por F. Morais Gomes

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Mai 11

1973 é que era, Sintra ia entrar definitivamente na senda do progresso. Depois das vagas de alentejanos a caminho de Mem Martins, a linha de Sintra expandia-se, era a Icosal em Queluz, Manuel Anselmo no Cacem,o J.Pimenta por todo o lado, homens de Tomar erguendo cofragens, plantando betão, pintalgando a paisagem, em Massamá, antes terra de trigo e solos A, os campos eram agora férteis para o crescimento de prédios. Era o progresso, dizia o engenheiro Diogo, chefe dos serviços técnicos da Câmara, até em Casal de Cambra crescia o negócio clandestino  dos avos, quatro estacas e lá estava um lote, chave na mão, loteamento depois. O Carraça da Silva também se lançara à conquista, e até Rio de Mouro estava no mapa, pela mão da promissora Urbanil.

O comboio era fundamental, garantia o engenheiro Alípio, com ele as casas se venderiam, boas, a bom preço, era a hora do proletário proprietário, não mais rendas nem casas com escritos, a cada português o seu andar, a sua marquise, a sua fracção. Com um quintalito nas traseiras, até umas couves se haveriam de plantar, para matar saudades da terra. Alípio Rodrigues, de Tomar, sócio nas urbanizações Andar Modelo arrematara uns lotes num leilão judicial, telefonema amigo garantia que mais ninguém licitaria, o preço era bom, cinco por cento para o homem da leiloeira e um jantar no Chaby e o Algueirão caminhava confiante rumo ao futuro, terra do mel e dos T2 com garagem. O Lúcio, arquitecto amigo, coçava o nariz, eram terrenos inundáveis, em leito de cheia a Câmara não aprovaria, Alípio não hesitava, nada que não se resolvesse.

Executado o projecto, ficou um espanto. Oito prédios de sete andares, em comboio, uma rotunda ao meio para contentar a Câmara, uma cedência aborrecida para um jardim, num declive de mau acesso, enquanto a Câmara apreciasse anúncios nos jornais locais anunciavam a Cidade Modelo, onde pais em paz criariam os filhos e logo supermercados e creches trariam vida e prosperidade. Ainda a licença não saíra, mas dez já estavam  sinalizados, as construções Andar Modelo rasgavam cidade em matagais de silva e calhaus.

Seis meses depois, já todos os andares estavam vendidos, ainda o projecto  não saíra da mesa do arquitecto. Mais alçados, mais uma planta, os afastamentos, a caderneta incompleta, a procissão diária a caminho da Câmara logo pela manhã virou rotina, o arquitecto que sim, por ele era já, mas ainda assim que juntasse elementos. Chegado o Natal, ainda nada de licença, apesar dum peru e duma salva de prata de boas festas ao arquitecto e ao vereador. Impacientes, os clientes procuravam pela escritura, e a obra nem vê-la, avançara a terraplanagem mas fiscal amigo pedira que aguentasse, senão teria de embargar.

Pela Páscoa, qual pacote de amêndoas, lá saiu a licença, as obras começaram, o terreno, em declive ameaçava derrocar, agora percebia porque o preço fora em conta,era solo pantanoso, em cima duma linha de água. Havia que disfarçar, escavar em volta e segurar as terras, pelo sim pelo não, faria mais pisos, da Câmara conselho amigo dizia que depois se legalizariam como surgidas pelo desnível natural, nalgum lado teriam de se amarrar. O que de início parecia fatal e ruinoso, de repente parecia uma ideia luminosa: aprovar os fogos e aumentá-los depois, sempre com a desculpa do desnível natural. Alguns vereadores sugeriam que fossem caves, a oferta de uma para uma creche logo dissuadiu os pouco avisados edis. Era a galinha dos ovos de ouro. Pelo Natal seguinte tinha o projecto executado, mais cinco vinham a caminho, sempre aumentados por culpa do irritante desnível natural…os duzentos fogos do início eram agora para cima de quinhentos.

Muitos deles teria de lotear, mas ceder bife do lombo a pataco não lhe pareceu curial, grande industrial e construtor de futuro. Faria condomínios, num só processo apresentaria construção agrupada, meros telheiros de zinco uniriam fracções e assim evitaria cedências. Com o tempo, ficava perito, onde o obrigassem a lotear promoveria destaques, distraídas certidões passadas por mãos amigas ajudariam ao progresso, afinal mais casas são mais taxas, mais impostos, mais comércio, todos ganhariam.

Certo dia, Américo Godinho, também construtor e também de Tomar travou-se de razões com Alípio, máquinas suas teriam invadido um terreno contíguo, a planta cadastral não oferecia dúvidas, Alípio, esbulhador, teria de sair, a Câmara ou o Tribunal haveriam de julgar, patrícios mas cada um no que é seu, dizia, conforme os almoços,arquitectos na Câmara garantiam apoio aos dois lados. Américo inclusive fotografara os marcos, era um prédio a menos, nada de facilitar. Alípio bem chamou para reuniões, por amigos comuns ofereceu-se para comprar, houvera erro, já vira, mas já vendido, era tarde para reconhecer. Américo, vendo hipótese de esticar ficou na dele, na marra um dia desses compraria, não faria o prédio mas lucraria na mesma, confidenciara no Saraiva a um topógrafo amigo.

Apertado, sem vontade de pagar, Alípio, insuspeito construtor e homem de bem, contrariado lá denunciou o caso à Câmara: Américo, maléfica e despudoradamente construía em leito de cheia, o infractor, tinham que ver, como homem de bem não podia passar em claro, ganhar dinheiro sim, para cumprindo as leis e as normas, que ali não era Veneza e ele também cumpria tudo. Faz o que eu digo, não faças o que eu faço, a vida é dura, interiorizou, pragmático. Derrotado o Américo, os negócios foram em frente. Prédio a prédio, lote a lote, as Construções Andar Modelo lá duraram mais trinta anos.

publicado por Fernando Morais Gomes às 06:34

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