por F. Morais Gomes

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Mai 11

Aquele 20 de Janeiro de 1554 parecia auspicioso. Póstumo do príncipe D. João, único herdeiro de João III, a descendência ficava assegurada por auspiciosa dádiva de Deus, Sebastião se chamaria, por nascer no dia de tal santo, desejado herdeiro do velho rei a quem todos precediam em precoce encontro com a morte. Três anos depois, o Piedoso morria e na débil criança se focava a  esperança de continuar o Reino. Serafim entre velhos, crescendo com a avó beata entre inquisidores cardeais, à noite nebulosos jesuítas lhe apareciam em pesadelos, mortificando-o por lhe ser negado o carnal desejo, mortal pecado em reino casto e de castrados. Sem pai antes de nascer, mãe distante, nele viam os grandes monge e militar brioso, destinado à Ultima Cruzada, glória das armas , temerário aos perigos. Caçador audaz, émulo de Nun’Álvares, Inverno em Sintra e Verão em Almeirim, em dias de temporal folgava de embarcar nas galés e absorto ao longe contemplar o mar embravecido, do lado de lá estaria um dia o seu destino. O amor, efeminado sentimento vedado a guerreiros  mumificados idosos lhe tiravam, jovem e garboso o afastariam de Belzebu. No leito, Sebastião padecia na carne. Fraco sémen, agoirara o médico enviado de Espanha pelo tio Filipe, aziago acidente de caça causara o mal, atroz dor nos momentos de prazer, segredara o padre Câmara do alto da batina negra, o audaz guerreiro e  predador de ursos em Sintra temia pelejar a batalha maior que o Reino exigia: procriar, gerando descendência aos Avis e segurança aos povos. Pior que mouro infiel ou javali acossado eram essas figuras maléficas, esses chifrudos disfarçados de fêmeas de alvos peitos que pela fé  deveria evitar,apartando-se de  impuros leitos onde, frágil, seu sexo faria por certo zombar tais corpos ávidos da luxúria que, qual novo Condestável, era seu mister matar. Todas as que lhe ofereciam, sinuosas cria já ter visto em telas de Brueghel e Dürer, os monstros satânicos surgindo de escuros esconsos eram gulosas fêmeas predadoras, no campo de batalha e longe delas se redimiria, a descendência podia esperar. Como as cortes insistissem para que escolhesse noiva entre  princesas europeias, simulou resignar-se, escolhida foi Margarida de Valois, a bela Margot. Espanha opunha-se, tratou de oferecer a arquiduquesa Isabel, mas o tio,Filipe II casou-a com o rei de França, Carlos IX. Sebastião, politicamente desagradado mas intimamente satisfeito, tomou a deixa como pretexto para  recusa em novas negociações para um casamento, ao enviado Nicot despachou com azedume, por uma vez, aliviado, adiava expor as agruras do corpo no delator leito de núpcias. Estavam seguros os jesuítas, e seguro o louro pupilo, possuído à noite por fantasmas. Mandando abrir os túmulos dos antepassados, extasiava-se diante dos guerreiros, mostrava desdém pelos pacíficos, índole destemperada e bravia febril servia o jogo jesuíta. Abstémio na alcova, corajoso porém no Campo de Marte: vindo um legado papal convidá-lo para cruzada contra os turcos, abraçou com entusiasmo a ideia, informou Veneza que marcharia em auxílio, escreveu ao Xá  dos persas para que atacasse pelo Oriente, que os cristãos o atacariam pelo Ocidente. A Carlos IX mandou dizer que aceitaria  Margot se ele entrasse na cruzada. Não só se resignava ao casamento, como recusava o dote, e se comprometia a pagar a Carlos para guerrear os huguenotes do seu reino, a Valois contudo era já noiva de Henrique de Navarra. Ansioso por glória resolveu passar à Índia, dissuadiram-no da ideia; quis partir para África, também disso o dissuadiram; pensou  aprestar frota para socorrer Carlos IX na guerra aos huguenotes, a matança de São Bartolomeu dispensou tal auxílio; quis ir ao Oriente, tempestades no Tejo lhe dispersaram a frota. Sebastião de Portugal, coroada criança,  sonâmbulo errava em febril loucura. Em Agosto de 1574 secretamente passou a África, sem prevenir pessoa alguma, terror quando se soube do desaparecimento sem se saber para onde. Tardia carta régia participava a expedição, nomeando regente o cardeal D. Henrique. Os mais autorizados suplicaram-lhe que voltasse. Voltou, mas em estado de tentar nova empresa. A sua hora chegava, a perdição do Reino inexorável aproximava-se na ampulheta do Tempo, perigosamente um herdeiro ansiado faltava no berço vazio do Paço da Ribeira. Sebastião, que tudo deixava entregue a seus ministros, só  em expedição africana pensava. Esse o seu encontro com a História, seu decidido empenho. Munido da espada de Afonso Henriques e de uma coroa de ouro que colocaria quando novo imperador de Marrocos, partiu  num 25 de Junho de 1578 com 800 velas e  18.000 homens rumo ao febril sol africano. Seguia Quixote e seus hipnotizados Sanchos, sem Dulcineia para amar,  em silêncio chamado pelo Adamastor do deserto, cadáver antecipado dum reino em breve cadaveroso. O choro tranquilizador dum herdeiro afastava-se imprudentemente dos salões do Paço. Jovem sem juventude, infante  infanticida do Reino,breve nas areias de Marrocos o rosto alvo,ceifado na certa por personagem de Brueghel, inerte sorria olhando o céu na tarde desse infausto Agosto. Á mesma hora em Paris, Margarida de Valois, infeliz esposa de Henrique de Navarra e sem saber do sucedido, acariciava um retrato a óleo de Sebastião. Imberbe, puro, talvez com ele pudesse ter sido feliz. Também para ela o amor fora adiado, enterrado nos salões do Louvre num atribulado casamento de Estado. No solo de Larache ou nos salões de Paris, vidas se perdiam, e povos também. Começavam enfim as  manhãs de nevoeiro…


publicado por Fernando Morais Gomes às 03:18

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