por F. Morais Gomes

06
Mai 11

Fazia um mês que Sílvia se encontrava reclusa numa cela em Tires, grávida de um filho. Vinte e dois anos de pobreza, caída na prostituição, fora apanhada uma noite no Cacém com uma pequena quantidade de haxixe, guardada a pedido do Marco, ele fugira, deixando que a prendessem, junto com duas amigas no privado do bar de alterne. Na cela, Sílvia pensava o quanto a sua barriga crescera nos cinco meses que levava de gravidez, não estava tão ágil como dantes. Se não estivesse tão pesada e disforme, certamente teria conseguido fugir dos seus perseguidores e escapar quando a polícia a perseguira naquela noite, como nos tempos em que corria sentindo o vento nas costas e o sopro da brisa batendo no rosto, convidando-a a participar na valsa da vida.

Conseguia perceber os contornos daquela criança no seu corpo, o espernear, o coraçãozinho batendo. Em toda a sua vida as coisas quase sempre foram acontecendo rápidas e se foram mais velozes ainda. Em seguida, mal se fizera mulher, engravidara do Marco. E agora ali estava trancada numa cela à espera do julgamento. Tudo na sua vida decorrera de forma muito veloz e quando num momento ou noutro parava para pensar sobre isso sempre se sentia frustrada e angustiada.

Agora que transportava outro ser dentro de si, o mero acto de sentar-se numa cadeira bastava para que ficasse extenuada com o excessivo peso que carregava e aquilo acabava produzindo-lhe intensa falta de ar e sensação de formigueiro nas pernas.

Na véspera do julgamento, uma das companheiras de Sílvia afirmara ter absoluta certeza de que seria um rapaz, o formato e o tamanho da barriga indicavam a gestação de mais um infeliz. Ao ouvir aquilo os seus olhos brilharam por um segundo e em seguida se marejaram-se-lhe de lágrimas.

No dia seguinte, quando viu aquela mulher franzina e grávida dar entrada na sala, o Dr. João Baptista, o juiz do processo, sentiu um arrepio e um aperto no peito. A ré afigurara estar muito magra e pálida e carregava uma criança no ventre. Não era a primeira vez que o juiz se encontrava diante de uma situação semelhante, a intensa experiência de trabalho nos juízos criminais  já lhe haviam proporcionado inúmeras cenas parecidas. Em cada uma dessas ocasiões, contudo, sempre experimentara um misto de insatisfação e fragilidade tanto em relação à sua actividade profissional quanto à sua condição de homem e cidadão.

No momento em que avistou Sílvia, o Dr. João Baptista não conseguiu  conter-se. Chamou a escrivã e pediu que ela registasse nos autos tudo o que ele iria ditar a partir daquele momento. Já lera o processo e ajuizara sobre o caso.

A ré estava quieta e silenciosa, o coração parecia querer saltar para fora do peito. Imaginara que iria ouvir ali algo de muito grave e ruim, palavras duras e secas que apontariam e recriminariam a sua conduta actual e o seu passado. No entanto, viu sair dos lábios daquele homem de negro as palavras mais doces que já ouvira, talvez as primeiras mesmo em toda a sua vida.

Eram pouco mais de três horas da tarde. E foi ali, que o juiz, a quem um filho de três anos falecera meses antes, principiou a ditar para a escrivã:

“O tribunal considera que a ré é repetidamente marginalizada: por ser mulher, numa sociedade machista; por ser pobre, possuidora apenas de  sete palmos de terra; por ser prostituta, desconsiderada pelos homens mas amada por um Nazareno que em tempos passou neste mundo; por estar grávida, santificada pelo feto que tem dentro de si, mulher diante da qual este Juiz deveria ajoelhar, numa homenagem à maternidade”.Nesse momento, o Dr. João Batista fez uma breve pausa e dirigiu um olhar na direcção das duas mulheres que se achavam na sua companhia, Sílvia e a escrivã Virgínia.

Esta última, espantada, olhou o juiz como que dizendo, não pare, continue, vá em frente! E foi o que o juiz fez :”Quando tanta gente foge da maternidade; quando se deve afirmar ao mundo que os seres têm direito à vida, quando, por motivo de conforto ou até mesmo por motivos fúteis, mulheres se privam de gerar, a ré engrandece hoje este tribunal, com o feto que traz dentro de si. Este Juiz rasgaria todos os seus princípios, trairia a memória de sua Mãe, se permitisse que a ré daqui saísse sob prisão. Saia livre, saia com seu filho, traga seu filho à luz, pois cada choro de uma criança que nasce é a esperança de um mundo novo, mais fraterno e mais puro”

Assim que terminou, o magistrado sentiu que o seu coração estivera prestes a explodir, mas que agora se aquietava subitamente. Sílvia escutara tudo em pé, entre silenciosa e aflita. Ao ouvir, porém, a palavra “saia”, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas para em seguida se iluminarem com um brilho profundo e diferente. Um sorriso de pura alegria surgira no seu rosto cansado e pálido. Junto com a satisfação que sentira ao saber que deixaria a cela escura e fria, o juiz rematou: “É uma dupla liberdade a que concedo neste despacho: liberdade para a ré e liberdade para o filho que aí vem.” Foi provavelmente naquele momento que a vida de Sílvia ganhou um sentido, recuperara de volta o direito a uma existência, como se a sua vida houvesse regressado ao ponto de partida e tudo tivesse recomeçado e uma misteriosa borracha apagasse todas as mágoas e dores que tanto a haviam feito sofrer.

Senhor Doutor Juiz – ousou Sílvia, mal acreditando no que escutava – eu estou livre, estou realmente livre?

O juiz balançou a cabeça afirmativamente:

– Está sim, dona Sílvia. Está livre para ir embora e seguir o seu próprio caminho. Está livre para ter o seu filho decentemente como qualquer mãe e mulher deste país. E bem longe dos muros e das celas de uma prisão...

– Doutor João – continuou a mulher, com os olhos cada vez mais brilhantes – antes de partir, quero fazer-lhe uma promessa: se esta criança que carrego comigo for homem e com vida vier a nascer, há-de ser baptizada com o seu nome. João Batista se chamará. Ficará sendo essa a minha homenagem ao senhor e a este dia.

A isso, o juiz respondeu:

Mas sabe a senhora como morreu o outro João Batista, aquele da Bíblia?

– Não, não sei.

– Cortaram-lhe  a cabeça

– Não há problema, doutor João. Não tem importância. O menino chamar-se-á João Batista, exactamente como o senhor.

Um ano depois, Sílvia deveria voltar ao tribunal, perante o juiz. Nessa ocasião, no entanto, apresentou-se de maneira bem distinta daquela em que se haviam encontrado naquela sala de audiências. O rosto era corado, um sorriso saudável. É verdade que engordara um pouco e por isso já não parecia tão franzina e miúda quanto aparentara na outra ocasião. Era entre os braços que se encontrava a maior diferença.  Trazia um rosado rapaz, exactamente como havia prenunciado a companheira de cela, baptizado com o nome de João Baptista, como prometera. A simples presença daquele nome como que antecipava para ela a real possibilidade de que a vida do menino pudesse ser sinal de esperança no futuro. Aquele nome com certeza traria o dom de fazer com que tudo de mais belo e maravilhoso que existisse no mundo já principiasse a calcorrear os caminhos desde o seu nascimento e o nome de baptismo. Começava agora de facto uma nova existência para Sílvia e tudo haveria de ser tão maravilhoso quanto aquele significativo nome que dera ao seu bebé.

Quanto ao Dr. João Baptista, não lhe cortaram a cabeça, como ao profeta, mas naquele dia, fazendo a jurisprudência dos justos e o acórdão do perdão, muitos colegas por certo acharam ter perdido a cabeça.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:34

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