por F. Morais Gomes

14
Jun 11

A televisão estava ligada, ao fundo num preto e branco sumido passava pela enésima vez O Pátio das Cantigas, a cena do candeeiro apesar de vista muitas vezes era sempre impagável. Actores histriónicos que não há mais, pensava Aníbal, à mesa da sala, concentrado no seu novo livro e dedilhando o computador portátil em torno das palavras certas. Escrever é ingrato, forçoso se torna ignorar os leitores, esses invasores que sem pedir licença profanam as palavras escritas para depois as evocar malditas, interiorizava, pensando uma coisa e escrevendo outra. Aníbal passava por problemas pessoais, a Fernanda deixara-o, o editor atrasava-se no pagamento dos direitos, o médico torcera o nariz aos exames, fígado numa lástima. Despegado, desde que houvesse para o gin, o talento fluiria à velocidade do gole esplendoroso, pujante orgasmo da palavra correndo solta até que, saciado e vingador, o dedo furioso martelando o teclado se cansasse.

Depressivo, a cena do candeeiro transportava-o para a sua própria realidade, como o Vasco Santana do filme sentia a invasiva solidão, amigos de sempre haviam-se afastado, vegetava emocionalmente, não arengando a um candeeiro num pátio esconso e silencioso, mas   náufrago entre palavras soltas, escrevendo vingador, vomitando o desprezo em letras que talvez leria, quanto mais não fosse o Semedo da editora.

A noite ia fresca, cansado da escrita deu um pulo ao café do Borges, um gin fizz e novo maço de tabaco, intervalo para pensar no romance, cansara-se do personagem principal, queria matá-lo mas ainda só tinha trinta páginas, era cedo, tal como ele, um alcoólico perdido, nada de autobiográfico, claro, embora ao espelho nada os separasse a não ser o facto de no personagem do Vasco praticar o seu vudu canibal, ao matá-lo matar-se-ia a si, o resto do livro seria em flashback, no fim talvez tivessem saudades do herói.

Patrícia era uma jovem no segundo ano de Literatura. Dezoito anos, o último Philip Roth já a meio, sempre se interessara por Aníbal, vizinho do prédio ao lado, um professor já dele lhe falara como grande talento. Ao vivo, próximo e ao mesmo tempo distante, observava-o de longe, macilento emborcando o gin ao balcão, aquele homem alcoolizado em nada correspondia ao pujante Aníbal Gralheiro que a crítica saudava como saudada revelação. Avesso à vida mundana, dava poucas entrevistas, a antipatia era parte do seu carácter, o editor porém até concordava, o epíteto de escritor maldito era bom para o marketing das vendas, funcionara com o Jorge de Sena, o Mário Henrique-Leiria ou o Lobo Antunes. Já ele saía do bar para regressar a casa, onde à espera apenas tinha o Troika, um gato que recolhera na rua e o teclado sedento de geniais palavras ou expectante dum cruel delete, Patrícia abordou-o, um sorriso jovial, entre o inocente e o esfíngico deixou-o subitamente interessado:

-Você é o Aníbal Gralheiro, não é? O meu professor já me falou em si!- abordou-o, o Philip Roth debaixo do braço deixava entender ser pessoa instruída, Aníbal entre o abúlico e o interessado esboçou um riso cínico e contra-atacou, mais uma leitora embevecida pela sua extraordinária obra, desde que o idiota do Vargas no “Jornal Literário” o chamara de “genial” passara a best-seller do Continente:

-Sim? Também gostou da “Profanação em Líquido”?

-Não!- ripostou, segura e surpreendente. -Acho que você deve ser um tipo muito frustrado e sem sensibilidade para entender os outros. Acho que escreve sobre coisas que não conhece. Uma fraude, um personagem à procura do reconhecimento do autor!

Aníbal embasbacou, como se atrevia, nunca devia ter lido nada senão sinopses idiotas ou resumos no Google, que percebia ela de escrita. Simulando indulgência e segurando a situação, lançou-lhe um sorriso, entre o perdido e o conformado:

-Muito bem! Já vi que temos novo ogre literário a caminho! Adoro os pseudo-intelectuais, sabe, são óptimos para levar às vernissages de pintura, ficam bem na fotografia e sempre dão um ar repugnante de cultos!- sem palavras certas, enveredava pelo cliché, de repente pensou como o seu personagem se sairia duma destas no livro, mas teria de ter uns seis confortantes  gin’s de avanço. Ali era um impotente cliente numa costumada crise balcânica, aquela que diariamente cultivava ao balcão do café antes de na cumplicidade da noite virar o talentoso e inovador escritor da moda.

Patrícia sorriu e saiu apressada, virando-se para ele deixou um último comentário complacente:

-Quando conseguir ser pessoa talvez venha ser escritor. Até lá, não é mais que um administrador de fantasmas. E histórias como as suas não são o meu estilo, prefiro o original à cópia o sofrimento sempre é mais autêntico, sabe?. Tchau!

O Borges do café escutava e disfarçava desinteresse, secando um copo com um pano. Aníbal, sentindo-se humilhado, pediu outro gin e saiu, danado. Em casa, pontapeou o portátil, num acesso de fúria, afugentando o Troika que dormitava no sofá, e sentou-se no cadeirão. Na televisão, O Pátio das Cantigas chegava ao fim, o Rufino do candeeiro, por amor à senhora Rosa florista abandonava a bebida e incensava o leite, com a filha do Brasil e já curado, marchavam no Pátio das Cantigas, felizes para todo o sempre, a palavra FIM depois do beijo deixava antever que sim. Apanhando o portátil do chão, sentou-se na mesa com a cabeça entre as mãos, olhando a garrafa do gin atirou-a contra a parede e enraivecido fez delete das páginas já escritas do novo livro,  Vasco, o personagem, morria assim antes de nascer.

No dia seguinte telefonou à Fernanda e numa voz trémula pediu-lhe para a ver, pedia o contacto do Anselmo, que fizera uma cura de desabituação da bebida. Pela hora do almoço, voltou ao Borges, Patrícia, vaporosa, tomava café com o namorado. Pediu uma Frize, que bebeu em silêncio ao balcão, ao sair acenou-lhe, na mesa do fundo, e sem que ela tivesse tempo de dizer algo, levantou a voz e lançou-lhe um sonoro “Obrigado!”. É assim a vida às vezes, nestes novos pátios de cantigas…

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:55

Junho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
13
15
17
18

20
22
24

26
30


mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO