por F. Morais Gomes

23
Jun 11

Oiço passos no corredor, é a enfermeira Dulce. Grande rabo, ali dava eu uma injecção com ela toda enrolada num colete de forças. Vão fechar as luzes, ficam só as de presença, momento de acordar do sono diurno, chupando beatas do chão e levando com o Gaspar e as suas bananas e pães-de-ló. O tipo já lá não vai com pão-de-ló.

Há  38 anos que moro neste Grande Hotel do Telhal. Está-se bem, quatro Napoleões, uma Madame Pompadour de mamas caídas, aqui estou salvo, os verdadeiros loucos estão lá fora, loucos com uma lucidez idiota e patética.

O jantar foi guisado. Uma trampa, nem um vinho decente.

Chamo-me António, António Gancho e sou o hóspede mais antigo deste covil, mordomo impenitente, cicerone de sombras. Ali na cama do fundo está o Medina, algaliado, o imbecil, chegou há dois anos e só fala para dizer que tem fome. Veio para uma cura alcoólica mas ficou pior. Ficam sempre piores da cura.

Não sei quanto tempo me resta, mas não sairei daqui. O Sade também morreu no hospício, esta é a virtuosa prisão que liberta, aqui ganhei o poder de ser livre sem ninguém nos levar a sério e isso, isso é muito, muito sério. Quero morrer à noite, morre-se sempre melhor à noite, a noite é escura como a morte, e ao morrer à noite sempre chateio um pouco mais a Odete, tirando-a do sono, talvez morra com a mão no rabo dela.

Sou um grão de bico para a morte debicar, a morte essa galinha desvairada, aposto que é a Odete com asas e penas. Hei-de comer a morte de fricassé!.

Dizem uns maluquinhos para aí que sou um grande poeta. O Herberto  foi sempre assim, diz que é muito bom o que escrevo, escapou de vir para cá, o cara de pau, ele e a seita dele, esconderam-se todos em bibliotecas, intelectuais, ratos com óculos, deixá-los com o seu queijo bolorento. Não há melhor inimigo dum poeta que outro poeta. Poeta grande é poeta maldito. Maldito e amaldiçoado. Disse-o ao Medina no outro dia, o imbecil ficou calado a olhar para mim e a comer uma banana e perguntou se havia pudim para a sobremesa. É um ponto o Medina,  poesia  para ele só com arroz. Ao fim de semana veste o ridículo pijama às riscas e faz a ronda das enfermarias, diz que é dia de inspecção.

A noite está luarenta, sangrenta, noite de Alentejo, de grilos.

Nesta enfermaria invento a geografia das coisas. Escrevo Sintra e nasce Sintra, porque o nome de Sintra escrevi. Falo Odete e ela vem, mesmo que não venha fico a devorar-lhe  o nome na dobra da língua. É esse o poder de escrever. Amarram-se coisas a papeis, conquistadas, inventam-se futuros, assassinam-se passados. Escrevo lua e é minha a lua, luarenta, luarita, luarosa, tudo o que quiser com ela, amarela, azul, posso até meter lá o Medina, coitado, com o pijama às riscas. Esse o meu poder, absoluto, cruel. Eis-me imperador do caderno, rei da caneta preta, guardião da mesa de cabeceira, comissário da arrastadeira e do soro.

Lua.

Sintra

Imbecil.

Escrevo palavras e aprisiono-as, como o pirilampo que guardo na gaveta dos remédios, escravo da minha Luz, luminoso e pirilampo. Ali ponho um til, é uma onda sobre o a, os ás devem ser ondulados, as palavras fluem, escrevo-as, no fim nada dirão, o  segredo, cínico, fica sempre nas letras não escritas. O verdadeiro poema é aquele que nunca escrevemos mas todos julgam descobrir num qualquer tropeço nocturno de papel branco depois dum bacalhau à Brás ou dum tinto.

Escrever é gerir línguas mortas, aramaicos de lucidez que muitos ousarão profanar. Deixá-los tentar, no seu hospício de ignorância.

Senhores, esta é a suposta casa da loucura, de mentes brilhantes, fígados cansados, onde se derramam histórias sobre histórias derramadas, médicos e loucos, loucos da medicina e médicos do silêncio. Confundem-se. Ah, os loucos estão de branco! E as enfermeiras. E os médicos. O deles é branco sujo, o nosso é branco anjo, alvo, do Éden.

Tenho aqui um mapa, nesta folha ainda branca. Eis oceanos de ilusões, montanhas de desespero, ilhas de luminosidade, vulcões de Cesarinys. O sacana não quis este hotel, queria um com mini-bar e enfermeiras de bigode. E marujos. Brancos.

Passaram trinta e oito anos, o colchão é o mesmo, três percevejos são primos já. Deixo-lhes a almofada em testamento. O SG Filtro fica para o Medina, para o passeio de domingo com o pijama às riscas.

Vejo Usquarth da janela. Dizem que é Sintra mas não é, Sintra foi destruída há muito, é o lago do monstro Ness, por certo.  A Odete encolhe os ombros quando faz a ronda e lhe falo de Usquarth. Camões tinha ninfas eu tenho a Odete, valquíria da seringa, profanadora da nalga com a assassina injecção, nova Florence Nightingale da Terrugem.

Está ali ao fundo uma tenda, com índios. Dentro, dançando fazem sinais em torno da fogueira. Chamam. Eu? Aí? Vou. Devo partir. Ah, vou escrever Liberdade na folha branca.

Está escrito. Sou livre agora.

“Põe-se-lhe a data

e o poema nasce

rubicundo

como a ponta de um lápis

que escrevesse no registo

o nome macho dum bebé.

I achieve

I finalize

eu acabo

eu finalizo.

É o poema terminado.”(*)

António Gancho

 

(*)A itálico, excerto do poema de António Gancho “Ilustrazione”

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:04

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