por F. Morais Gomes

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Jun 11

Sintra, há muito, muito tempo. Na Era das trevas e alvor de conquistadores e heróis, no alto da Serra Sagrada entre elfos e silfos vivia solitário o mago Klingsor, velho de mais de duzentos anos, não longe dos domínios que Afonso Henriques na madrugada de Portugal dera aos Trinta do Arrabalde, templários cristãos e guerreiros, rodeados de laboriosos mouros  nas férteis várzeas e zelosos da cruz obnubilada. Lá bem alto, no castelo sinistro, rodeado de pedras e urze já sem idade, Klingsor, o Mago, construíra um jardim povoado de ninfas e amazonas que com seus perfumes e encantos seduziriam os incautos, fazendo que quebrassem seus votos de castidade e pureza, perdendo-os capturados em feitiços, vingando assim a profanação desse Reino de Klingsor. Vinte anos haviam passado desde que a maura lança cedera em terras de Xentara, Afonso continuara a saga para sul e para leste, tempos depois com angústia souberam os cavaleiros ter seu rei ficado ferido às portas de Badajoz, grave aleijão o trazia doente e febril, entrapado no leito. Não fora seu genro e o rei mouro de Badajoz lhe teria retomado os domínios já conquistados. Pensava Afonso Henriques ser aziaga sina o que o derrubara nesse dia ingrato, porém um anel que Urraca Ximenes, velha aia, um dia lhe ofertara,  permitia que à distância Klingsor lhe manietasse o destino, ardendo em febre e delírio em seu paço de Coimbra. Tal maleita, agoirara Urraca, serva de Klingsor, só um coração puro e sem pecado poderia debelar, quanto não o reino luso soçobraria à vontade do mago, captor dos da Cruz enredados em seus desígnios predadores.

Gonçalo Ramires, sobrinho de Rodrigo de Sintra, um dos trinta do arrabalde, crescera nas faldas da serra. Órfão de Ramiro, morto em cilada no além Tejo ainda insubmisso, aos catorze anos sonhava com feitos de cavalaria, honra e amizade, valores de cavaleiro probo e leal, caldeado na virtude, sem ódio no coração. Avisado da existência de Klingsor, cedo o alertaram que se não aproximasse do eremita, perigoso druida fervendo seu caldeirão, por bruxaria tentando quebrar a força desse reino novo. Perseguindo um gamo, certo dia, porém, passou a Terra Proibida, galgando a alcáçova de Canaferrim, fronteira de todos os medos onde rastejantes e estranhas bestas serpenteavam na mata orvalhada. Um silêncio perturbador dominava entre as brumas, nada indicava ser o jardim sequer habitado, ao fundo,um altivo cisne nadava num lago espelhado. Atraído, Gonçalo quis vê-lo de perto, sem receio o cisne deixou-o aproximar para logo por magia se revelar como uma jovem e morena mulher, uma moura de olhos castanhos e longos cabelos. Morgana seu nome, prisioneira e escrava de Klingsor, no cume alto e ventoso, o mago manipulava a cena, vendo-a reflectida numa tina de água, com feitiços conduzia Morgana a seu intento de seduzir o jovem Gonçalo, usando a beleza e graciosidade. Repentinos silfos esvoaçantes emprestavam estranheza ao momento, Klingsor seguia seu plano, uma vez subjugado pelos dons da sensual Morgana dele faria agente do seu poder, cavaleiro das Trevas com a missão de pôr cobro a Afonso, moribundo em Coimbra, e de novo restaurar para as gentes de Mafoma o sagrado Al-Andaluz que os homens da Cruz ousavam esventrar.

Dois rouxinóis chilreavam na floresta, um furtivo furão assustado atravessava o restolho, Gonçalo e Morgana, fixando-se e sem trocar palavras, falaram a linguagem dos corpos puros com um beijo cristalino, contudo, súbita dor lhe perpassou o corpo qual lâmina afiada, no leito e em Coimbra, ao mesmo tempo, El-Rei Afonso soltava um grito de dor, como se através do beijo o fel de Klingsor capturasse as suas presas subjugadas. Suspeitando da armadilha, Gonçalo sacou da espada e cerce decepou a cabeça da moura, que como cisne ensanguentado tombou logo avermelhando o lago. Um sonoro trovão atravessou os ares, no alto, o castelo de Klingsor chispava e lá dentro o velho mago salivava de ódio. Correndo até ao Arrabalde, Gonçalo mandou tocar a rebate e prestes todos os cavaleiros de Canaferrim a cavalo galgaram a serra a cercar o bruxo no seu antro. Ao falhar com Gonçalo, Klingsor perdia poderes e furioso ordenava aos elfos que marchassem contra os de Sintra, impotente, nada lograva, em Coimbra, também Afonso Henriques melhorava num ápice e resoluto pedia armadura e um cavalo, para pasmo do chanceler e das infantas. Já o tropel dos cavalos alcançava o castelo, com Gonçalo à cabeça, quando enormes labaredas invadiram as muralhas do tenebroso refúgio, o calor era tal que não puderam os do Arrabalde aproximar-se, qual Apocalipse em dia do Juízo Final.

Dias depois, apagado o fogo e assaltado o antro do mago, nem sombras deste ou vestígios de que alguma vez ali houvesse estado. Gonçalo, da barbacã olhou a vila, cá em baixo, alheios, laboriosos mouros lavravam as terras, o mar revolto ao fundo marcava a fronteira dos do Arrabalde. Um mensageiro a galope chegava entretanto à vila, anunciando o recobro do rei, feito saudado com o repicar de sinos. Num momento benfazejo, o anel de Urraca caíra-lhe do dedo,  estava também ele livre agora para a defensão do Reino em temor a Deus.

Anos mais tarde, Gonçalo partia para os Santos Lugares, herói em Éfeso, guerreiro em Gaza, tornando à Pátria, foi elevado a alcaide de Sintra, morrendo de provecta idade. Em silenciosas noites de luar, alguns juravam avistar por vezes o vulto de Klingsor errando na floresta e jurando vingança, na Fonte dos Passarinhos um circunspecto cisne aguarda ainda hoje desatentos visitantes em dias de nevoeiro.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:59

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