por F. Morais Gomes

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No cais do Restelo, Bartolomé Marchione suscitava bulício e dava ordens no seu cantante sotaque florentino, língua de poder e de dinheiro. Fixara-se em Lisboa muito jovem, atraído pelos sucessos marítimos dum reino lontano, e logo  participara no financiamento da frota enviada pelo Príncipe D. João às costas da Guiné e à guerra contra Castela.  Importante negreiro, judeu converso, ajudava a forte ligação com Isaac Abravanel, grande banqueiro de Lisboa, que financiara  Colombo.

Passadas três fartas décadas, prosperara, Lisboa sorrira ao florentino, sagaz e cauteloso, mas empreendedor e de mão firme. No tempo do Senhor D. Afonso V negociara em marfim, lançara-se depois na malagueta, D. João II dera-lhe a Casa dos Escravos. Todos os cativos que saiam da Guiné, passavam-lhe pelas mãos, seus igualmente os negócios do açúcar e vinhos da Madeira que exportava para os Medicis e para Bruges. Quando D.Manuel proibiu os estrangeiros de se dedicaram ao comércio do açúcar da Madeira, os únicos excluídos foram dois florentinos: Marchione e o seu sócio Sernigi.

Sernigi. Jerónimo viera com ele, juntos haviam acumulado fortuna entre o partir e o chegar de navios, no escambo e comércio, com alguma usura pelo meio, o tráfico de favores facilitador.Dias antes a Rainha D. Leonor recorrera aos seus serviços para  enviar açúcar e  especiarias para o Mosteiro della Mureta, em Florença, Jerónimo Sernigi de tudo tratara, o favor não ficaria por retribuir. Haviam sido eles, aliás, quem em tempos financiara já a viagem de Pêro da Covilhã e Afonso Paiva em busca do Preste João.

Num sagaz jogo duplo, ele e Sernigi espiavam igualmente para os florentinos, passando-lhes informações sobre as descobertas dos portugueses e aquele Mar-Oceano que não cessava de aumentar os domínios dos Avis. Recordava bem ter sido ele a informar do regresso de Cabral dessas estranhas terras de Vera Cruz. Em Espanha Juanoto di Barardi, filho do seu sócio Lorenzo e Cesar Barci faziam o trato dos escravos, e reforçavam a rede de contactos.

Uma nau recortava o horizonte agora dos lados da nova torre. Em Belém, açafatas e aguadeiros corriam agitados, era o barco de Antuérpia, a carregar. Chegadas e partidas eram sinal de maravedis, ouro, especiarias, poder, o poder dos Marchione na Lisbona fervilhante, capturada dos seus sacos de moedas e armazéns repletos.Depois da chegada de Vasco da Gama da Índia envolvera-se também no comércio asiático, depois com o Brasil. Na expedição de Pedro Álvares Cabral seguira uma nau sua, a Anunciada, em sociedade com Sernegi. Como em todas, aliás: na armada de 1501, comandada por João da Nova, às suas custas seguiram duas das quatro naus, na de 1502, às ordens de  Vasco da Gama, uma, em 1503 outra com Afonso de Albuquerque, três em 1505 na de Francisco de Almeida.

Há longos anos em Portugal, amava o reino e seus sucessos, e assim se alvorava, perante o rei e o povo. Quando desafortunadamente um dos seus navios foi apresado pelo corsário Giustiniani, próximo de Marselha, afirmou a sua condição de súbdito do rei de Portugal, e foi nessa condição que o navio lhe foi devolvido por Génova.

Com o peso da idade, recolhia-se mais nas casas da Caparica, com Catarina Mendes, o ano de 1524 chegava ao fim e os negócios estavam resolvidos por essa semana. Passando pelo Mal Cozinhado, a tomar um prato de sopa, cruzou-se com duas mulheres que aceleradas corriam para o piso de cima, uma estaria a ter hora apertada, dizia o estalajadeiro:

-Porfie o rebento diferente do que sua mãe porfiou, Senhor, pois pobre de fazendas como nasceu maleitas e arrelias lhe hão-de sobrar!- arengava o taberneiro, servindo o florentino senhor de fartos cabedais. Bartolomé concordava:

-Tem este Reino índias tais e tão desvairadas gentes que por elas se perderão muitos dos seus, ricos e pobres, Brás Ramires!

Passados uns momentos, uma velha parteira com o nascido ainda em sangue passava a banhá-lo, e dar-lhe peito, que a mãe ficaria no recobro, Marchione, curioso, perguntou quem era a embaraçada:

-É uma perdida da vida, Senhor, mulher de muitos homens, ave de muitas naus, no porão duma diz ter homem de Galiza desfrutado dela.

-E como se chama o infeliz que ora vem ao mundo a engrossar os porões das naus, se a peste ou moléstia o não levar antes?

-Camões. Houve por nome Luís de Camões.

publicado por Fernando Morais Gomes às 00:37

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