por F. Morais Gomes

04
Jun 11

Serafim foi o primeiro a chegar, funcionário da junta, trazia os boletins, a mesa eram os do costume que a sanha pelos setenta euros e dia livre no dia seguinte deram direito a disputa, a Cesaltina do talho já estivera na mesa muitas vezes, era a vez agora  do Castro, barbeiro e escrutinador. Como sempre a escola primária servia de secção de voto, só o Bloco e o PSD mandavam observadores, o Tiago, estudante de Arquitectura, e o Tavares, da loja de ferragens, mais dez minutos e abririam as portas.

A freguesia era estável, os mais idosos votavam pela manhã, alguns com o livro de missa ainda na mão, o Falcato, do partido do governo votou logo às oito e dez, oportuno, ficou-se  depois pelas redondezas a cumprimentar os vizinhos, e pelo sim pelo não, a sugerir que pensassem bem no voto, os outros não eram de fiar, sabedor, o dr. Crespo, do partido adversário postou-se vinte metros antes do Falcato, na primeira linha de apertos de mão, um e outro respeitando porém  a distância dos quinhentos metros.

Pelas nove e meia só uma vintena votara, a D. Irene esquecera-se do cartão, a mesa reconhecia a octogenária, decana  da aldeia, o homem do Bloco torcia o nariz, voto na direita, por certo, melhor seria ter ficado em casa. Também o Tomé da funerária votou cedo, trocista comentou que nem nesse dia deixava de ir às urnas, adepto da direita, ia avisando para se escolher bem o voto e evitar um grande enterro. Na mesa, os afectos ao governo sorriam, nervosos mas ao mesmo tempo descontraídos. As manas Silva, Clotilde e Zézinha uma  do PSD outra do PS, conversavam à porta, sem pressa de votar, à  que ganhasse a outra pagaria o lanche no café do Brás. Com scones e chá aromático, insistia a Clotilde, segura da vitória do seu líder.

Pelas dez horas, chegou o Avelino Varela, sapateiro, setenta anos, a mulher morrera um ano antes, entretinha o tempo afogando-se no álcool,  ainda ressacado da véspera, ao entrar na secção de voto, tropeçou numa vala estatelando-se desgovernado, ficando com as calças  ensopadas de lama, o Falcato e o dr. Crespo, adversários eleitorais, logo se uniram num bloco central de ajuda ao  trôpego vizinho, a vinte metros da escola.

Avelino, que pensara votar  cedo para se despachar e logo de seguida cair na cama a curá-la,  deu-lhe um amoque súbito, levantando-se de um salto, começou a invectivar a junta, e os políticos pela falta de obras como deve de ser, a provocar acidentes, logo comício improvisado nasceu ali, cinco eleitores a caminho faziam uma roda junto a ele  antes de se decidirem a entrar:

-Isto é uma vergonha! Andamos a pagar para estes tipos comerem todos do mesmo tacho, obras é o que se vê. O povo é que é culpado disto tudo, a carneirada anda toda a dormir, é o que é!- o fato enlameado e o ar zangado faziam do Avelino um inesperado chefe descamisado, a Ermelinda e o Crispim, também com obras à porta há mais de seis meses concordaram, juntando-se ao protesto:

- O Avelino tem toda a razão! Ainda ontem apanhei o presidente da junta mas ele nada, que já mandou um ofício, que já mandou um ofício…. mas à porta dele já mandou pintar uma zebra, essa é que é essa!. O povo tem de fazer valer os seus direitos senão fazem de nós gato sapato!

O grupo era já de nove, os delegados dos partidos, antes meio passivos, pediam agora paciência, votando neles teriam a hipótese de fazer valer o voto na lista certa,  Tiago, tentava conquistar um eleitor de ultima hora, no momento no interior já ninguém fazia fila, todos à volta dos lesados pela incompetência dos dirigentes que só se enchiam e não faziam  obras. Avelino, inchado e ganhando força com a pequena multidão em volta, já desperto da ressaca, alvitrou logo um boicote às eleições, subindo para  cima dum banco no pátio da escola, dirigiu-se às massas, nove já era uma multidão, para a escala da freguesia, e qual revolucionário descamisado apelou à tomada da Bastilha de carteiras e quadros a giz, pondo-se à cabeça do grupo, a que alertado pelo barulho se juntou o pessoal que bebia um Favaios no café do Brás. Entusiasmado com o protesto, dirigiu-se à mesa da secção, urgia fazer justiça:

-Ó Castro, toca a arrumar a tralha e a encerrar a mesa dos votos. Aqui o povo não vota mais enquanto a junta não acabar as obras, isto já passou das marcas!- e com a ajuda de dois dos entretanto chegados, arremessou a urna ao chão e fez voar os votos quais confetti, as manas solteironas aplaudiam, perdiam a aposta do lanche mas tinham o seu momento Maria da Fonte, a Clotilde, que detestava a Cesaltina postou-se frente a ela, qual chefe da milícia, o poder era delas agora, chefes da fronda da aldeia. Zézinha, ruborizada, arengava com o Castro barbeiro para não levantar cabelo, subindo a uma cadeira, dirigiu-se aos insurrectos e ao pessoal do partido do Favaios:

-Os políticos não passam a vida a falar em voto útil?. O voto só é útil para quem o recebe, assim sendo daqui não vai nenhum , que o povo já não vai em cantigas!Queremos a rua arranjada e é para ontem!

O Falcato e o dr. Crespo, representantes dos partidos do centrão, entreolhavam-se, urgia uma aliança para repor a ordem, que votassem , que eles depois usariam do seu prestígio para uma rápida conclusão das obras, Avelino estava de pedra e cal:

-Não se vota, nem  vota mais ninguém! - e pegando dum isqueiro escrutinou em cinzas os primeiros votos nulos do país, a GNR de Sintra vinha a caminho, mas era já tarde, o Castro invocara tumulto e fechara a secção de voto, visto bem, se se repetisse na semana seguinte até seriam outros setenta euros, deixou correr.

Duas horas depois, armado com o ponteiro da escola, qual metralhadora em riste, e ladeado pelas manas Silva, do comité de luta improvisado, Avelino dava entrevistas à televisão, que o povo dali era de antes quebrar que torcer, sem arranjo das ruas o povo não votava. Ah, e queria a limpeza a seco do seu fato. Sinuosos, o Falcato e o dr. Crespo exprimiam compreensão,  prometiam pagar o fato, na semana seguinte votando neles logo se resolveria a questão da vala.

Findo o dia, o resto do país fizera a sua escolha, apenas quatro mesas haviam boicotado, a do Castro perto de Sintra era uma delas. O Avelino, vítima do desmazelo da junta, já trôpego com o vigésimo bagaço, celebrava no café do Brás  a conquista a pulso da sua primeira maioria absoluta.

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:51

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