por F. Morais Gomes

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Mai 11

Depois de se inaugurar o Hotel de Seteais, com a presença de Marcelo Caetano, em de Julho de 1956, com pompa e circunstância abria a monumental piscina da Praia das Maçãs, impulsionada por Diamantino Tojal, Alves Ribeiro e Faria da Costa e solenemente inaugurada por Arantes e Oliveira. Foram muitas as vicissitudes, mas imponente e a bem do turismo, finalmente abria o  moderno equipamento, com alojamentos, bungalows e até um restaurante de luxo, o “Concha”, com esmerada gerência de Agapito Serra e Dias Caeiro, os donos do Tavares Rico. Perto dos Estoris e ao mesmo tempo distante, finalmente a costa de Sintra propiciava verões rivais de Acapulco e Saint-Tropez, enfileirando entre as rivieras europeias com  mar azul  e  esfusiante  serra, bolas de Berlim e batatas fritas Ti-Ti.

Uma semana depois, os Almeidas, habitualmente a banhos para a Costa e de dois em dois anos para as termas, foram experimentar o hotel da moda, até  o almirante Tenreiro estava lá estava alojado, dizia-se. D. Sara tinha bicos de papagaio e gota, para ela pareceu um pouco ventoso, o Dr. Álvaro, convencido, anuíra em ir, mas com a ideia de lá deixar a escalavrada esposa e sempre que possível fugir para Cascais, onde tinha à espera a Dolores, carinhosa amante, casada com um coronel de Cavalaria, felizmente ausente em missão na Índia Portuguesa. Nos primeiros dias passearam pela praia, jantaram no Oceano, a leitura de jornais era entretém junto à piscina novinha em folha, plena de miúdos com bóias e colchões e chapinhando na piscina pequena, enquanto mães  zelosas vigiavam na borda ou nas cadeiras de encosto. Ao terceiro dia, Álvaro, advogado na R. do Ouro, sentindo a falta de Dolores e já entediado da mulher, simulou um telefonema dum cliente e escapuliu até Cascais, a sua Dô-Dô sentia-se só e esperava-o no Santini, ceariam no apartamento dela em S. João depois. Sara refilou, que ficaria sozinha, mas o marido invocou o trabalho, a senhora do Guedes, industrial em Lousada, far-lhe-ia companhia à canasta, seriam poucas horas, logo estaria de volta.

Metendo pela estrada da serra, chegou ao Guincho, dali a Cascais foi um pulo, vinte anos mais nova que ele, umas mãos de fada, a Dolores é que o entendia, relaxante colo, sereno e palpitante refúgio de muitas noites após ruidosas diatribes verbais na barra da  Boa-Hora ou no Tribunal da Relação. Antes de encontro, tempo para um ramo de flores, a Dô-Dô gostaria, flor entre flores.

Três horas depois, já noite cerrada, tresandando a perfume e marcado com batôn, Álvaro,satisfeito, retornou à Praia e à nova piscina, Sara estaria possessa por certo, os rolos na cabeça para armar a permanente da manhã. O cheiro delator era intenso, a correr lavou a cara e as mãos com sabão azul e branco, o vidro aberto do carro faria o resto. Passava já Colares e a Pensão Hermínia quando aflito deu falta da carteira, ficara no psiché de Dolores, diabo, havia que improvisar.Já tarde, o PBX não funcionava, a telefonista dormia, Sara haveria de estranhar, voltou para trás, de manhã ligaria à esposa, a ideia da cama da Dolores ainda quente até nem era má ideia, um providencial pneu furado, mentira piedosa, resolveria o caso.

Manhã cedo, saiu de volta à piscina, a neblina de Sintra contrastava da placidez de Cascais, um cantoneiro de limpeza, meio ébrio obrigava a parar no Vinagre, quanto mais pressa em chegar mais obstáculos se deparavam. Meio ébrio, o varredor nas calmas juntava as folhas assobiando, ar distante, a curá-la da véspera. Com pressa, o dr Álvaro buzinou:

- Ó homem, isso anda ou não anda?

-Há-de andar….- rosnou o cantoneiro, sem levantar os olhos do lixo e do carro de mão, na vassoura e na pá mandava ele, viesse quem viesse.

-Você sabe com quem está a falar? Eu sou o dr. Almeida, advogado!

-E eu sou o Almeida, dos Almeidas da Câmara conhece? Conde da trampa que você faz todos os dias!- atirou, com um esgar e escarrando para o chão.

Álvaro calou, jà  na Praia das Maçãs tratou de pelo espelho do carro ver se tinha restos de batôn, a história vinha ensaiada, o cliente, depois o furo, nem pregara olho, essa noite compensaria levando-a ao cinema ao Carlos Manuel, passava a Rainha Africana, com o Humphrey Bogart, antes lanchariam nas nozes douradas, em Galamares.

Sara, antes de trombas, pela espera, acabou anuindo. No fundo, sabia que ele a enganava, mas não faltando o conforto e as mordomias, uma coisa era certa: à noite depois das zorras de perfume barato, era para ela que voltava. Dengosa, logo perguntou pelo cruzeiro às Canárias que prometera. Era justo: a cama da Dolores bem valia uns visons extra e uma viagens de férias. O que era preciso, era saber viver!...


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:07

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