por F. Morais Gomes

28
Jun 11

Luísa preferia Cabo Verde, a proximidade e a língua empurravam-na para essa opção, Silvério porém insistia com a ida à Venezuela, as fotos do Gonçalves com as quedas de água pujantes galgando os tepuyis e a fauna exótica e fértil não deixavam dúvidas. Seria esse o destino de Verão, as roupas recentemente adquiridas no Coronel Tapioca e a nova Samsonite com rodas iriam fazer rodagem a sul das Caraíbas entre macacos e indígenas.

A viagem serviria também para sarar feridas. O stress do trabalho de Silvério na imobiliária e a mastectomia recente de Luísa traziam-lhes o casamento no fio da navalha, nada como um destino de sonho para renovar baterias e continuar a luta. Simão, já com 16 anos, iria para o Algarve com uns amigos e até agradecia que os pais bazassem, desde que lhe deixassem  guito para uns dias.

No dia marcado, após sete horas de avião desembarcaram pois em Caracas, cidade poluída e tensa, bairros de lata estendendo-se entre o aeroporto e a cidade plantada num vale e muito desorganizada, sul-americana. Os venezuelanos dum modo geral tinham todos feições ameríndias, como o Chávez, narizes achatados e grandes orelhas,Luísa pasmava onde estariam escondidas as famosas louras que amiúde ganhavam concursos de Miss Universo. Três dias depois, a bordo dom DC-10 a hélice, lá partiram para o destino desejado, Canaima, o maior parque nacional da Venezuela, maior que a Bélgica e a perder de vista, depois de uma escala em Ciudad Bolivar, poeirenta cidade do interior já a caminho das florestas de Roraima. Visto do céu, o cenário era luxuriante, rios serpenteando, vegetação esmagadora, ao longe, o famoso Salto Ángel, a mais alta queda de água do mundo, acima dos mil metros, com a água generosa perdendo-se  em vapor antes de chegar ao solo. Era ali o Paraíso, e com tudo incluído.

O improvisado aeroporto era uma pista de terra batida no meio da selva ladeado por umas cabanas com telhado de colmo, os próprios passageiros tinham de retirar as malas e levá-las. O cheiro intenso da vegetação e o calor pegajoso eram excitantes, a viagem prometia e Luísa por uns momentos retomava o brilho nos olhos de antes da operação. Silvério, turista encartado, correu a colocar um chapéu de palha, novel explorador de Mem-Martins, Livingstone da linha de Sintra, esperando sinuosas onças ou assustados tatus e sacando do milagroso repelente, do qual, avisado pelo Gonçalves, trouxera paletes.

Um guia nativo e bem disposto levou-os e a mais oito num jipe tipo unimog para uma cabana, num resort com  umas doze casas de colmo, uma bebida à base de rum deu as boas vindas ao grupo. Água quente e electricidade só uma hora por dia, de manhã, todos os passeios de barco e excursões às cascatas a começar sempre às cinco da manhã, avisaram, ainda na recepção. A recruta ia começar.

Depois de arrumada a bagagem e equipar a preceito com colete de vários bolsos e binóculos, à Indiana Jones, Silvério sentou-se à beira-rio frente à cabana, a paisagem era deslumbrante e vasta, duma cabana vizinha chegava contagiante o som dum merengue, voltou ao bungalow onde Luísa arrumava as roupas e agarrou-a por trás, beijando-lhe o pescoço, não resistindo ao cliché de novela:

-Me Tarzan, you Jane. Vamos caçar para o nosso almoço?

Luísa sorriu, ainda um tanto fugidia soltou-lhe a mão do colo:

-Sr.Tarzan da linha de Sintra, vá mas é por a sua roupa na gaveta. E a propósito, esquecemo-nos da pasta de dentes…

-Mas quem vai precisar disso aqui, amor?. Comeremos à mão e secaremos a boca com frutos que nós mesmo colheremos. Está ali um palmito mesmo a pedi-las…

-Deixa-te de invenções, Silvério,isso deve ser venenoso, pareces um adolescente!.

Silvério estava contente, aquela viagem traria um fôlego renovado ao seu casamento, esperava ele, Luísa, antes relutante,vestia agora roupa fresca e adequada, uns novos óculos de sol da Moschino realçavam os cabelos castanhos alongados e sedosos.

Nos dias seguintes desceram o Caroni de piroga, as águas castanhas da folhagem serpenteavam e davam lastro á barcaça à aproximação das cascatas, pujantes ejaculando Natureza bruta e límpida. Uma chilena quarentona do  grupo caiu mesmo à água, tenso mas resoluto,Silvério, repentino Popeye de serviço, saltou para a água e salvou a infausta turista e nesse dia à noite, herói da jornada, foi efusivamente saudado e afogado em runs com cola no arejado bar do resort. Excitados, atravessaram uma cascata atados com cordas, o silêncio à noite, só interrompido pelas térmitas na floresta ou algum turista mais adepto do rum na tranquilidade luarada dos bungalows traziam àqueles dias de paz o bálsamo para retemperadas as forças voltarem à rotina da crise, dos telejornais-choque e da empresa em dificuldades.

Na tarde do último dia prescindiram do passeio programado, à noite haveria um luau de despedida com um churrasco assado pelos nativos, e perderam-se no matagal bordejado pelos imponentes tepuyis, quadradas mesetas onde, diziam os índios, viviam deuses que quando zangados enviavam coléricas trovoadas tropicais, enfurecendo as águas e revoltando as quedas de água. Em silêncio, sentaram-se, de mão dada, Luísa, acariciou-lhe a face, já madura dos quarenta e cinco anos de vida esforçada, e enfiou-lhe a mão nos cabelos:

-Silvério…..

-Sim?....

-És um pateta….

-Eu sei, meu amor….

-Obrigado. Nunca casaria com outro pateta que não tu. Obrigado por me recordares que há mais que um caminho para a felicidade…

Silvério sorriu, interiormente satisfeito, e gracejando, beijou-a, enquanto lhe oferecia uma flor selvagem colhida à beira-rio:

-D.Luísa Marques, prepare-se, que isto não fica por aqui.Para o ano vamos à Grande Barreira de Coral!. Tenho de usar todos os chapéus de explorador  que comprei no Coronel Tapioca,não temos tempo a perder!

Mais uma trovoada tropical, das que várias vezes ao dia caíam na Gran Sabana abateu-se ruidosa do lado do grande tepuyi, algum dos deuses, contente, saudava a felicidade de Silvério e Luísa. Arremessando para longe o chapéu de safari, Silvério e Luísa deixaram-se ficar, encharcados mas felizes, num prolongado beijo de despedida daquelas férias inesquecíveis mas ao reencontro duma vida que sabiam só com os dois poder ser feliz.

 


publicado por Fernando Morais Gomes às 10:24

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