por F. Morais Gomes

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Jun 11

Alberto Cantino chegara em Setembro de 1502, um agente genovês em Lisboa assegurara-lhe um contacto na corte portuguesa pelo que urgia agir,o duque de Ferrara, que o enviara, esperava resultados concretos e céleres.

O contacto em Lisboa era Estevão de Alenquer, antigo vedor da Fazenda, com ele em segredo acertara a obtenção de uma cópia da carta secreta com o registo das navegações portuguesas, pergaminho de grandes dimensões guardado na sala das cartas da Casa da Guiné e da Mina, aí se registavam as secretas viagens dos portugueses e os territórios efectivamente visitados. Cantino subornara um falsário para que lhe fizesse uma cópia e Estevão,traiçoeiro, facilitaria o acesso à sala das cartas, a troco de doze ducados de ouro. A 19 de Novembro a cópia finalmente ficou pronta e Cantino corria a expedi-la para Ferrara por um estafeta, solicitando ao duque Hercule os prometidos vinte ducados em ouro. A carta continha preciosas anotações, a mais recente era a menção ao desaparecimento de Gaspar Corte-Real, reportado em Outubro de 1501, bem como preciosos detalhes recolhidos após o  regresso da Índia da terceira frota de João da Nova, em Setembro desse ano.

Cantino exultava com o achado: pela carta copiada, com dois metros por um, se dava conhecimento da existência até ali desconhecida do litoral do Brasil e de uma parcela expressiva do litoral atlântico da América do Sul com uma antecipação bastante grande sobre as demais nações europeias. Na inscrição, secreta, escreveu "Carta da navigar per le Isole nouam tr[ovate] in le parte de l'India: dono Alberto Cantino al S. Duca Hercole" . Era um belo documento, e mais valioso ainda: o sigiloso mare clausum dos portugueses a que os pontífices romanos davam desde há mais de vinte anos cobertura, ali estava exposto e desvendado, num documento único e essencial. Os continentes e as grandes ilhas eram representados a verde e as ilhas pequenas a vermelho ou azul. Bandeiras assinalavam a soberania dos territórios, observando-se uma bandeira espanhola na vizinhança de Maracaibo. O Equador estava representado por uma espessa linha dourada, e a linha do tratado de Tordesilhas por uma azul. Já os trópicos e o Círculo Polar Ártico, estavam assinalados por finas linhas a vermelho.

A Cantino chamou-lhe a atenção sobretudo o trecho da costa brasileira, descoberto em Abril de 1500 pela armada de Cabral. A região estava representada por grandes árvores verdes e douradas, arbustos azuis e papagaios vermelhos predominando. Esta costa fora contudo retocada no mapa original, tendo-lhe sida aposta uma tira de pergaminho, que modificava os contornos do território de Vera Cruz, a terra do pau-brasil. A América do Norte encontrava-se indicada em várias partes, mas a ausência de uma linha costeira a norte da carta sugeria a possibilidade de uma passagem marítima para a China.A costa leste da Terra Nova encontrava-se contudo desenhada a leste da linha do Tratado de Tordesilhas, com grandes árvores verdes e douradas de longos troncos, e a inscrição "Terra del Rey de Portuguall".  Figuravam ainda umas ilhas com a menção "has antilhas del Rey de castella".Era um achado. O duque de Ferrara, de posse de tal carta logo mobilizaria dinheiros e armadas para alcançar as terras agora dos portugueses, onde ele poderia aspirar a uma capitania, como Cristoforo Colombo, seu conterrâneo, que bons proveitos lograra com o jogo duplo feito com o rei de Portugal e os Reis Católicos.

Em Ferrara, o planisfério enviado por Cantino fez exultar o duque. Alberto, pago o combinado a Estevão logo se pôs em marcha de volta a casa a cobrar alvíssaras e ajustar negócios, a missão fora cumprida.Num fim de Dezembro,Estevão de Alenquer  acompanhou Cantino à nau que o levou até Génova. Mal a embarcação sumiu na barra do Tejo, contudo,correu à alcáçova do Castelo de S.Jorge e pediu audiência urgente a D.Manuel. O rei refastelava-se em volta dum prato de viandas de borrego e sem parar a refeição recebeu Estevão nos aposentos:

-Então, D. Estevão, que notícias trazeis?

-Está tudo como previsto, Majestade. O genovês queria mercadejar e soez devassar nossos segredos. Pois partiu já, levando o que julga ser o verdadeiro mapa do Mar-Oceano …- Estevão não disfarçava o contentamento, os espiões de D.Manuel sabendo da vinda dum espião a Lisboa, congeminaram uma falsa cooperação entre Estevão de Alenquer e o homem de Ferrara, e sem o suspeitar Cantino enviava um planisfério enganado, avisado, D.Manuel enganava o espião e dava a conhecer um mundo novo mas…não exactamente onde se julgava ser novo e por vezes onde nem sequer mundo havia.

D.Manuel sorriu com ar traquina, bebeu a malga de vinho e da barbacã da alcáçova mirou o Tejo. Só ele, Venturoso Senhor da Conquista e Navegação sabia o segredo das rotas que Deus sabiamente entregara em mão lusitana e cristã. E assim continuaria por muitos anos ainda.

As informações geográficas disponibilizadas pelo planisfério de Cantino foram incluídas num  planisfério desenhado por Cavério logo após o retorno de Alberto Cantino à Itália e serviu como referência para a elaboração do Planisfério de Waldseemuller em 1507, graças ao mecenato de René, Duque da Lorena. Mais tarde, o mapa perdeu-se até que, em um dia, em 1859, Giuseppe Boni, director da Biblioteca Estense em Modena enquanto aguardava ser atendido numa salsicharia aí viu numa parede o antigo pergaminho, que lhe chamou a atenção, acabando por adquiri-lo. Um exame mais cuidadoso revelou o que suspeitara; era o famoso planisfério de Cantino  onde figurava confusa e deslocada a costa do Brasil e a linha de Tordesilhas. Inglório, o trabalho de Cantino ia acabando os dias entre chouriços e carne de vaca. Aos portugueses, decididos, nada obstaculizara e nessa época  por muitos anos ainda continuaram senhores dos mares e  silenciosos mestres do sigilo.

 

 

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:12

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