por F. Morais Gomes

16
Jun 11

O Grupo dos 14  fora fundado em 1895 por catorze elegantes cavalheiros de Sintra. Durante algum tempo sem sede, promovia de tempos a tempos soirées dançantes, sobretudo no restaurante Lisbonense, em pouco tempo famosas pelo brilho e animação. A acção desenvolvida teve tal adesão que muitos sintrenses mostraram-se interessados em fazer parte, pelo que, entusiasmados, os seus fundadores resolveram criar formalmente uma instituição de instrução e beneficência, a que chamaram Grupo dos 14. Em Janeiro de 1896,  contavam já com 300 sócios e ano e meio depois aquele número subiria para 400, entre os quais, como referia o Correio de Cintra de 16 de Junho de 1897 “individualidades distinctas como o dr. Carlos Guimarães, António Mazziotti, José Antunes dos Santos, José Sequeira de Castello Branco, dr. Cornélio da Silva, A. Madureira e outros". Definitivamente,a Sintra que contava. Entusiasmados, os fundadores resolveram então arrendar um  espaçoso salão no edifício do Mercado da Vila, pelo que na noite de  22 de Janeiro de 1896 a sede era finalmente inaugurada com uma grande festa e a apresentação da estudantina, constituída por 16 ruidosos sócios  tocando instrumentos de corda.

João Moreira, o presidente, era o mais eufórico nessa noite, a vida local ganhava em brilho, rivalizando com os melhores salões da capital, até Sua Majestade a Senhora D. Amélia mandara entregar um donativo generoso  para as obras do auspicioso teatro que ali se pensava erigir. Eleito presidente da direcção pouco tempo antes, fizera equipa com a nata local: José Caetano dos Santos, José Faria da Costa, Chaves Mazziotti e outros. Solene, perorava com selectos cavalheiros sobre o novo clube, queria-se ao nível do melhor da Europa, organizado e brilhante:

 -Boa malha, Faria, Sintra finalmente vai saber o que é elegância e Europa. Olhe, até o nosso cônsul em Paris, o Eça me mandou um bilhete, desejando auspiciosos momentos, quando vier cá promete uma visita. Aqui  cheira a Europa, meus caros, cheira a Europa!- o copo de Colares esvaziava-se, generoso, pintalgando de rosa as salientes bochechas do Moreira, enfiado no seu casaco da moda, só a cartola custara-lhe uma nota das grandes.

Faria da Costa anuía, nada como rigor e exigência, aliados a bom gosto próprio de gente instruída:

-Os bailes terão de ser só para os associados e famílias, e há que impor regras: terão lugar aos domingos e dias santificados, começarão às 8  e findarão à meia noite! E estranhos, quando sejam de fora da terra, só se apresentados por algum sócio, o que só deverá ocorrer duas vezes, para não dar ideia que isto é alguma charanga!

A sala estava feericamente engalanada, vários candelabros e garrafas de champanhe servidas aos cavalheiros emprestavam um tom aristocrata e de fartura. Ao lado, a silhueta do Paço adicionava patine e seriedade que faria do Grupo dos 14 o mais distinto clube fora da capital. Mazzioti, deputado local e cacique experimentado, chupando um puro duma remessa que nessa tarde adquirira na Havaneza, concordava e reforçava a nota:

-Isto para ser à inglesa, cavalheiros,é proibir chapéus no salão ou pessoas em mangas de camisa, como qualquer campónio de Colares depois do círio. E sugiro desde já o seguinte: os lugares para as senhoras devem ser dos dois lados a começar da teia, e como salão de bem, não deve ser permitido a cavalheiro algum sentar-se entre as senhoras, quando não seja pessoa de família, há que manter o respeito pelos valores da decência!- ia arengando, virando-se para o presidente - ó Moreira, ponha lá no regulamento que  os lugares sentados  devem ser concedidos de preferência às senhoras, e qualquer cavalheiro cumprirá o dever de delicadeza de se levantar quando alguma esteja de pé por falta de cadeira. Assim é lá fora, nas grandes capitais das Luzes, e Sintra, a quem o defunto D.Fernando fez farol dessa Europa não pode destoar, meus senhores!

João Moreira, já embalado por divinais tragos de Colares, ia mais longe, aconselhara-se mesmo com Luigi Manini, o culto cenógrafo de S.Carlos, que a Sintra vinha às vezes na companhia do Carvalho Monteiro, o ricaço pensava erguer um vistoso  palacete junto aos Pisões:

 -Lá fora,  as danças, as valsas, polkas ou mazurkas são reguladas pelo mestre de sala. Nada de viras nem pares de um só sexo, nem bandalheira de quermesse. E sobretudo, gente embriagada, nunca!- verberava, terminando de um golo o cognac francês, os demais concordavam brindando com os seus copos.

Na sala cheia, uma Marcha Radetsky um quanto roufenha aquecia a noite, as damas de Sintra, balzaquianas e ruborizadas cobiçavam-se os vestidos, não fosse alguma ter a pretensão de parecer mais elegante, toda a semana haviam corrido o Chiado em busca de chapéus do último grito em Paris, até os jornais de Lisboa tinham noticiado com destaque o lustroso baile do novo Grupo dos 14. Quando tudo apontava para o epílogo  memorável duma noite deveras extasiante, um estrondo súbito soou na sala vindo do lado da orquestra deixando os convivas surpresos e levando ao imediato silenciar da música. Elegante e europeu, João Moreira, o distinto presidente da colectividade  tombava desamparado no sobrado, apreciadas doses  de palhetos de Colares faziam das suas, levando ao  fraquejar das pernas. Bêbedo borracho nunca, apenas selecta e elegantemente etilizado.


publicado por Fernando Morais Gomes às 21:38

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