por F. Morais Gomes

08
Mai 11

Vinte e três anos, estudante de Direito, filho de pescadores da Ericeira, Raul gostava dos domingos para as suas conquistas nos bares da vila, na Primavera mais cheia de gente e de turistas em busca das marisqueiras. Um certo domingo, conheceu Vanda, uma morena de longos cabelos anelados, generosa de formas, pernas roliças escondidas dentro dum vestido de chita, que melhor se delineavam cada vez que se sentavam no banco da praça, junto ao coreto. Um pequeno sinal na testa fazia com que parecesse mais bonita e interessante. Depois dum copo no Ouriço, deram o primeiro beijo e no areal escuro da praia se entregaram apaixonados. Apesar do céu carregado de nuvens escuras, aquela noite foi vivida com emoção, as estrelas brilhavam, o luar, magnético, tinha suaves contornos prateados.

Uns dias mais tarde, sem aulas em Lisboa, saiu com o pai e os homens para a faina, apesar de futuro advogado, havia que ajudar a família, dali lhe vinha o dinheiro para o curso. No meio da pescaria, a nortada chegou de mansinho, para logo em seguida aumentar e não lhes permitir a volta, com o mar encrespado e vagas de três metros. A embarcação não conseguiu voltar ao porto, e acabaram arrastados para uma praia já para lá de Santa Cruz. Extenuados, conseguindo trazer o pequeno barco para junto da praia, sem rede de telemóvel para contactar a família ou a capitania, acomodaram-se perto dum pinhal, pensando ali passar a noite e regressar no outro dia, de barco se possível. De repente Feliciano, um dos pescadores apontou na direcção duma clareira, vira ao longe uma luz que acendia e apagava, dirigiram-se para lá. Em determinado momento, começaram a ouvir cantos, um refrão repetitivo de vozes estridentes e femininas, palavras ininteligíveis e gargalhadas, parecia outra língua. Seguindo em frente, já apreensivos, o clarão de fogo ficou melhor delineado no escuro, era uma noite de breu. Como por encanto, abriu-se uma clareira e mudos, amparados pelo negrume da noite, viram à sua frente um espectáculo dantesco. Na clareira, iluminada por uma grande fogueira ao centro, estavam a dançar umas vinte mulheres encarquilhadas e horríveis, vestindo túnicas negras, de grossas sobrancelhas e rostos angulados, algumas tinham disformes narizes pontudos. As mãos eram nodosas e terminavam em longas unhas, o cabelo cor de galho seco. O vento norte sibilava, insistente, mas nada mexia na clareira, ali o vento parecia não entrar.

Possessas, executavam uma dança em torno do fogo. A roda que formavam ora seguia para um lado, ora para o outro. Ao lado do fogo, numa pedra lisa que mais parecia uma mesa, sobre uma toalha feita com pequenos pedaços de tecidos das mais diversas cores, estavam objectos em metal e pedra, amuletos sinistros, dentre os quais se destacava um enorme novelo de corda e objectos pessoais, relógios, fios de ouro, pares de óculos, coisas que pertenceriam por certo a outras pessoas. Abismados, Raul e os demais, escondidos a alguma distância, tinham agora a certeza de estar a assistir a uma reunião de bruxas, uma missa negra ou sabath, Raul já lera sobre o assunto, embora fosse mais frequente na serra de Sintra, estavam lidando com pertences de pessoas a quem quereriam mal ou pela certa dominar.

Lá à frente, elas continuavam cantando sem cessar a estranha melodia, antes fraca e agora ensurdecedora, interrompida por gritos e risos macabros. Um caldeirão no centro da clareira exalava vapor, uma delas remexia-o metodicamente com uma colher de pau. Pegando em canecas de barro e provando a mistela esquisita, pareciam mais excitadas com os cantos histéricos e incompreensíveis.

A dado momento, uma delas parou o canto esganiçado, saiu da roda, chegou perto da moita onde se escondiam os náufragos e voltou-se para eles, revelando saber que ali se escondiam, apontando o longo dedo indicador, parecendo penetrá-los, possui-los, fazendo com que permanecessem quais estátuas de pedra e medo ante uma terrível medusa. Soltou uma gargalhada estridente, o olhar penetrante atravessou cortante a alma dos pescadores. As outras, ao notar que a companheira parara, pararam também e voltaram-se na mesma direcção, de repente os desgraçados tinham para si virados dezenas de olhos, faiscantes e perturbadores. Parando a dança, as feições maléficas na direcção da moita, uma risada em coro precipitou Raul e os demais em correria de volta à praia e ao barco.

Elas não os seguiram, voltando ao canto, para eles, porém, todas as bruxas da terra estavam ali atrás. Antes uma noite diabólica, lutando com o vento e as ondas que aquela cena de filme de terror.

Já de manhã, com o mar mais calmo, chegaram à Ericeira, contando o sucedido, perante a zombaria e troça dos outros, tão depressa não esqueceriam o que viram.

À noite, no Ouriço, Raul encontrou Vanda e deu-lhe conta do ocorrido, agitado, ainda fora de si. Ela ouviu, de olhos baixos, impávida. Quando ele terminou, estranhou a placidez da reacção da namorada.  Afagando-lhe a cara e olhando-a de frente, Raul sentiu um frémito de pavor, sentiu com aterradora certeza, que já vira antes aquele olhar. Era o mesmo olhar da bruxa que primeiro descobrira os intrusos no pinhal junto à praia, avermelhado e hipnótico.

Não fugiu, sentiu que não adiantaria. Já estava inexoravelmente dominado. Pegando a mão gelada de Raul, Vanda passeou-o junto ao miradouro, ele em silêncio, absorto, ela, disfarçando um esgar de caçadora, segurando a sua presa, títere amestrado, o sinal na testa agora mais saliente. Para o resto da sua vida seria conduzido por ela.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:39

Anónimo a 8 de Maio de 2011 às 21:38

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