por F. Morais Gomes

18
Mai 11

             Presidente Craveiro Lopes em Sintra, 1957

 

O telegrama não deixava dúvidas, o doutor Salazar convidava o presidente da Câmara de Sintra, César Moreira Baptista para Secretário Nacional da Informação. Tinha data de 1 de Fevereiro de 1958, a posse seria a 26. No seu gabinete, ufano, o homem que há cinco anos “ a bem da Nação” conduzia os destinos do concelho era chamado a um alto cargo, porfiara a sua postura labiosa e reverente, acondicionando a brilhantina no cabelo, era chegada a hora de Baptista. Chamando a secretária, para reunir os colaboradores, deparou no claustro da Câmara com o Carlos Brousse, funcionário com anos de serviço, sem resistir desabafou:

-Ó Brousse, ainda bem que o vejo! Já sabe da novidade? O doutor Salazar chamou-me para o governo!

Habituado às rotações dos presidentes, este para mais de Cascais, Carlos Brousse sem grande júbilo e moderada satisfação, cumprimentou o novo secretário, a Nação ficava enriquecida com tão eloquente contributo, rematou, cumprimentando com uma vénia o ainda presidente. Moreira Baptista, aguardando pelos outros, chamou-o para o gabinete:

-Ah, mas vou sentir saudades disto, Brousse. Já avisei o Medina do Jornal de Sintra e o Américo Santos, vêm aí agora!

-E logo agora que anunciou o teleférico para Sintra…- recordava o Brousse

-Ah, sim, mas dentro de seis meses será uma realidade! E o hospital se tudo correr bem, para o ano! A política de fomento do senhor presidente do Conselho trouxe Portugal ao encontro glorioso com a sua História!- emulava o escolhido, chafarizes só recentemente inaugurara sete.

No ano anterior, Sintra tivera momentos de bulício na sua tradicional pacatez, Maria Almira, a filha do Medina e poetisa em ascensão editara o livro “Madrugada”, a orquestra de Domingos Vilaça abrilhantara A Tarde das Estrelas na Sociedade União Sintrense, o presidente Craveiro Lopes com pompa inaugurara a electrificação da linha de Sintra, abrira a Casa Museu Leal da Câmara. A operadora do PBX, também recentemente inaugurado, anunciava uma chamada, era o Visconde de Asseca, o homem da União Nacional, Moreira Baptista acorreu obediente, o regime e a Pátria sempre em primeiro lugar, o visconde estava a caminho de Sintra.

Duas horas depois reuniam todos na sala das sessões, a hora era de júbilo, apesar de tristeza pela partida, interiormente Asseca cogitava se não seria ele o novo presidente nomeado pelo Governo. Após os abraços, e chegado o Medina do Jornal de Sintra, D.António Corrêa de Sá, visconde de Asseca usou da palavra:

-Meus senhores, é com a voz embargada pela emoção mas peito inchado e explodindo de alegria que saúdo a nomeação para as altas funções de que vai ser investido o Sr. Dr. César Moreira Baptista! Recordo a sua extraordinária obra, a inauguração do campo do 1º de Dezembro, a compra do Casino, a abertura de Seteais ou as extraordinárias piscinas da Praia das Maçãs. Creia-me, Excelência, consigo o progresso chegou a Sintra, ombreando hoje com as terras mais prósperas de Portugal e até do mundo, onde Portugal é farol de fé e exemplo de bem fazer!

O homenageado corava, a bem dizer limitara-se a inaugurar, já vinha tudo de trás, muitas obras eram de particulares, as palmas e os “muito bem” dos presentes acicatavam-lhe interiormente a vaidade. O Medina, tirando notas, aplaudia, em mais de vinte anos outros presidentes haviam passado, várias vezes noticiara obras que nunca saíram do papel, matreiro, à parte comentava com o Brousse:

-Então e a seguir? Já se sabe quem será o substituto?

-Ainda não. Pode ser o visconde, ou o Joaquim Fontes, o médico…

-Seja lá quem for, que seja melhor que este penteadinho. Agora vai lidar com a Censura…- Medina aludia a um dos pelouros do novo secretário da Informação, o exame prévio, já com eles tivera problemas e a Almirinha era suspeita de companhias indesejáveis. Em surdina lançou a novidade:

-Soube que o Carlos da Paula quis alterar o uso do Sintra Garagem? O tipo ali não deixou. Tomou-o de ponta…

Entre o grupo, Eduardo Gaio falava agora, Medina e Brousse acompanhavam nas palmas sem ouvir o que dizia, o director do Jornal de Sintra acabava de reunir com um grupo de  jardineiros  que pediam divulgação para a  Festa da Dália nos “Aliados”, em S. Pedro, a orquestra Os Marmorites, de Pêro Pinheiro actuaria inclusive, o homem de Tavarede nunca dizia não às colectividades locais.

Parada no tempo e em dias a sépia, Sintra crescia lenta nesses tempos, sonolenta princesa às portas da cidade grande. Zona balnear em expansão, só algumas terras tinham água canalizada e luz, o festival de Sintra e o baile das Camélias animavam a “saison”, onde a burguesia local exibia chapéus e filhas casadoiras, era o tempo inocente dos jogos florais e das construções na areia. Em S. Pedro campeava a guerra entre caracóis e papo-secos, contra e a favor da fusão entre Aliados e 1º de Dezembro, com pompa e notícia no jornal o Carlos Manuel inaugurara quatro anos antes o Cinemascope, grande atracção, com direito a camionetas especiais e excursão. A Serra, serena, assistia, imutável.

Marcado o jantar de despedida, no qual a melhor sociedade local com encómios se despediria do amado presidente, Brousse e Medina saíram para a Vila, a comentar o caso na Camélia. Joaquim Fontes, soube-se depois, seria o sucessor, Asseca ficaria para mais tarde.

Dezasseis anos depois, a 25 de Abril de 1974, César Moreira Baptista era ministro do Interior do regime deposto e um dos dois ministros que acompanharam Marcelo Caetano no Quartel do Carmo, e o seguiram para o exílio no Funchal. Em Sintra, ninguém mais lembrou o estimado presidente de 53 a 58, os presidentes iam passando, o Brousse, esse, foi ficando até aos anos noventa. Morreu há três semanas.

            César Moreira Baptista(o terceiro, segurando a ponte)

publicado por Fernando Morais Gomes às 01:10

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