por F. Morais Gomes

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Mai 11

Para ele era o fim, cansado de tricas e jogadas rasteiras. Quarenta anos depois de tocar a rebate os sinos da Vila contra o Conde de Sucena que queria murar Seteais,  jardim  do povo desde 1801, duma vida a esgrimir contra poderes fácticos e tiranetes de aldeia, José Alfredo Costa Azevedo, Velho Leão a quem Abril fizera Presidente da Câmara, batia com a porta.

Em funções desde 1974, depois da alegria da liberdade, ele que por ela lutara contra o “Botas” de Santa Comba, escriba de Sintra enterrado em manuscritos posto o serviço do tribunal, fartara-se de facadas, desiludido com os novos tempos. Escreveu a demissão e saiu a pé pela Volta do Duche- graças a ele outra vez Volta do Duche- direito à sua Vila de sempre, ali nascera e crescera, por cima da Piriquita. Já cansado, nos seus sessenta e nove anos, recordava  Mestre Alonso, Norte Júnior, Leal da Câmara, lá estavam todos já, com eles se iniciara nos óleos e pincéis, refrescante pausa no zeloso trabalho de escrivão judicial. Zé da Vila para o Jornal de Sintra, irmão da loja maçónica Luz do Sol, do doutor Gregório de Almeida, recordava agora os tempos da campanha de Norton de Matos, (o velho tinha-os no sítio), e os anos na Sociedade União Sintrense, lá fizera de tudo, de varredor a director, onde estava Zé Alfredo as coisas andavam.

Para ele chegava. Assinada a demissão, ia para casa, a pé - a Câmara dera-lhe carro e motorista, mas dispensara, era pássaro sem gaiola. Em Fevereiro de 1976 a guerrilha partidária ia acesa. Duas coisas lhe confortavam o espírito: inaugurara a estátua a D.Fernando, no Ramalhão- o Lino Paulo barafustara,que era coisa  monárquica, mas teimoso que nem mula levara a dele avante- com emoção inumara as cinzas de Ferreira de Castro, velho amigo, na serra onde quisera repousar.

Passando a curva, à vista do busto de Gregório de Almeida, parou, comovido. José Alfredo fora iniciado nos anos trinta, na Loja Cândido dos Reis, no Rito Escocês Antigo e Aceite, com o nome simbólico de "António Oliveira" e matriculado no regime geral de membros daquela Potência, subsequentemente Companheiro e Mestre, e seguidamente iniciado no 9º grau de Mestre Eleito dos Nove, na Loja Tomé de Barros Queiroz, de Lisboa, do mesmo rito, no 14º grau de Mestre Perfeito Sublime e no 30º de Cavaleiro Kadosh. Com Gregório de Almeida como venerável frequentara a Luz do Sol, loja já desaparecida a meio da Alfredo Costa. O velho médico dos pobres já lá estava na terra da verdade havia cinquenta anos, era ele um rapagão cheio de ilusões e sonhos, tal como como seu pai Pedro um republicano de Sintra.

Chegado à Vila, cruzou-se com Francisco Costa vindo do Valenças, a Biblioteca dava muito que fazer. Saudando o amigo, Zé Alfredo deu-lhe a notícia: fartara-se da Comissão Administrativa, o Cortês Pinto que completasse o mandato,  para ele tudo lacraus sempre às turras. O pai do Arquivo Histórico entristeceu-se, mas compreendeu, homens de letras, a política era por  ideais, não pela distribuição de cargos. Zé Alfredo suspirou:

-Isto assim é como na I República, vai acabar mal, Chico. As sessões de Câmara estão a ficar um inferno, é só greves, para mim chega, eles que se entendam. E a coboiada? No outro dia foi o assalto às Finanças, levaram três mil contos, os miúdos do judo ocuparam o Sintra-Cinema, julgam que isto é a Revolução de Outubro…

-E tu não estás para ser o Kerensky de Sintra, não é meu caro? Compreendo-te bem…- sorria o Francisco Costa.

-Além que está tudo a aumentar: o bacalhau já vai em trinta escudos o quilo, mas um ministro  ganha trinta e cinco contos. Afinal falávamos dos outros, e nem dois anos passaram, e é o que se vê!

-Então e agora, o que tencionas fazer?- sondou Costa, também ele escritor e poeta.

-Ler, escrever, vou para Gigarós tratar dos meus gatos. Olha, amanhã vou a Almoçageme ver a peça do Pérola da Adraga. “A Pérola das Sogras”. São levados da breca, os cachopos!

Seguindo pelo Terreiro D. Amélia,  amigos vieram saudar, o velho Zé da Vila, amigo de todas as horas, era um presidente da Câmara com a porta do gabinete sempre aberta, mal sabiam nesse momento que de Abril em diante deixaria o lugar. Em Abril de 76 haveria eleições para a nova Assembleia da República, era outra fase, para ele só as velharias agora e os manuscritos da Misericórdia. Rato de biblioteca, só aí se sentia bem.

Recebida a notícia da demissão, a cansaço foi atribuída, todos em encómios nos dias seguintes elogiaram o Velho Leão, de Lino Paulo a Lacerda Tavares. Do seu retiro de Gigarós o escriba de Sintra continuaria a chamar os bois pelos nomes, e até morrer, a sorrir à Luz do Sol.


publicado por Fernando Morais Gomes às 05:41

Em 1982 estive em Sintra para fazer um trabalho de grupo para a disciplina de Português, no âmbito da leitura dos Maias. Andávamos a fotografar os locais por onde Carlos da Maia teria passado no romance.
Um dos locais que não conseguimos fotografar (evidentemente) foi o Hotel Nunes. Fomos procurar informações à Biblioteca, nessa altura no Palácio de Valenças. Conhecemos lá o José Alfredo, que se disponibilizou imediatamente para nos levar a sua casa (a do largo Ferreira de Castro, não a de Gigarós) para fotografarmos os desenhos que ele tinha desse hotel, entretanto demolido e substituído por aquele monumento ao mau gosto que é o Tivoli.
Nunca me esqueci desse contacto franco e da simplicidade de relacionamento daquele "monstro" da cultura que nessa altura ignorávamos quem fosse.
Aqui tiro o meu chapéu ao autor do blog e ao homenageado da crónica de hoje.
Zé Maria a 23 de Maio de 2011 às 10:50

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