por F. Morais Gomes

19
Mai 11

Faltou a luz, eram seis da manhã. Luís Filipe chegara da Concha, no velho dancing da praia toda a noite abanara o capacete com a Ângela, o Valério deixara entrar sem pagar. Toldado pelas cubas libres, embalado pelos Duran Duran, o carro do pai não pegara e voltaram a pé, quatro quilómetros até Janas. Toda a noite chovera, normal em Novembro, no dia seguinte o pai fazia anos, passaria pelas brasas até ao meio-dia pelo menos, a tia Glória viria de Lisboa para jantar. À saída da Concha a chuva estava mesmo pegada, na Praia das Maçãs nem vivalma, só eles, malucos, a curtir a noite, habitual há mais de seis anos.

Com a boca a saber a papel de música, que  as misturas não perdoam e deixada Ângela em casa, atirou-se para cima da cama, na vidraça a chuva flagelava, sabia bem o remanso do edredon e ouvir chover lá fora, as coisas com a Ângela prometiam, na noite seguinte tomariam café no Bibió.

Até ao meio-dia pareceu um lapso de segundos, a mania de abrir as cortinas a desvendar o dia interrompia o sono dos justos após mais uma noite de farra, a Miquelina anunciava o almoço, a senhora queria que o menino almoçasse com o senhor engenheiro, era o seu aniversário.

Enfiada uma T-Shirt dos Ramones, desceu para a sala, lá fora, o Crispim, o velho caseiro chegava assolapado. Fora uma desgraça dizia, Luís Filipe alheio, roubava uma maçã, mais uma derrota do Sintrense, por certo, o velho era ferrenho, fora defesa nos tempos de jovem:

-Ui senhor engenheiro, nem queira saber! O rio subiu mais de seis metros! Em Colares, até os tonéis do ramisco andam a boiar cá fora, o Cantinho e o bananeiro, está tudo debaixo de água!

O pai de Luís pasmava:

-Coisa estranha, Crispim, aqui choveu muito, mas nada do outro mundo. Destes por alguma coisa, Mafalda?- sondou junto da esposa, que aquecia o leite na cozinha, enquanto a Miquelina fora ao pão.

-Não, nada de especial. Só se o teu filho deu por algo, andou na vadiagem!- virando-se para Luís, ainda rameloso da noitada, este estava a leste, chovera mas nada demais, eram uns exagerados.

Chegada a Miquelina, sem pão, que não conseguira lá chegar, a velhota benzia-se, ainda com o saco na mão:

-Benza-o Deus, que coisa nunca vista! O meu primo Júlio, que mora ao pé do rio, lá em Galamares, ficou sem nada! Até o frigorífico apareceu em Colares, ao pé do Grémio! Isto quando Deus quer!..

Reparando bem, a luz que voltara pelas nove, fraquejava e não tardou a sumir pelo resto do dia, o jantar de anos do engenheiro estava estragado, a tia telefonava a dizer que de Sintra para baixo não se passava. Maroto, o Crispim ainda confidenciou aos patrões:

-Parece que a Micas, a minha prima, quando veio a chuvada estava enrolada com o Noel, o marido veio a correr a saber se ela estava bem e apanhou os dois em casa dele, com a cheia ele não pôde sair, nem quero pensar a sova que a magana vai levar! -afirmava, solidário com a justiça de macho, a mulher do engenheiro, incrédula calava, nunca dera saída a conversas deste tipo com a criadagem.

Luís decidiu ir ver os tais estragos, uns pinguitos pela certa. De bicicleta,desceu o pinhal de Janas, saído o Mucifal, uma massa de água castanha e com detritos invadira a várzea, entre as maçãs e damascos pululavam desgovernados fogões, mesas, roupa e lixo, junto ao rio a água subira seis metros, até em Colares os carros dos bombeiros ficaram alagados. Passando o Cantinho com água pela cintura, foi ver o mar na Praia Grande, mas a velha ponte ruíra, só por Almoçageme se chegava, falava-se que uma ponte militar ia chegar em breve. Em casa de Ângela, nada sucedera, no Penedo, zona alta, só árvores caídas e a falta de luz denunciavam a passagem da revoada, um rádio a pilhas dava nota de grandes estragos na linha de Sintra, no Jamor e na Ribeira das Jardas a água galgara as linhas de água, a construção em leito de cheia era agora castigada pela Natureza, cruel e sem apelo.

Com o passar do dia, a coisa adensava: todos os galináceos da Ermelinda haviam morrido afogados, a Jacinta ficara sem nada, até a cama foi rio abaixo, levada na enxurrada, a paróquia acolhia alguns, dando-lhes leite quente e cobertores, o engenheiro e a mulher, cancelados os anos foram ajudar os vizinhos, sem luz a festa estava estragada.

Noite cerrada, passada a borrasca, mortos e feridos testemunhavam a fúria dos elementos. Chorosa, recolheram a Jacinta e os seus dois pequenos, pijamas de Luís Filipe, apesar de grandes, refreariam o frio e o terror espelhado nas caras, o dilúvio passara rápido e sem perguntas. Sem luz, ricos e pobres carpiam mágoas de quem nada pode, fogo ou água, Sintra deles tem visita de tempos a tempos. Antes que o dia 19 virasse no calendário, Luís Filipe, já a ressaca da véspera ia longe, depois dum dia tenebroso, puxou do isqueiro, e juntando todos na cozinha à luz de velas, propôs que cantassem os parabéns, com chuva ou sem ela, eram os anos do pai:

-Parabéns, velho! - saudou, dando um beijo na face do pai, para ele mais um aniversário, para muitos um dia que por certo não desejariam recordar. Aos poucos, o rio de Colares acalmava e recolhia das margens, após a fúria passageira, era tempo de reconstruir.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:27

Nesta época eu ainda não morava em Sintra, mas por acaso estava no Rodízio nesse fim de semana, na casa de Retiros (Santo Inácio?).
Lembro-me bem da surpresa com que fomos assistindo aos estragos ao longo do leito do Rio das Maçãs, enquanto o autocarro nos transportava de volta a Lisboa.
Lembro-me que tivemos que dar a volta por Almoçageme por causa da ponte ter ido abaixo, lembro-me do aspecto desolador da Várzea de Colares e lembro-me das casas da Ribeira de Sintra, algumas transformadas em verdadeiras ribeiras elas próprias.
Faltavam ainda uns 15 anos para me tornar Sintrense adoptivo (agora emigrado no Atlântico).
Abraço.
Zé Maria a 19 de Maio de 2011 às 10:23

Eu estava em Galamares, embora ainda morasse em Lisboa nessa altura. Um abraço

Eh lá, e precisamente na madrugada de chuva do dia 19/05 desse ano estava eu a vir ao mundo! As coisas que eu aprendo e fico a saber com o Fernando!
E já agora, espero não ter tido nada a ver com o sucedido..! =)
Daniela Colaço a 19 de Maio de 2011 às 17:50

É verdade, foi uma noite complicada com um amanhecer bem triste na Rua da Azenha. Amigo Fernando continue a dar-nos destas e outras prosas menos sérias.
Obrigado
Pedro Vicente a 19 de Maio de 2011 às 22:17

Foi desolador. Uma imagem que guardo é a água no restaurante Camarão ter deixado só o Camarão de fora.
Bem alta foi a água.
Mas, agora vêm-se novas casas construídas em sítios que ficaram submersos... isso assusta...
Anónimo a 20 de Maio de 2011 às 12:51

Eh Dr. lembro-me tão bem desse dia...de ir com o meu avô ver \"as cheias\". Não só do lado de Colares mas também Cheleiros, Carvalhal todo o Vale do Rio Lisandro...

E é bom lembrar esses sítios da Praia. Abraço.
Rui Romão a 19 de Novembro de 2011 às 09:35

Apesar de ter apenas 8A, recordo-me desse dia como se fosse hoje... foi a primeira tragedia natural que assisti... ao acordar, recordo-me de nao poder descar as escadas de casa, pois a agua tinha mais de meio metro, tudo em casa estava estragado como aliás na maioria das habitações em Almoçageme... mas pior sorte teve uma familia moradora na Rua dos Salgueiros e que viu ser ceifada a vida da mãe de familia que ao tentar fugir da força da água se viu arrastada para a morte so sendo encontrada passado alguns dias
Rui Subtil a 20 de Novembro de 2011 às 01:10

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