por F. Morais Gomes

21
Jun 11

Litha, chegara 21 de Junho, o primeiro do verão, entre Erelitha e Afterlitha no antigo contar dos dias, um dos oito sabaths. Alexandre, no jardim da velha casa mirava as flores já pujantes, era o momento em que o confortante Sol chegaria ao zénite e o mundo das flores, folhagens e pastagens se encontraria abundantemente florido e verde. Retido em Sintra, este ano não poderia ir a Stonehenge, lá, eterno, o círculo de pedra milenarmente continuaria alinhado com o nascer do Sol. Estava escrito, explicara à filha, a pequena Débora: após a união da Deusa em Beltane, o Deus adulto, virará pai dos grãos e trará o calor do verão e a promessa de fertilidade com o sucesso do enlace. E sendo o seu auge, também prenunciará o seu declínio, após cumprir a sua função de fertilizador, dará um último beijo na amada e caminhará para o país do Verão utilizando o Barco da Morte e serenamente morrer em Samhain. É a partida do Deus do Carvalho e a chegada do reinado do Deus do Azevinho que durará até ao branco e natalício Yule. Alexandre muitos verões partilhara esse festim, também a pequena Débora fruto do enlace com Ana nascera num início de estio promissor e risonho, festa da Vida, num solstício de amor e dádiva. Ana partira, precoce, também a Barca da Morte a ela colhera aos trinta, agora, com Débora e mais Irmãos da Floresta na clareira da Peninha nessa tarde esperariam o Solstício, vigilantes e agradecidos. Pela tarde, depois do burocrático emprego no banco, pegaria Débora e com Letícia, Álvaro e a Mila partiriam para a serra. Alexandre aproveitaria para colher ervas medicinais, nelas a força do Verão curaria maleitas de corpo e de espírito, druida incógnito na selva urbana, colheria cura para enfermidades, no balsâmico visco e no fértil basílico, neles preservaria a energia nos tempos frios em encantamentos e sortilégios.
Chegaram pela tarde, para muitos mais um dia, alguns almanaques de jornal relembravam a data, em Avebury, Stonehenge ou mesmo no Alvão, anónimos irmãos da Floresta reuniriam. Na Serra Sagrada, junto ao lago, aprontavam-se os preparativos para um banho purificador, em noite de Litha, acreditavam, tudo aquilo que for sonhado, desejado ou pedido tornar-se-á realidade. Ana não voltaria este ano, era certo, mas a crença em dias felizes e o futuro da pequena Débora eram suficiente para o redobrado fervor de Alexandre, o maluquinho das ervas, como colegas do banco o tratavam, a Susana do departamento de crédito, de olho nele, carinhosamente baptizara-o até de Panoramix. Como os antigos povos da Europa, todos acreditavam que, nessa noite, criaturas mágicas correriam pelos campos e florestas e poderiam facilmente ser vistos e contactados. Para início de ritual, os amuletos do ano anterior foram queimados e novos talismãs de protecção, poções para sonhos proféticos e filtros que só eles conheciam foram feitos para aproveitar o momento de confraternização. Alexandre e Álvaro prepararam uma fogueira, a grande fogueira de Beltane, por ela mais tarde pulariam para se livrarem dos infortúnios e da negatividade, um S. João da floresta, sem sardinha nem alho porro, alguns gravetos de carvalho foram recolhidos na clareira. No final desse dia, dia maior, a Grande Roda Solar do Ano alteraria o seu curso, e de novo os dias voltariam a encurtar, cíclicos e promissores, dando lugar a Azevinho rei, Álvaro aproveitava mesmo para esculpir nova varinhas de madeira até ao ano seguinte. Uma mesa foi improvisada na clareira: vegetais frescos, frutas do verão, pão de centeio integral, cerveja e hidromel seriam o cobiçado banquete. Fragrantes, limão, mirra, pinho, rosa e glicínia foram libertos pelo ar já perfumado do eucalipto, com velas azuis e verdes adornaram o altar de oferendas: camomila, sabugueiro, cânhamo, lavanda, tomilho selvagem, glicínia e verbena.
Tudo preparado, Alexandre agarrou-se a Débora, com uma coroa de trigo adornando a pequena cabeça loira e alva, e todos partiram a recolher pedras para formar um grande círculo com cerca de 3m de diâmetro e iniciar a cerimónia. Com uma longa vareta de madeira Alexandre traçou no chão uma estrela de cinco pontas dentro de um círculo de pedras, enquanto os demais acendiam cinco velas verdes colocando uma em cada ponta do pentagrama, começando pelo leste. Colocada uma pedra grande e achatada no centro do pentagrama voltada para o norte, como um altar, e, sobre ela, uma estátua representando a Deusa, em cada lado dela acenderam uma vela branca. No ponto cardeal correspondente ao Ar, um sino de latão, consagrado, e um incensório com incenso de mirra. No ponto cardeal correspondente à Água um cálice com vinho, um prato com sal e uma tigela com água da chuva. Caía a noite agora, lá longe na Cidade Grande apressada, aflitos humanos corriam para casa findos os empregos, um novo governo tomara posse, no Parlamento os eleitos da Nação distribuíam sinecuras. Na Floresta Límpida, um punhado de sábios da Mundo Oculto celebravam o Novo Ciclo, à sombra da Serra testemunha de muitas lithas e muitos yules, ciosa dos seus segredos insondáveis e milenares.Abençoando o vinho, coberto o cálice com as palmas das mãos, Alexandre consagrou-o à Deusa e salpicou um pouco de sal e gotas de água sobre o sino de latão,a abençoá-lo. Acesa a mirra, levantando os braços para o céu, fechou os olhos e deixou que pensamentos e visões agradáveis lhe invadissem a mente, a pequena Débora, de olhos igualmente cerrados, sorria à lembrança da Mãe, na sua primeira Lithia, todos em silêncio repetiam o ritual, tombava uma última réstia de sol dos lados do mar. Colocado o sino no altar de pedra e levados os cálices de vinho aos lábios, os adultos beberam e derramaram o resto no centro do pentagrama, em devoção à Deusa. Depois, colocado o cálice vazio no altar, novamente soou o sino três vezes e ajoelhando, ofereceram mais incenso e continuaram o banquete de alegria com o canto de músicas mágicas. Estava celebrado o Solstício, podia agora o Verão pujante invadir os ares e as terras.
No dia seguinte, Débora, na inocência dos seus cinco anos foi até à praia, com os colegas do infantário. Ainda enebriado da véspera, Alexandre, de volta ao trabalho, acolheu com um sorriso cúmplice o Sol que benigno lhe entrava pela janela do gabinete no banco. Talvez a Susana do crédito quisesse almoçar com ele, partilhar uma salada com o Panoramix das cobranças, faunos na Serra apreciariam contentes por certo.Esperançoso, talvez o solstício do ano seguinte tivesse mais um risonho participante.
publicado por Fernando Morais Gomes às 04:00


Olá desculpe a invasão, mas quer ganhar dinheiro sem ter de sair de casa? Se sim então vá a este link http://pt.beruby.com/promocode/u3aul1 e/ou http://www.publipt.com/pages/index.php?refid=anadeoliveira

e registe-se. A partir do registo, pode clicar em site, como a Sapo, Facebook, You Tube e ganhar dinheiro. São sites que usa usualmente e a única diferença que vai sentir é mais uns trocos no final do mês na sua carteira.

Estou a contar consigo. :)
Ana a 21 de Junho de 2011 às 11:47

Junho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

12
13
15
17
18

20
22
24

26
30


mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO