por F. Morais Gomes

02
Jun 11

As escarpas de Sintra lembravam-lhe a Irlanda natal, marechal de Sua Majestade em terras lusas, William Carr Beresford, comandante em chefe na ausência do rei no Brasil, era o senhor de Portugal, onde levava onze agitados anos. Toulon, Índia, Egipto, Buenos Aires, pelo Império Britânico se havia desdobrado em missões, fora desde que em 1807 ocupara a Madeira e aí aprendera português que se viu apontado como o homem de mão da Coroa nesse caótico país abandonado pelo seu governo. De estatura alta, corpulento,  rosto irregular e sinistro, o olho esquerdo vazado por um tiro, Marechal do Exército desde 1809  nomeado pelo Conselho de Regência, Beresford aproveitara a reorganização das forças militares criada por D.Miguel Pereira Forjaz para a adaptar aos métodos do exército britânico. Era um organizador, criara depósitos de recrutamento em Peniche, Mafra e Salvaterra, distribuíra novas armas e equipamentos, levara um exército de inspiração prussiana a manobrar à inglesa. Metódico, introduziu ordens do dia para informar o exército e apurar a disciplina: tanto se lhe conheciam mandatos de prisão e de execução sumária sem julgamento em tribunal militar como louvores e promoções por mérito.

Nesse dia 19 de Outubro de 1817 o spleen atávico  das ilhas apossara-se-lhe do espírito, perturbado com os eventos da véspera saíra a cavalo para espairecer, a nortada do Cabo da Roca transportava-o para os Cliffs of Moher da sua Irlanda, com a urze e arribas nostálgicas a recordarem o burren xistoso e solitário das paisagens de Galway. A Smighton ordenara que ficasse na Junqueira, conspirava-se depois do enforcamento, receavam-se actos subversivos. Se meses atrás era o saudado libertador das hordas de Bonaparte às ordens do amigo inglês, agora, após o julgamento e execução do tenente-general Gomes Freire de Andrade, sentia que o povo já não estava com ele, acabada a guerra nada justificava a sua continuação. O rei não se decidia a voltar, nas ruas de Lisboa o povo a medo sussurrava por a um ocupante suceder agora outro.

Gomes Freire, bravo militar, herói da Crimeia no exército de Potemkin  trinta anos antes e resistente de Schwensk quando os canhões suecos atacaram a marinha russa, regressara a Portugal depois da queda de Napoleão. Grão-Mestre da Maçonaria, fora acusado de  conspirar contra D. João VI. Detido, fora na véspera enforcado por traição à pátria junto com outros onze implicados, o julgamento fora polémico e tortuoso.

Caminhava Beresford junto ao farol da Roca quando o trote de um cavalo denunciou a chegada apressada de Smighton. O ajudante de campo assistira ao enforcamento, vinha a contar os detalhes, Beresford, desviando o olhar das ondas furiosas, queria saber novidades:

-Well?... Como correu?

-Já está,  Sir, usou-se baraço e pregão, como ordenava a sentença. Mas foi algo estranho, no momento em que a corda caiu em S. Julião da Barra fez-se uma escuridão súbita junto ao Bugio, e as gaivotas gritaram lancinantes. Não deixou de ser perturbador, parecia um sinal.

O marechal, angustiado, pensava se não fora um erro crasso, o general era popular, com esse acto haviam pela certa criado um mártir. E logo à mão dos ingleses, velhos aliados. Mas Gomes Freire conspirara, acusando o rei de pretender sujeitar o povo à tirania dos espanhóis, acusara o rei de ser um déspota chamando ao açougue do precário Império, assim se referira por escrito ao recrutamento de tropas para os combates no sul do Brasil, pela posse de Montevideu e para combater a insurreição no Pernambuco. A Beresford chamara ridículo aventureiro e desabonado comandante em chefe do Exército, tudo corria para o perder,Smighton continuou:

-Na assistência estava o primo, Miguel Pereira Forjaz. Andrade olhou-o mas nada disse. Os outros onze acusados foram supliciados no Campo de Santana. Rezaram e aguentaram firmes. É um desperdício, marechal, estes portugueses não têm remédio, o país está em ruínas e eles digladiam-se uns com os outros.

-Problema deles, Smighton- rosnou o Marechal, abrigando-se do vento de Outubro que agora açoitava mais forte ainda, ameaçando chover.- problema deles!

Beresford soubera da conspiração pelo Visconde de Santarém,  documentos mostravam que estava em marcha um movimento, ainda incipiente, cuja primeira fase seria a criação de núcleos em todo o país. A decisão fora a de apresentar a documentação à Regência, que se assegurou do apoio do General Paula Leite, encarregado do governo das Armas da Corte e logo emitiu ordens de prisão contra Gomes Freire e outros oficiais e civis. Gomes Freire de Andrade, ingénuo, ao notar a movimentação de tropas, o ruído das armas e das patas dos cavalos, pensara tratar-se da revolução em marcha, fardou-se, colocou as condecorações e esperou, até que a sua porta foi arrombada, a casa invadida e  dada ordem de prisão.

Beresford, que por desígnios da diplomacia tinha de pactuar com a Regência, já entrara em atrito com ela, suspeitava-se que a Casa  Cadaval conspirava  com Gomes Freire para derrubar D.João VI. Escurecendo , com Smighton voltava agora a Lisboa, a noite  luarenta e fresca de Outubro acompanharia a viagem do inglês, pró-consul de Londres entre truculentos lusitanos. Sentindo-se em Sintra como em casa, percebeu que nesse dia uma página se virara na história do país, não seria a nortada do Atlântico o único vento a caminho.

Três meses após as execuções, instalava-se no Porto o Sinédrio, por iniciativa de Manuel Fernandes Thomaz e Ferreira Borges, o movimento liberal adquiriu maior consistência e coerência.Com o tempo, e em face da degradação nas ruas, Beresford foi ao Rio de Janeiro reclamar mais poderes, D. João VI concedeu-lhos. Regressou a Portugal, mas já não pôde desembarcar, no dia da chegada ocorreu o pronunciamento, era 24 de Agosto de 1820, a nova Junta Provisional de Lisboa, que substituíra a Junta dos Governadores, não lhe permitiu que desembarcasse.

Nessa noite de Agosto, disse adeus a Portugal. Era noite para ele, um imenso e esperançoso luar despontava para um pequeno povo ao sul da Europa.Por quanto tempo?


                            William Beresford

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:08

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