por F. Morais Gomes

26
Mai 11

A 23 de Março, quando a Primavera chegou, um PEC fez cair o Governo e o Parlamento fechou, antes que uma troika de cobradores entrasse e arrestasse os cadeirões e telas dos Passos Perdidos. Na tasca do Jaime, na tarde seguinte, dois velhos revolucionários entre um bagaço e uma amêndoa amarga, comentavam a crise, lidos que foram os jornais, pois só há opinião pública após se absorver a publicada.Aborrecidos por não poderem armar o povo, Acácio, Heduíno e outros velhos anarquistas, dividiam-se na apreciação, unidos na crença de que havendo governo é para ser logo contra:

-Esta corja só à porrada!- Acácio, cabelos brancos pelo ombro, anarca da velha guarda, saboreava a S. Domingos, a bem dizer, bebia dum trago, havia que matar a sede à cirrose - o Eça é que tinha razão: o Governo não há-de cair, porque não é um prédio; há-de sair com benzina, porque é uma nódoa! -chamando o Jaime, pedia um reforço de dose, aos cinco bagaços faria um comício, aos dez salvaria o mundo, aos quinze em êxtase alcançaria o nirvana, agarrado a quatro amigos que por acaso eram só dois…

Heduíno estivera no Chile, ao tempo de Allende, com a UDP em 75, miliciano depois de Abril, fora um dos barbudos do RALIS no saudoso Verão Quente, fosse mais novo e saberia o que fazer com uma G-3, sabia de umas das “em boas mãos”, a democracia burguesa e capitalista era a culpada da crise:

-Mataram o Marx pela segunda vez depois do muro de Berlim, mas o velho cada vez mais tem  razão. Para quem dizia ter o capitalismo acabado, aí está ele, puro e duro, os “mercados” mais não são que o polvo da Trilateral, do grupo de Bildeberg e dos judeus que dominam a finança mundial! -meio zonzo, tal como Acácio, ajudava à missa na tarefa de enterrar o capitalismo antes da noite, ajustando a boina basca:

-Estes gajos são todos uns lacaios do capital a mamar na teta do Orçamento. Arrotam que são eleitos, mas é tudo uma treta. Um deputado é um empregado de confiança, um moço de recados, só que em vez dum contrato inventaram uns papelinhos chamados votos e o maralhal uns domingos de quando em quando lá lhes vai garantir o tacho enfiando o papel numa caixa de madeira. Aliás, a coisa é tão tenebrosa que a caixa até é preta, e até se chama urna, já viram a ironia? -satisfeito com a chalaça, mais um bagaço vinha já a caminho.

-Os gajos passam a vida aos gritos, gritam sempre, chocados uns com os outros. Mas não têm espelho lá em casa? Se calhar até levam porrada da mulher, mas na rua apregoam que ninguém os cala…- Acácio falava de cor, uma vez candidatara-se à junta e fizera o mesmo, na mesa do café todos são donos da verdade. Vindo das Finanças, chegava entretanto o doutor Almada, homem do contra mas menos anarquista, simpatizava com eles, afinal todos colegas no hóquei nos anos cinquenta. O jornal falava em eleições e  o perigo de bancarrota era real, o Acácio desvalorizou:

-Bancarrota? Na minha algibeira todos os dias há bancarrota, e a dívida externa…olha, o Baptista do talho que diga como está a minha balança de pagamentos…!- ironizava - princípio sagrado, na falta de guito, não deixes para amanhã o que podes deixar para depois de amanhã - uma risada foi o pretexto para mais uma rodada, o spread do bagaço não tardaria a revelar-se em alta.

-Então e quem ganha? -sondou o Almada, a espevitar os amigos, sabedor das convicções contra tudo o que fosse poder. Heduíno  desvalorizou, o grande capital pois então, e os serventuários do costume:

-A Europa já disse tudo o que era para fazer, estes anormais que cá estão só servem para carregar pianos! Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de governar, mas vão ser doze ou quinze indivíduos os que continuarão a dirigir o país. E acreditem numa coisa: quantas mais mostrarem  incapacidade para governar, mais serão recompensados com administrações ou lugares em fundações. É um contabilista mediano? Vai para ministro das Finanças. Distingue um rabanete dum nabo? Grande ministro da agricultura!. E se sabe o nome de três ou quatro capitais de países, são os Negócios Estrangeiros pela certa. Acácio aproveitou a deixa e meteu colherada:

-Olha, e tu nesse estado “delitro” já podes mostrar liquidez total e pagar mais uma rodada....

Heduíno caprichou e levantando-se já ébrio, de copo na mão, ensaiou um discurso, japoneses na Estefânea exultavam com o ar exótico saído de Woodstock e disparavam flashes, era o avô do Che Guevara pela certa. Rodrigo, neto do Acácio, chegou nessa altura, vindo da acampada do Rossio, excitado foi ter com eles, bebendo ofegante o resto do copo que o avô se aprestava a despejar:

-Pessoal! Os bacanos do guito querem sugar-nos o tutano e entregá-lo ao FMI e à Merkel. Há que abrir a pestana, atacá-los à saída das marisqueiras, sabotar-lhes os Mercedes, dinamitar os ginásios, sequestrá-los nas saunas! É preciso escutar a geração à rasca!

Prestava-se a continuar, para gáudio dos cotas, agitadores de outros tempos, quando o avô, cruzando as pernas, com ar aflito,correu para a casa de banho dos homens, Heduíno, endireitando a boina basca de muitas guerras gracejou com Rodrigo:

-A incontinência  e a próstata não perdoam: Rodrigo, chega à nossa idade, e vais ver o que é a verdadeira  geração à rasca! Literalmente!…

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:21

D Colaço a 18 de Junho de 2011 às 10:01

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