por F. Morais Gomes

08
Out 10

Bento Rodrigues levava quinze anos no Ministério da Agricultura. De simples terceiro oficial, nos anos sessenta, subira a pulso na repartição, cinzenta sala interior, sem vista para o Terreiro do Paço, submetendo dezenas de despachos aos "concordos" dos sete directores gerais com quem trabalhara, todos eles veneradamente “ a bem da nação”.

O senhor doutor Marcelo Caetano já  lhe havia garantido reforma na velhice, Deus o guarde!, a mãe lá na aldeia finalmente obtivera uma pensão da Casa do Povo. O  António, estava a concluir o Ateneu, e com orgulho da família iria matricular-se em Económicas.

Não tinha vícios repreensíveis. Não fumava nem bebia, torcia pelo Belenenses. Uma vez por ano toda a família ia em Agosto para casa duns primos na Foz do Arelho e a ajudar na apanha das batatas, que depois recheariam o carro e a dispensa  todo o Inverno.

Era um homem satisfeito, bom cristão, sempre pontual, casaco e gravata usados mas apresentáveis, o funcionário público que o País precisava, não percebendo como é que turras instigados pela corja soviética atacavam o nosso glorioso trabalho no Ultramar.

Havia alguns anos que a pedido do senhor director geral discretamente elaborava relatórios sobre  conversas que ia ouvindo a alguns engenheiros mais ingratos com o que a Nação lhes dava e,que sussurrando pelos cantos iam falando da necessidade de reformar a lavoura, sobretudo no Alentejo, criticando as avisadas opções do terceiro plano de fomento.

-Esta gente precisa de rédea curta, há sempre bicho até na melhor maçã, Rodrigues!- alertava o doutor Madureira, chefe de divisão da confiança de quatro ministros,”todos grandes portugueses”, como costumava repetir.

E Rodrigues lá cumpria religiosamente o patriótico trabalho de expedir ofícios e  diligentemente vigiar os prevaricadores da lei e da ordem, na discrição do seu canto no Ministério.Por vezes puxava conversa com alguns dos engenheiros,a pretexto do tempo ou da prestação do Benfica na Taça das Cidades com Feira, assim obtendo preciosas informações para o leal dr.Madureira,

Uma quinta-feira chuvosa, já em 1974, cenário anormal e surpreendente se lhe deparou à chegada  ao Ministério, ás cinco para as nove, sagrada hora da entrada à mais de quinze anos. Veículos militares ocupavam o Terreiro do Paço e militares armados gesticulavam e rodeavam os vetustos ministérios. Tentou entrar, mas mandaram-no para casa, que ficasse atento às rádios.

O mundo de Bento Rodrigues mudou muito desde então. Aos poucos, do espanto pelo sucedido com a “tal Abrilada” passou  à revolta, e da revolta á resignação.

No Ministério passaram ministros militares, alentejanos gritando por reforma agrária, o doutor Madureira foi  saneado.

Com o tempo, foi-se adaptando. Afinal, a bem ver, o país estivera  estagnado, a guerra fora injusta, os malandros latifundiários não passavam de  ociosos proprietários de campos escandalosamente abandonados. Revolução à cubana nunca, que a NATO nunca deixaria, mas liberdade com responsabilidade, a Europa do Mercado Comum, isso sim, anuía.

Certo dia, com surpresa, foi convidado por um partido de esquerda para candidato à  Junta de Freguesia.Agradado, lá aceitou. Foi eleito.

Dois mandatos, várias placas em ruas e três parques infantis depois, o partido estava rendido. Estava na calha para a vereação nas eleições seguintes.

Bento Rodrigues reformou-se à poucos anos. Na hora da despedida foi agraciado com a medalha de ouro do município, agradecimento sincero ao contributo insubstituível que dera para as causas da democracia e da liberdade.

publicado por Fernando Morais Gomes às 12:31

É suave, mas muito verdadeira. Bem-haja pela lembrança !
Anónimo a 8 de Outubro de 2010 às 19:03

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