenses dedicados e garantes de melhor futuro, que vivam para Sintra e por ela, mas toda ela.

Um obrigado pela sua escrita e um abraço,

Fernando Castelo

Fernando Castelo a 8 de Maio de 2011 às 10:37

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