por F. Morais Gomes

03
Jun 11

A carrinha ficara no estacionamento, os dois jovens abasteciam-se no Pingo Doce da Portela, à porta, ruidosos alunos do liceu devoravam pedaços de pizza e refrigerantes. Pelo carro das compras, era quase tudo alimentícios: hambúrgueres, arroz, dois kits de cervejas médias, pão e muitos yogurtes, frescos nada, que a crise dos pepinos desaconselhava. No quiosque em frente um deles comprou um jornal, a velha carrinha pão de forma laranja estava em desalinho, jornais velhos pelo chão, um bidon de gasolina, toalhas de praia,  alguns CD’s de Enrique Iglésias e Shakira no porta luvas. Na Portela ninguém os havia visto antes, mas desde há três dias pelo menos tomavam um galão e um croissant no café do Baptista, sempre à mesma hora e antes das compras no supermercado.

A D. Gracinda, do r/c do prédio em frente ao jardim, reparara que os dois indivíduos estavam no segundo esquerdo. Desde que o Ramiro morrera, três meses antes, a casa ficara fechada, a única filha vivia em Espanha e só fugazmente cá vinha, a última vez para o funeral. Amigos espanhóis, pensou, a carrinha era velha e aparentavam ser estrangeiros, com um sotaque arrevesado, espanhol não parecia bem, a cada entrada e saída, por trás da cortina cuscava os vizinhos, já comentara com a Ercília do primeiro esquerdo, quando esta saíra a passear o cão.

Os novos ocupantes pouco se viam, só nas vindas do supermercado fronteiro, ignorava o que fariam, a casa não tinha televisão, só uns tarecos velhos que a filha do Ramiro deixara. Ao fim de cinco dias sumiram de vez, a carrinha pão de forma não voltou a ser vista, para a vizinhança o caso estava esquecido, as conversas eram agora sobre as eleições e a ciática da D.Gracinda

Uma semana depois, almoçando umas pataniscas com arroz, o Jornal da Tarde abria com a notícia de que a polícia espanhola suspeitava que mais elementos da ETA estariam em Portugal, aqui preparando novas operações, temiam-se atentados em zonas balneares à semelhança de anos anteriores. Casas abandonadas nos arredores de Lisboa estariam a ser alvo de observação pela polícia portuguesa, bem como estrangeiros fora dos circuitos turísticos. Qual clique repentino, D. Gracinda lembrou-se dos rapazes do segundo esquerdo, partiram como chegaram, e tinham um sotaque esquisito, correu a comentar com a Ercília. Era isso, só poderiam ser eles, um telefonema para a esquadra despoletou uma visita ao local, nada apontava para a escolha de sítio tão visível, mas à cautela havia que apurar. Alertada por um vizinho jornalista, uma equipa da TVI postou-se no local, transmitindo em directo, logo atraindo equipas da TVE e dos outros canais. D. Gracinda e Ercília desdobravam-se em entrevistas, à TVI perguntaram mesmo quando iriam ao Goucha, para ter tempo de arranjar o cabelo.

Montado o perímetro, chegaram as minas e armadilhas, os habituais reformados do jardim postados no passeio fronteiro comentavam, curiosos, arranjada ordem judicial, a porta foi franqueada, aparentemente nada de estranho, se bem que jornais espanhóis recentes pelo chão indiciassem a presença de gente, bem como um saco do Corte Inglés. Atraídos pelo circo mediático, vizinhos desdobravam-se em comentários, o Vítor vira-os no café do Baptista, tinham aspecto de etarras sim senhor, um até tinha uma T-Shirt com as palavras Sex Bomb estampadas.

Passaram uns dias, recolhidas impressões digitais e com a ajuda da Europol, lá se descobriu que os dois eram espanhóis de Getafe e  colegas da filha do Ramiro, a viver em Espanha. Tendo ela oferecido a casa para que não pagassem alojamento durante um passeio de cinco dias, já de volta a casa estranharam a visita da Guardia Civil. Estudantes de História, tinham ido conhecer Sintra, como fizesse bem tempo fizeram até  praia na Adraga.

As notícias das televisões reportando tais resultados não sossegaram Gracinda. Ali havia tramóia, era verdade mas não podiam admitir, para não espantar outros que cá estivessem, tendo ido no fim-de-semana seguinte à Vila passear, todos os espanhóis lhe pareciam estranhos, o marido da D.Alzira explicara que queriam a independência da terra deles e não gostavam do rei, grandes tratantes, o rei de Espanha tão boa pessoa, até crescera no Estoril. Escutadas notícias sobre os pepinos infectados, só poderia ser coisa dessa ETA, à cautela não comprou mais nenhum, poderiam estar contaminados pelos tratantes.

Com os dias, a coisa saiu das notícias, agora era o novo governo, e as transferências do Benfica, a casa do Ramiro lá continuou fechada, para ela perigoso esconderijo de bandidos, que os hambúrgueres e o arroz era tudo a fingir, andava para aí uma bandidagem que só visto, até o nosso cantinho já não escapava. Chegado o Julho, D. Gracinda foi de férias para a terra e o assunto morreu, a Portela de Sintra saía do mapa mediático, entregue ao movimento do Pingo Doce e aos pacientes a caminho das análises, até a escola fechara para reabrir em Setembro.

No final do mês, com a Portela deserta e os serviços públicos a meio gás, três indivíduos num Megane branco alojaram-se dois prédios ao lado do da D.Gracinda, pouco faladores, transportando caixotes e sacos pretos com adesivos colados. Despovoado o bairro, a vizinhança não deu por eles. Na segunda noite, com um pano azul em fundo e as palavras  Euskadi Ta Askatasuna estampadas a branco, ladeados por uma bandeira que tinha desenhada uma serpente enrolada num machado, devidamente encapuzados, os novos forasteiros gravavam um vídeo que um deles mais tarde deixaria numa prateleira na loja da Zara no Cascaishopping. Depois do atentado de Verão, a mensagem não deixaria dúvidas sobre a sobrevivência da ETA, razão tivera a Gracinda, agora na terra, a Portela era  afinal  um insuspeito santuário terrorista.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:48

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