por F. Morais Gomes

09
Jun 11

João Pedro desesperava por um emprego, já fora a dez entrevistas, aos currículos enviados perdera a conta, quarenta e seis anos e um curso dos liceus, pouco podia aspirar, desde que fechara a agência de viagens onde estivera dez anos. Naquele sábado decidira fazer uma pausa na procissão das entrevistas, o Alberto fazia anos e convidava para uma sardinhada, apesar da crise era preciso desopilar, que diabo, os dias estavam bons e a churrasqueira do Alberto em Janas sem uso há algum tempo.

Iriam o Eduardo, o António Jorge, e as mulheres, ao todo sete, com a mulher do Alberto, por ele iria sozinho, a Fernanda não estava sociável, e ultimamente virara vegetariana, o colesterol a trezentos impunha restrições. No dia seguinte seriam as eleições, estava farto de comida de dieta, um franguinho no churrasco ou uma entremeada regada com o Reguengos que o Alberto tinha a estragar na garrafeira ajudariam a minorar as agruras da vida.

No sábado de manhã ainda deu um passeio de bicicleta, a salada russa do jantar da véspera deixara-lhe um ratito, atestou no café do Carlos com uma sandes de presunto e uma cola, mais pelas onze chegar-se-ia para a casa do Alberto, a ajudar a acender o lume e fazer as brasas, o cheiro a pinhal e a visão da serra limpariam a vista da selva de prédios de S. Marcos por umas horas.

À chegada, já o Alberto punha sal nas sardinhas, uma aparelhagem espalhava alguns temas da velha guarda, Springsteen e Rod Stewart, o ambiente prometia. Era um momento de relaxe, não via o dia de deitar para trás das costas a famigerada crise e voltar ao trabalho noutra agência, os tempos iam maus, até as grandes casas fechavam, bem vira o que acontecera com a Marsans.

-Ó João, vens mesmo a tempo! Saca aí desse saco e tira aí as azeitonas, trouxe-as lá do meu sogro, do Alvito. O resto do pessoal deve estar a chegar! –Alberto, de fato de treino e avental, ia abanando o lume fazendo brasas, um tinto já encaminhado abria as hostilidades da manhã, como aquecimento.

-O dia promete! E olha venho com uma fome dos diabos, a Fernanda agora deu-lhe para as dietas e eu é que pago as favas! Raios partam as mulheres! Já me disse que torresmos, paio ou carnes vermelhas, agora não entrava nada lá disso lá em casa!- duas azeitonas abriam já caminho a fazer lastro para o primeiro tinto, ainda o que valia eram estes bocadinhos, a Fernanda que ficasse com as suas verduras e tofus.

Meia hora depois já todos estavam juntos, as mulheres do Eduardo e do António Jorge, velhos compinchas do futebol de salão, levaram quiches e arroz doce, o cheiro a sardinhas e febras emprestava o clima de santos populares tão tipicamente da época, a crise que fizesse intervalo, para evadir nem a televisão ligaram, só os miúdos do Alberto no quarto viam o canal Disney devorando quartos de pizza que depressa aqueceram no micro-ondas da cozinha.

Já duas horas e seis garrafas de tinto alentejano haviam passado, o João Pedro refastelou-se numa cadeira de lona ao canto da churrasqueira acabando um digestivo whisky. O tempo embrulhou-se um pouco, verão envergonhado arrefecera um pouco até, umas picadas no estômago acusaram um mau estar repentino, estava pálido e com náuseas, o Eduardo reparou, e chegou-se ao pé a perguntar:

-Tudo bem, JP?

-Umas picadas… não é nada…

-Queres uma água das pedras? -perguntou a Sílvia, a mulher do Alberto. Ainda agora estavas bem a comer, o que foi que te deu?

João Pedro recapitulou o seu dia. De manhã comera a sandes de presunto e a cola, mais as azeitonas, a entremeada com salada….

-A salada! A salada tinha o quê misturado? –interrompeu, com um súbito agravar dos suores frios. Sílvia franziu o sobrolho, de desconfiança:

-Então, o costume, alface, tomate, pepino, cebola, um pouco de beterraba…

-É isso! Mas como foi possível não nos termos lembrado! Foi do pepino concerteza! Não têm visto essa história da bactéria nos pepinos, já morreram uns poucos na Alemanha!...

-Ó JP, mas isso parece que é só lá. E os pepinos iam de Espanha, não tem nada a ver connosco…- apaziguava o Alberto -além do mais todos comemos, e só tu é que te estás a queixar!

-Eu sei lá se é só dos pepinos espanhóis! Foi do pepino, tenho a certeza! Chama o INEM,depressa, estou-me a sentir muito mal!- João Pedro suava em bica, só o cheiro das sardinhas ainda no ar lhe dava vómitos agora.

O INEM demorou vinte minutos, os amigos à cautela correram a deitar a guardar a salada para análise, ainda pouco crédulos nada levava a crer fosse daí, a Marisa, que lera os jornais falava mesmo ser necessário um certo período para a incubação. O médico do INEM, tirando o pulso ao JP nada dizia de início,, circunspecto, JP entrava já em pânico, desempregado e  agora vítima dos pepinos, que mal fizera ele a Deus, tudo lhe acontecia. De repente, como que acendendo-se-lhe  uma luz vermelha, o médico pediu ao JP que soprasse num tubo que trazia na mala, queria experimentar um teste. JP soprou, olhando o visor do aparelho, o clínico sorriu, e gracejou com JP:

-Senhor João Matos, sabe que esses pepinos que o senhor diz que comeu devem ser mesmo muito maus para a saúde. Por este aparelho aqui têm 2.1 de alcoolemia… Acha que avisemos os alemães?...- cínico, o médico receitava Gurosan e repouso, sem pressa ainda aceitou uma febra no pão que os outros na galhofa logo ofereceram.

Já noite, em casa, onde Eduardo o deixou, com um cobertor pelas costas, Fernanda comia a sua salada, vendo JP naqueles preparos, ficou inquieta. Danado, foi para o quarto, não queria comer nem ver ninguém. Eduardo, trocista, ainda comentou com a mulher do amigo:

-Amanhã a ver se ele come umas saladas, Fernanda. O médico disse que era bom para o fígado….ah, e com muito pepino, é rico em ferro!- ainda rematou, despedindo-se à porta.


publicado por Fernando Morais Gomes às 14:42

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