por F. Morais Gomes

27
Jun 11

Naquele Verão de 1935, Poirot e Hastings decidiram-se a umas férias exóticas: longe da verde mas fria Cornualha, tentariam Portugal, Mrs Catherine Nightingale, uma coleccionadora de arte sua admiradora vivia no país e convidara para duas semanas no Continente. A viagem desde Madrid foi no Lusitânia Express, nada das comodidades do Expresso do Oriente, mas mais tranquilo à chegada, contudo.

Na Estação do Rossio esperava-os o motorista de Mrs Nightingale, um português já com alguma idade, careca e fardado a rigor, de nome Pacheco. Poirot reparou que era de tom de pele escura, não negro mas com sangue africano, por certo, mirando a cidade pareceu-lhe agradável, um estranho troar de vozes sugeriu-lhe desacatos, eram  varinas com cabaças à cabeça apregoando peixe na Baixa de Lisboa. Colorido, pensou, colocando as luvas brancas e ajeitando o monóculo, o bigode escuro retorcido não o distinguia muito dos portugueses, tal como ele maioritariamente de cabelo escuro e estatura mediana.

Em Sintra, Catherine preparara dois quartos, e um almoço farto com frutas e geleia de maçã à sobremesa. A casa era uma soberba mannor na estrada da Pena, a Hastings lembrou a placidez do Lake District, o mar ficava a duas milhas. A casa havia sido antes propriedade dum negreiro que fizera fortuna com a venda de escravos para os engenhos de açúcar no Brasil, e tinha uma traça muito particular e em dois pisos, no salão grande pontificava um retrato do primitivo proprietário, de chicote e com uma sanzala em fundo, armas do major na parede, um harmonioso jardim italiano no exterior. Caherine enviuvara recentemente do major Nightingale, que estivera com Allenby no Cairo nos anos vinte, apaixonada pela tranquilidade de Sintra, que conhecera durante uma missão do major a Lisboa, por cá ficara, pintava e esporadicamente enviava artigos sobre o país para o Daily Chronicle, de Londres.

Poirot não saía muito de Whitehaven Mansions por esses dias, na Alemanha o chanceler Hitler havia anexado a Áustria e sentia-se uma tensão latente nas chancelarias. Portugal seguia alheio a isso, sob a batuta de Salazar. Em Sintra, agradado com o clima, familiar ao das ilhas, dedicou-se ao seu hobby mais recente: coleccionar borboletas, as matas de Monserrate e da Pena eram fartas em exemplares, armado dum camaroeiro a tal dedicou as manhãs, enquanto Hastings de eléctrico ia até às praias tomar um refresco e ler na esplanada do Grego.

Cinco dias depois, ao descer para o pequeno-almoço, encontrou Catherine particularmente agitada: o quadro do negreiro no salão grande sumira. As janelas e portas estavam fechadas e não havia sinais de arrombamento. Poirot, agastado por atrasar o pequeno-almoço mirou o salão mas tudo parecia no lugar, apenas o quadro sumira. Após um exame detalhado, perguntou quem mais tinha acesso à casa, mas além de Mrs Nightingale apenas uma empregada portuguesa, Alice, e esporadicamente o Pacheco, o motorista morava numa casa da serra, e só fazia serviço quando chamado. Alice nada vira, dormia com as galinhas, pois manhã cedo tinha de ir ao mercado buscar queijo e frutas para o pequeno almoço dos senhores e Pacheco não voltara lá desde que fora a Lisboa buscar os visitantes. Hastings, esse, cansado dos ares do mar, toda a noite roncara, que Poirot incomodado bem ouvira,  o quarto era ao lado do seu e a parede de madeira. Poirot tomado o pequeno- almoço saiu até à Vila, para um passeio demorado e apenas voltou pelo almoço. À tarde, sem nada dizer, voltou a sair, a visitar o palácio da vila, disse, Hastings estranhou o amigo, aparentemente desinteressado do roubo do quadro, a polícia fora entretanto avisada e o cabo Esteves da GNR de Sintra tomara conta da ocorrência na casa da “madame”.

Um pouco antes de jantar Poirot pediu a mrs Nightingale que reunisse Alice e Pacheco na sala, tinha uma revelação a fazer. Hastings, conhecedor do amigo e seus segredos antecipou que seria sobre o roubo. Poirot, em pé, impecável no seu fato escuro rematado com umas polainas brancas passou a explicar :

-Messieurs, merci por terem vindo. Como é sabido um valioso quadro de mrs Catherine foi furtado desta casa pela calada da noite. Neste momento creio saber quem terá abusivamente levado o quadro do primitivo dono desta casa,  o senhor Gouveia de Ornelas!

-Sabe? E quem foi, mr.Poirot?- perguntou Catherine, arregalando os olhos.

-O dinheiro motiva muitas vezes o crime e o quadro, da autoria de um português do século passado,Vieira Portuense, e até tem valor económico. E o dinheiro é sempre um bom motivo para o crime, não é miss Alice?- sublinhou, virando-se para a empregada, de famílias modestas e apenas há 3 meses ao serviço da inglesa.

-O que é que está a insinuar sr.Poirot? Sou pobre mas honrada, meus pais já serviram o sr. Carvalho Monteiro e o conde de Sucena, nunca seria capaz de fazer mal à senhora Nightingale, que tão boa tem sido comigo!- replicou quase chorando, Catherine aguardava expectante o desfecho da história.

-Eu sei, miss Alice, eu sei. Mas o criminoso foi outro, e não foi por dinheiro, creio. Virando-se para o motorista Pacheco, até ali sorumbático e em silêncio, Hercule sondou:

-Tem ido muito à Camélia, senhor Pacheco?

-Como diz? A Camélia? Porquê?- surpreso, o motorista ignorava que o belga conhecesse a papelaria na Vila onde cavaqueava por vezes, nessa tarde a pretexto de adquirir o Times,  Poirot estivera lá à conversa:

-Parece que costuma lá ir muito. Aliás, a entrada está um pouco desagradável há muita areia por causa de umas obras. Como aquela que trás nos seus sapatos, não acha?

Os sapatos de Pacheco tinham vestígios de areia, amarelada e grossa, antes que dissesse algo mais, Poirot continuou:

-Igual a esta que está aqui junto à lareira, estão a ver?- com um pedaço de papel branco, Poirot recolhia areia junto a uma cadeira por baixo do local onde antes estivera o quadro. Todos olharam para Pacheco, que ruborizado contrariou o belga impertinente:

-E isso que prova? Qualquer pessoa desta casa pode ter passado pela Camélia e pisado a areia. O senhor é o primeiro a dizer que esteve lá esta tarde, quem garante que a areia não seja sua?

-Duas questões, messieur Pacheco. Na papelaria, o senhor Mourão, antiquário local falou que o senhor lhe prometera vender antiguidades que teria herdado duma tia falecida. Mas o senhor Cunha, da casa das queijadas garantiu-me que o senhor não tem família. E mais: que a sua avó terá sido uma escrava trazida para cá por Gouveia de Ornelas. Grávida. É verdade, n’est-ce pas?

A argúcia de Poirot deixou o mulato estarrecido, olhando Alice e Catherine decidiu entregar o jogo:

-Sim, fui eu quem tirou o quadro. Mas não foi por dinheiro! Desde que minha mãe me contou que esse patife era o meu pai, que abusou de minha avó e renegou a minha família, jurei que havia de vingar a sua memória. E para mim isso passava por destruir a única imagem que dele resta ainda hoje, aquele quadro. Não tencionava vendê-lo, mas destruí-lo apenas!

Catherine, sensibilizada, aproximou-se de Pacheco, e colocando-lhe a mão no ombro, tranquilizou-o:

-I understand you, António, really, I do! E como prova faremos o seguinte: traga o quadro, que vamos queimá-lo no jardim, e assim afastar desta casa o espírito do Ornelas!

Poirot ufano, sorriu e torceu o bigode fino:

-Trés bien, assim sendo, se não se importam, comeria um pouco da esplêndida  galinha que miss Alice tem no forno, que já lhe senti o cheiro. E amanhã, bientôt, serra, que as borboletas aguardam!....

publicado por Fernando Morais Gomes às 11:32

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