por F. Morais Gomes

30
Mai 11

O calor do Equador não dava mostras de abrandar, Kuala Lumpur era o Inferno vivo, mal se podia circular entre as duas e as sete da tarde. Cansados de prédios e modernos arranha-céus, Francisco e Sofia partiam para sul, buscando a Malásia dos tigres, mais Sandokan e menos Hard Rock, o tigre asiático só nos livros vivia já.

A viagem à Malásia surgira por mero exotismo: o imaginário da selva e dos tigres em extinção, nem um viram porém, esmagados pelas Petronas e pelo comboio-bala que depressa os cansou daquela cidade estranha, de herança colonial inglesa miríade de neons capitalistas e comidas exóticas, governada à vez por electivos sultões. Para sul, vagamente esperavam encontrar Portugal, naquela Malaca que o Albuquerque terribil domesticara, dali lidando a seu modo com os piratas do sul da China. O lago português em que o navegador tornara o Índico soava como reino perdido, vinte mil quilómetros a leste de Lisboa e sem ligações a ela desde o século XVII.

Partiram de carro, alugado. Deixando o skyline e o cheiro a fritos de Kuala Lumpur, rolaram os trezentos quilómetros que ligavam a Melaka, e aí sim, floresta densa ladeava as modernas auto-estradas, aqui e ali um ou outro animal encavalitado, num moderno resort de beira de estrada um orangotango saudava os turistas. Quatro horas depois chegavam, a placa indicando Melaka provocou-lhes um frémito, ali fora um dia também Portugal. Francisco e Sofia haviam casado há pouco, depois da lua-de-mel em Phuket, impuseram-se aquela romagem a Malaca. Ambos professores de História, haviam recolhido informação sobre a cidade, amigos em Lisboa indicaram um contacto que os guiaria à chegada.

Sob sol abrasador chegaram enfim, o tal contacto, um académico de nome George Alcântara esperava-os junto à Porta de Santiago, o ponto mais visivel da presença portuguesa. Qual Vasco da Gama visitando o Samorim cumprimentaram o velhote, o apelido familiar indicava ascendência portuguesa, vaga talvez, desde o século XVII que Portugal deixara Malaca aos holandeses. O doutor Alcântara, envergando uma camisa colorida, solícito, saudou-os, num português quase límpido:

-Bem vindos a Malaca, terra de Afonso de Albuquerque, amigos!

O casal entreolhou-se, emocionado, como se um velho tio que há muito não viam aparecesse do além. Cumprimentaram, e seguiram com ele. Viera de autocarro recebê-los, no caminho para a casa levaram-no de boleia no carro alugado, Sofia foi metendo conversa:

-Obrigado por nos receber em sua casa, doutor Alcântara. É a nossa primeira vez aqui, temos muita curiosidade em ver tudo.

O velho, de pele queimada pelo sol e traços indianos sorriu, e foi falando:

-Portugal aqui nunca foi esquecido, menina. Aliás, a identidade de Malaca como cristã e europeia é boa para o turismo, o governo da Malásia estimula-a.

Sob indicações de Alcântara seguiram saindo do centro. A dada altura com um sorriso deparou-se-lhes uma placa identificando a chegada ao Portuguese Settlement. Uma fiada de vivendas de ambos os lados da estrada em forma de alameda, uma delas era a casa de Alcântara. Saindo do carro, disse para a mulher umas palavras num patois que  não era o bahasi de Kuala Lumpur, vendo-os admirados o académico explicou:

-Aqui falamos o kristang, amigos, mais uma herança da colonização portuguesa. Vocês partiram há muitos anos, mas partindo os portugueses, nunca partiu Portugal!

Esta frase comoveu o casal, vindo dum rincão flagelado e com a auto-estima em baixo, onde todos andavam às turras, era revigorante o retorno àquele recanto perdido, e, pasme-se, apesar duma presença de apenas cem anos e mais de quatrocentos anos passados, era como se tivesse sido ontem.

A família de Alcântara veio cumprimentar, afável, um rapazito levou as malas para um quarto. Casa remediada, cheia de livros, uns Lusíadas em português saltavam à vista numa grande estante, no quarto do rapaz, filho do anfitrião, algo que logo alegrou Francisco, mais até que os Lusíadas: um poster do Sporting com a equipa campeã quando treinava Boloni. Estavam em casa.

O calor apertava, depois dum banho frio e dum jantar reconfortante, festim de comida picante, saíram a conhecer o bairro. Era 23 de Junho, as ruas estavam engalanadas e cheias de gente, havia festa e carrosséis, um catrapázio pendurado anunciava uma semana de folguedos em honra de San Juang e San Pedro, algo parecido com manjericos era vendido por moças malaias em trajes que logo reconheceram. Uns da Madeira, lembrando o animado bailinho, outros minhotos, eram esquisito aqueles olhos em bico em tais trajes, pareciam  saídos da Senhora da Agonia. O doutor Alcântara explicou de novo:

-Também aqui temos os santos populares, como vocês em Alfama ou no Porto, vem gente de toda a Malásia!. Venham comigo, vou apresentar-vos uns amigos!

No Restoran de Lisbon, o nome não deixava dúvidas, os dois portugueses foram recebidos como espécies raras, portugueses de Portugal, da Europa, esse poderoso país que dominara o Estreito e patrulhara o Andaman, todos à vez queriam tirar fotos para mais tarde recordar. Já cinco ou seis amigos juntos, com nomes familiares, -havia um Fonseka e um Juang- o dono, orgulhoso, trouxe um livro de visitas reservado a clientes ilustres. Francisco e Sofia exultavam, quando mostrassem as fotos aos amigos, invejosos haveriam de pensar ser Photoshop, triunfantes, os novos vice-reis encontravam “desvairadas gentes”, faltava um João de Barros para registar o feito em crónica. No livro, uma assinatura familiar, ali passara em tempos Nuno Abecassis, um antigo presidente da Câmara de Lisboa, e outras individualidades de nomes mais ou menos ilegíveis.Francisco já estivera em Macau, na Colónia de Sacramento, em Goa e em Mazagão. Como fantasma, periodicamente revisitava o império perdido, sempre surpreendido pelos feitos dum país que com um milhão de habitantes se lançara ao mar e conquistara o mundo, inovador marcara o ADN da colonização portuguesa com a miscigenação. Deus fizera o mundo, mas os portugueses fizeram a mulata, já uma vez escutara em Salvador da Baía. Ali estavam os bisnetos do Mundo de Lá, erguido por frágeis velas latinas, com alguma amargura pensava como em quatro azarados séculos Portugal decaíra, em auto-estima e fulgor. Junto ao mar, vários barcos com velas de Cristo preparavam-se para a procissão de San Juang, podia ser na Póvoa ou Nazaré, um sacerdote cristão seguia à frente abençoando as barcaças pedindo mercês para as redes dos pescadores.

Um beijo cúmplice a Sofia marcou o momento único que viviam. O doutor Alcântara, ufano no papel de cicerone, foi aduzindo informações, Sofia pedia um algodão doce numa barraquinha. O cheiro a sardinhas assadas transportava para Lisboa, nesse dia também lá celebrando os santos populares, molhos diferentes mas spicy, dizia um vendedor, servindo três. Junto ao rio, Alcântara, irrepreensível, continuou a explicação enquanto a esposa oferecia à portuguesa um lenço tradicional que percebera a mesma cobiçar:

-Segundo a lenda, Parameswara, um príncipe proveniente de Sumatra, descansava sob uma árvore próximo a um rio, durante uma caçada, quando um cervo-rato empurrou um cão de caça rio adentro. Impressionado com a coragem do animal e com o que considerou um bom presságio, decidiu fundar aqui um império, chamando-o Melaka, que era o nome da árvore sob a qual se havia abrigado. Com a chegada de Afonso de Albuquerque tornou-se uma base para a expansão portuguesa nas Índias Orientais, subordinada ao vice-rei da índia. Amanhã visitaremos o forte, a porta, chamada "A Famosa", ainda existe. S. Francisco Xavier passou vários meses em Malaca. Os portugueses saíram em 1641,quando a Companhia das índias Orientais capturou a cidade com o apoio do sultão de Johore. Mas estes nunca se envolveram, percebem, só negociavam.  Hoje fala-se muito de globalização e encontro de culturas. Olhem é isto a globalização!

Efectivamente era surreal e emocionante ao mesmo tempo: Em 2005,  como turistas, portugueses visitavam um sítio donde Portugal retirara séculos antes e como em qualquer viela da Mouraria ou do Bairro Alto, comiam agora sardinhas olhando familiares barcos de pescadores engalanados com velas de Cristo. No Restoran de Lisbon, um cantor local, um quanto desafinado dando o seu melhor cantava a Casa Portuguesa, Amália Rodrigues lá no Céu acenaria sorrindo pela certa. O fumo das sardinhas unia sem o saber a distante Malaca a Lisboa, dois oceanos separavam, o sangue comum falava mais alto.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:43

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