por F. Morais Gomes

06
Jun 11

O lume crepitava na mansão em Colares. António Chaves Mazziotti, deputado da Nação  e abastado proprietário, reunia em torno da lareira e de um cognac os correligionários para se discutir o momento eleitoral. As eleições de 1884 estavam anunciadas, o Partido Progressista de Luciano de Castro estava empenhado em arredar o governo de Fontes Pereira de Melo. À luz de velas cúmplices, José Inácio Costa, abastado capitalista local, o regedor de Colares e o comendador Meireles, de Janas, discutiam o momento político:

-Pois é, cavalheiros, o Fontes  desta vez não tem hipóteses. Tem obra, mas já viram a lista deles? -Mazziotti, de novo candidato a deputado, levantava as mãos, andando pelo salão junto à lareira, os demais sentados nas poltronas da vasta biblioteca -Ainda se promovessem o Hintze…!

-Tem razão, mas há que não facilitar. Olhe que o escrivão do tribunal, o homem da Ulgueira está-se a fazer difícil, diz que  por lá não estão satisfeitos, os outros já lhe prometeram uma repartição em Lisboa, não garante os votos na nossa  lista! E o governo afinal, é deles, tem peso… -adiantou Julio Pires, o regedor e cabo eleitoral com provas dadas em  Colares, proprietário em Fontanelas.Bom vinho, poucas letras ,mas sagaz e influente. Vinho e votos, com ele era mistura certa!

-Há-de vergar!- frisou o comendador Meireles. Os outros dizem que lhe dão o lugar, mas  vão arrepiar caminho depois do escrutínio, vai ver.

-Pois, mas o partido tem perdido votos, ele arregimenta muita gente, até  alguma escumalha republicana, há que não facilitar! -reforçou o regedor.

-Mande-o cá vir falar comigo amanhã! -ordenou o comendador candidato, resoluto.

Aristocrata, ainda aparentado com o Marquês de Pombal, Mazziotti concorria à reeleição em Sintra, onde ganhara já em 1879.Maior contribuinte do concelho, sócio e benemérito da maioria das colectividades, iria em breve inaugurar a estrada para a Praia das Maçãs.Era presidente da Sociedade Edificadora, o que só por si lhe garantia a cadeira em S.Bento, mas tinha que ser ele a olhar por tudo, nunca se sabia quando algum ingrato  viraria a casaca ou  iria bandear-se para o campo dos regeneradores.

-Sr.Comendador, o cerne está na lavoura! -intrometeu-se José Inácio Costa, mais recatado e menos versado em política, figura avisada. Começara por baixo, como latoeiro, abraçando inúmeros negócios, das pescas à chapelaria, fortuna feita a vender conservas para as tropas brasileiras durante a guerra com o Paraguai. Não se interessava por política, mas a sensatez e os negócios  levavam-no a também não ficar afastado, falando com todos os partidos. -Os projectos para o vinho de Colares que tem levado à Comissão de Agricultura lá na Câmara são apreciados por cá, eu sei, que falo com os lavradores! E o círio para a inauguração da estrada nova vai mostrar aos chefes de família quem verdadeiramente é pela região e pelo progresso!

-Haja quem reconheça! -agradeceu o cacique, entre a falsa modéstia e a vaidade.

Há vários anos ligado aos problemas da lavoura, grande proprietário, Mazziotti entrara na política aos 16 anos,  no Partido Histórico, sendo depois um proeminente do Partido Progressista. Gabava-se de  pagar a mais avultada quota ao partido, mil réis mensais. Em  1878, apresentara-se pelo  círculo de Sintra, mas fora derrotado por Francisco Joaquim da Costa e Silva, que também já vencera seu pai. Em 1879 voltaram a defrontar-se, mas desta vez a vitória coube a Mazziotti.Não possuía dotes oratórios, mas que interessava, a reeleição para si era natural, tinha dotes mais convincentes...

-E sabe, comendador, os candidatos deles são muito maus, vão muito mal servidos. Nenhum é do concelho, meteram a candidato o Júlio César Pereira de Melo,  enfermeiro chefe em S.José, que não percebe nada de política e até hoje só abriu a boca na Câmara para falar do projecto da aguardente de cereais. E o Pinto de Magalhães não tem perfil, arrastou-se sempre pelo Ministério da Fazenda à conta dos compadres! -ia relatando o Júlio Pires, regedor de Colares e caninamente afecto a Mazziotti.

-Há que correr as tabernas, as sacristias, as repartições! -insistia Mazziotti. Já fizemos a estrada para a Vila Nova da Praia das Maçãs, tratámos a filoxera nas vinhas quem melhor para servir o Reino melhor senão nós, e um governo do José Luciano!- arengava, chupando o charuto,convencendo-se igualmente  a si próprio.

-É preciso alguém que tenha impacto junto do Governo, isso é muito importante!-matutava Inácio Costa.

-Olhe,vou propor o Sampaio de Castro para administrador do concelho. Ele não anda para aí a escrever para uns pasquins contra nós? Esse cala-se logo! E ao juiz Taborda vai-lhe saber bem uma temporada a águas em S.Pedro do Sul! -preconizava o comendador, condottieri de Colares e paternal protector das suas gentes, sobretudo das que votavam nele, já matutando nos fieis e ingratos que a política sempre arrasta.

Um último trago no cognac, nova reunião da lista para oito dias depois, com todos os apoiantes e contribuintes, o regedor e o secretário do partido em Sintra que tratassem de tudo, das verbas para a eleição e para os indecisos se encarregaria ele.

O serão ia longo, quando se despediram. Passeando pelos jardins da mansão,em  noite luarenta e fria, Mazziotti, contemplando a nova estrada para a Praia das Maçãs, que lhe levara e a mais mecenas seis contos e oitocentos num só ano, matutava no quanto o país e o progresso lhe deviam, ganhando merecidos réis nos seus negócios, claro, era justo, mas protegendo superiormente os néscios camponeses que sem ele dificilmente escoariam o  ramisco e as maçãs reinetas…

publicado por Fernando Morais Gomes às 13:31

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