por F. Morais Gomes

09
Mai 11

O avião descolara com bom tempo embora ameaçasse chover sobre o golfo da Biscaia, o avião da BOAC esperava já turbulência, alheio e algo cansado, Leslie Howard descontraía. Passageiro no voo 777 de Lisboa para Bristol,conversava com Alfred Chentalls, sobre a guerra e o avanço dos nazis, o mar da Cantábria via-se ao longe. Lá em baixo, os campos  familiarmente verdes, ao longe do lado direito as neves dos Pirinéus irrompiam eternas nos cumes. A noite seria bela, mas complicada.

Howard, conhecido actor e suposto colaborador dos serviços secretos de Sua Majestade regressava a Inglaterra após uma visita de objectivos ambíguos. Em Maio de 1943, o actor de “E Tudo o Vento levou…”, com Clark Gable e Vivien Leigh, deslocara-se a Portugal. Estivera em Lisboa e posteriormente no Estoril, no Hotel Atlântico. A 1 de Junho embarcava no avião que o levaria de volta a Inglaterra.Aparentemente viera em passeio, porém encontros suspeitos no Estoril e em Sintra deixaram a legação alemã em Portugal de sobreaviso, telegramas haviam seguido para Berlim alertando da partida do inglês para Bristol. Alfred Chentalls, um dos treze passageiros, era extremamente parecido com Winston Churchill, fumava charuto igualmente, Leslie chegou a ficar confundido ao vê-lo, quando à última hora conseguira lugar no voo. Chentalls gracejou com ele:

-Já estou habituado a ser confundido com o velho, Howard. Sabe o que ele costuma dizer? Não há lugar público nenhum em Inglaterra onde não façam homenagem à sua pessoa. Todas têm uma porta com a inscrição W.C.Winston Churchill, está ver?- galhofava o obeso inglês, dando mais uma charutada.

Lá em baixo, as casas eram minúsculas, da janela iam contemplando  uma paisagem familiar. Descansando a vista, Leslie sonhava com Ruth e o próximo filme a rodar para a Paramount. Os demais passageiros eram quase todos diplomatas em Lisboa, alguns haviam mesmo pedido autógrafos, o Ashley de Gone With the Wind era conhecido em todo o lado,a Academia de Hollywood lembrara-se dele. Na costa da Biscaia, anoitecendo apenas um punhado de luzes se vislumbrava. Tudo o que abrigava vida humana cintilava já. O piloto verificou os manómetros e ficou satisfeito, sentia-se solidamente sentado no céu, nem vertigem, nem embriaguez, apenas mais um voo, numa Europa insegura e com os céus pejados de aviões do Reich. A rota escolhida era segura, porém, e as ligações com Lisboa também, dada a neutralidade assumida perante o conflito.

De Bristol, Leslie seguiria para Londres e depois para a América. Uma hospedeira, servindo uma refeição ligeira pediu-lhe um autógrafo, vira “Pigmaleão” duas vezes e ainda recentemente o “Paralelo 49” , o  seu ar franzino aconselhava-o para papeis de dandy e aristocrata inglês, essa era a sua imagem de marca. Ali, contudo, dormitava, simples e afável, só queria chegar e um banho quente.

Inopinadamente, já o avião cruzava o Canal, um inesperado avião fez  entretanto menção de se aproximar do lado nascente. O modelo e a sinistra suástica não deixavam dúvidas, a Luftwaffe andava por ali. O piloto experimentou afastar-se dum possível contacto e Chantalls apagou o charuto, assustado, a coisa não era para risos, o ruído do motor inimigo era cada vez mais denso a aproximar-se.

-Estes tipos não costumam meter-se com voos comerciais, Howard- comentou Chantalls- deve ser para nos intimidar, estes boches são todos uns fanfarrões!

-Não sei, não, porque se aproximaria tanto, se assim fosse? Vai ver que julgam que você é o verdadeiro Winston alguém em Lisboa os avisou do seu embarque…-Howard estranhava o comportamento, era um avião de guerra, a França ocupada estava a minutos apenas.

 O piloto abanou a cabeça e, voltando-se para os passageiros olhou-os, gravemente, como se antecipasse algo grave, de repente os vinte minutos que faltavam para o destino pareciam longe demais. Os seus músculos estavam tensos, como os de um animal que se prepara para o salto, mas havia que demonstrar calma. Sem que tivessem tempo de dizer mais nada, um disparo certeiro atingiu-os, e o avião caíu a pique, despenhando-se no mar, não mais voltando a ser visto ou recuperado. Todos os ocupantes do voo 777 morreram naquele malfadado dia 1 de Junho de 1943.

Passada uma hora, em Berlim, um telegrama anunciava eufórico que Winston Churchill havia sido abatido quando discretamente regressava de um encontro secreto em Gibraltar, via Lisboa. A gloriosa Força Aérea do Reich havia-o eliminado e à comitiva. Eufórico, o Fuhrer preparava-se para festejar o sucedido quando nas ondas curtas da BBC Internacional as SS captaram uma voz familiar, rouca e decidida:

-“ This is London, and we´ll never surrender!”

 

 


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:25

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