por F. Morais Gomes

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Jun 11

Ano Domini 1215. O reino havia sido abençoado  há cinco anos com o nascimento dum herdeiro, o jovem Sancho, que Afonso II entregou para criar ao seu alferes Martim Fernandes e a Estevainha Soares da Silva, da casa dos Sousas. Tendo Martim morrido em 1213, ficou o jovem Sancho a cargo de sua mulher, Estevainha. Agora, com cinco anos apenas, caía doente com febres, Estevainha extremosa temia que não aguentasse o  rigoroso Inverno.

Guillaume de Limousin chegara a Portugal meses antes, o Concílio Lateranense convocado por Inocêncio III perseguia-o e aos seus, ascetas na devoção, mas em si puros perante Deus, cátaros. Como outros albigenses  em terra dos francos, rejeitara os os sacramentos católicos, tendo recebido o baptismo de espírito, consolamentum, levara uma vida de castidade, a descrença na hierarquia da igreja católica, que os tinha por heréticos, obrigava Guillaume a fugir da Cruzada que Roma contra os seus  lançara, o sul da Europa pareceu-lhe seguro, em fuga do Languedoc a ferro e fogo. Como os seus, Guillaume jejuava nas festas cristãs, não prestara juramento nem matava qualquer espécie animal, em renúncia pura assumira a sua fé, herética para olhos fanatizados. Dois anos antes tornara-se perfeito em Narbonne, apesar dos esforços do conde de Toulouse, teve de fugir.

Instalado em terras de Sousa, a ele recorreu Estevainha  buscando ajuda para as maleitas do infante. Guillaume era físico, a guerra dos albigenses era coisa que desconhecia, sua filha Teresa lembrara-se dele, afamado,  e El-Rei Afonso mandou buscá-lo. Pelos quarenta anos, casado com Blanche, lembrarem-se dele agradou-o, correndo a curar o pequeno Sancho que ardia em febre no castelo de Lamego, as tias, em guerra pelas mordomias a que por herança se achavam com direito aguardavam, cientes que a morte do pequeno herdeiro lhes daria força na luta com Afonso II.

Guillaume, sábio e experiente soube debelar as febres com panos quentes, mel e infusões,  em poucos dias devolveu o futuro rei às traquinices, para descanso de Estevainha e gratidão do angustiado pai. Fervoroso crente, nas mãos do pequeno infante depositou uma cruz de madeira, lembrando-lhe de quando um dia fosse rei sempre aprouvesse separar o bem do mal, temente a Deus. Retirando para terras de Sousa, aí envelheceu em paz, amargurado porém,saudoso das terras occitânicas que um dia iníquas leis o obrigaram a abandonar.

Os anos passaram, com o Reino assolado pelas tricas religiosas e cobiça de heranças. Na Primavera de 1223,Sancho II finalmente cinge a coroa de Portugal. Afonso II morrera excomungado por Honório III, marcado pelo destino, começava com o pé esquerdo, filho de um casamento que nunca o Papa aceitara, catorze anos incompletos. Mestre Vicente, o chanceler, aconselhava, uma alcateia de terratenentes vigiava tentando manipular o imberbe rei, doente e débil, a quem em tão tenra idade davam o encargo de tão pesado calvário.

Certo dia, a cavalo, parou junto à casa de Guillaume, nas terras de Sousa. O velho físico vendo-o, franzino e perdido, correu a beijar-lhe a mão, recente rei do seu novo reino. Sancho apreciava-o bastante, um dia denodado lhe salvara a vida, esse Guilherme que viera para o Reino nunca entendera porquê, tão cristão como os demais. A fome grassava, a peste também, o reinado de Sancho anunciava-se aziago, Guillaume encorajou-o:

-Senhor, tal como ao meu povo, o Santo Padre de vós também deixou a razão do coração fugir, vivemos tempos em que mesmo Deus parece ter abandonado o seu povo. Há que ter fé, ser justo com os fracos e justiceiro com os fortes!

-Bom Guilherme, tuas palavras me animam pois um coração dilacerado apaziguam. Sabes que  guardo ainda comigo a cruz que há dez anos me deste em Lamego?- sacando o rei da cruz dum bornal , Guillaume emocionou-se ao vê-la:

-Guardai-a perto do coração, Cristo, só ele pode afastar o chifrudo que muitas vezes manieta os povos e os torna títeres de sua vontade, endurecendo o coração de quem tem o mando!

Despediram-se, não mais se tornando a ver. Onze anos depois, em Agosto de 1234, depois dum reinado de agruras, Sancho II é excomungado, depois de juízes pontifícios haverem lançado um Interdito ao Reino em Ciudad Rodrigo, consequência da bula Si quam horribile. Mestre Vicente ainda foi a Roma, conseguindo na Cúria minorar os efeitos nefastos. A 24 de Julho, porém, a Bula Grandi non immerito depõe oficialmente Sancho II do governo do reino, e seu irmão Afonso, conde de Bolonha, torna-se regente e visitador. Depois de anos de lutas fratricidas, deposto e excomungado, Sancho II acaba os dias exilado em Toledo.

Sentindo chegar a morte, nos inícios de 1248, lembrou-se do crucifixo que aos cinco anos  lhe oferecera Guillaume, o físico cátaro que um dia lhe arrefecera as febres. Perdera-o, e ao dar pela perda, percebeu também porque Cristo o abandonara e abandonado morreu, tocavam as vésperas  em Toledo na tarde de 30 de Janeiro.

Guillaume e Sancho. Dois destinos se haviam cruzado um dia, uma cruz selara a amizade, guardiães da dita cruz os haveriam de  perder naqueles dias perigosos dominados por uma longa noite de intolerância.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:59

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