por F. Morais Gomes

07
Jun 11

Adelino Faleiro, professor de História em Sintra, reformara-se havia dois anos. Entretido com os livros e os longos passeios pela praia, a conselho médico, diariamente fazia duas vezes o calçadão da Praia Grande, para trás e para diante, terminando rotineiramente com uma bica no Angra onde o Faísca e o Marinho faziam o ponto de situação do campeonato,ele, sportinguista ferrenho, sempre à defesa na conversa. Estudioso do mar e interessado em naufrágios, recordava que o próprio café onde tomava a bica matinal devia o nome a um cargueiro  ali naufragado anos antes, aberto na altura pelo Fortunato e os filhos, concessionários da praia, tosco na época, hoje muito frequentado, junto com o Galé.

Naquela manhã de Março o nevoeiro caía denso sobre a praia, um vento de nortada soprava a espuma das ondas, frio e cortante. Alheio ao frio, Adelino saiu para o seu passeio pelas oito da manhã, como de costume terminaria com uma bica e a leitura do jornal no Angra. Época baixa, dia de semana, pouca gente circulava, um vizinho do Rodízio passeava os cães, um ou outro surfista madrugador lançava-se às ondas. O cheiro do iodo carregava baterias e abria o apetite para uma sandes de queijo mais tarde. O neto acompanhava-o nesse dia, a promessa de um mp3 tirara o  pequeno Tiago da cama a acompanhá-lo, depois do passeio seguiriam para o shopping às compras.

No horizonte encoberto por denso nevoeiro Tiago, até ali absorto com os seus  headphones,  a dada altura pareceu descortinar um navio. Era muito cedo, o tempo péssimo, tudo bem até ali, o navio porém tinha velas e aparentava ser um barco antigo, como os dos filmes de piratas. Adelino, já fraco de vista e pondo os óculos nada viu porém, podia ser o navio-escola Sagres ou o Creoula, os únicos barcos históricos ainda ao serviço. Tiago desconfiava que não, uma das velas grandes parecia rota e o barco oscilava, como se estivesse à deriva. Acordado para as suas histórias de naufrágios, Adelino, detendo-se no areal, lembrou-se duma história, aquela talvez  Tiago ainda não conhecesse:

-Tiago, alguma vez ouviste falar do “Holandês Voador”?

-“Holandês Voador”? Não, avô, nunca. É algum tipo de avião?

-Não, não…- qual velho lobo-do-mar passou a narrar mais uma das infindáveis histórias de barcos, muitas Tiago já escutara e igualmente interessado sempre absorvia entusiasmado, tinha mesmo no quarto uma bandeira negra de piratas comprada no Toy’s R’Us.

-O “Holandês Voador” foi um navio que há vários séculos navegou na zona do Cabo da Boa Esperança, hoje a África do Sul, sabes? O capitão do navio, Van Der Decken, viajava nessa zona e tinha como destino final Amesterdão, na Holanda. Durante uma tempestade, o capitão recusou-se a desviar o barco, apesar dos pedidos da tripulação. Monstruosas ondas fustigaram o navio enquanto ele cantava canções obscenas, bebia e fumava cachimbo. Desesperados, muitos dos tripulantes amotinaram-se. O capitão, alcoolizado, matou o chefe dos revoltosos e atirou o corpo ao mar. No céu, as nuvens abriram-se nessa altura e uma voz veio de cima: “És um homem muito teimoso”,disse zangada a voz, ao que o capitão respondeu: “Eu nunca pedi uma viagem tranquila, eu nunca pedi nada, então, sai daqui antes que eu atire em ti também”. Van Der Decken apontou ao céu mas a pistola explodiu-lhe na mão, e a voz lançou-lhe uma praga: “ Por este teu acto,ficas condenado a navegar pelos oceanos pela eternidade com uma tripulação fantasma de mortos e nunca mais terás descanso. Bílis será a tua bebida e um ferro quente marcará a tua carne”.

A história fascinara Tiago, era um pouco parecido com a narrativa dos Piratas das Caraíbas, com o Johnny Depp, ao fundo ainda enevoado o barco disforme continuava a oscilar, Tiago jurava mesmo ter ouvido tiros de pistola na direcção do céu. O avô, sorrindo, descansava-o, era uma lenda como muitas outras, os mistérios do mar imenso e mentes febris sempre haviam inventado histórias mirabolantes, minutos mais tarde já o barco desaparecera na direcção norte, ao longe apenas mar e as Berlengas. Já a caminho do Angra, Adelino concluiu o relato ao neto:

-Há muitos relatos de avistamentos do “Holandês Voador”, muitas vezes por marinheiros experientes, outras por olhares toldados pelo álcool. A minha convicção é a de que o capitão vai errar para sempre, com as suas blasfémias e a sua mão queimada…

Na esplanada do Angra, eram agora dez horas, o nevoeiro dissipara-se, mais surfistas se juntavam agora no areal desafiando as ondas frias, no horizonte, apenas o azul de um dia que apesar de ameaçar cinzento iria afinal ser solarengo e promissor. Adelino e o neto sentaram-se no exterior, olhando o mar, passados minutos lá aparecia o Faísca, velho na casa, do início do Angra, a atender o pedido, algo irritado por sinal. Adelino que já o conhecia de há muito,sondou os motivos da má disposição:

-Então, Faísca, dormiste mal esta noite, ou houve passarinho novo na costa?- trinta anos de praia permitiam-lhe algumas familiaridades…

-Nem me diga nada, dr. Adelino. Tenho lá dentro um estrangeiro, um holandês que está ali desde que abrimos e só pede absintos, já partiu dois copos, tal é ela!. De vez em quando olha para a praia e começa a gritar na língua dele, estou a ver que ainda temos de chamar a guarda!

Ainda com a história do avô nos ouvidos, Tiago correu para a porta do Angra a observar o alcoolizado holandês. Era alto, pele enrugada, cabelo louro em desalinho. Com a mão esquerda segurava um copo já vazio, a da direita parecia estranha, a um segundo olhar reparou  estar cicatrizada e só ter dois dedos. No horizonte, o sol despontava mais azul agora, com o esfumar do nevoeiro o navio dissipara-se também. Vistas as coisas, melhor seria irem ao shopping a comprar o mp3.


publicado por Fernando Morais Gomes às 08:08

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