por F. Morais Gomes

02
Jul 11

Em Nice para um congresso médico, Aguinaldo Teixeira não resistiu a espreitar o evento da semana, o casamento do até então solteirão príncipe Alberto com a nadadora sul africana Charlene Wittstock, vinte anos mais nova. No sábado não haveria sessão da manhã, o congresso de obstetrícia, que uma farmacêutica de Sintra pagara, só domingo retomaria os trabalhos, havia que desfrutar.

Governado há sete séculos pelos Grimaldi, Aguinaldo sempre ouvira falar daquele principado pelos mais diversos motivos: o circuito de formula 1, o casino, Grace Kelly,  e as filhas desta sempre nas capas das revistas cor-de-rosa, daquelas que costumava ter na sala de espera do consultório em Lisboa para as suas clientes na menopausa.

As ruas estavam profusamente decoradas com fotos do casal e toda a Monte Carlo exalava um odor a luxúria que lhe emprestavam as roupas  jóias e perfumes Armani, Lagerfeld ou Saint-Laurent, aguardavam-se cabeças coroadas e reis  de opereta nas suas fardas carregadas de dragonas e medalhas,  beautiful people e os paparazzi do costume. Aguinaldo, depois de uma volta pela marina, deteve-se num restaurante da marginal. Numa mesa, um velho de cabelo branco impecável no seu casaco azul com uma coroa debruada e lenço vermelho de seda pendendo do bolso de cima saboreava uma flûte de Moet et Chandon, que havia já acompanhado com canapés de lagosta Termidor e ostras limonadas. Olhava no sentido oposto do mar, e como que hipnotizado fixava os olhos no vetusto palácio dos Grimaldi. Aguinaldo sentou-se na mesa ao lado e pediu a carta. Curioso, fixou o olhar no cliente do lado, um bem aparado bigode emprestava-lhe um ar aristocrático, pediu uma vichyssoise e uma taça de Bordeaux, beaujolais. Não bebia por hábito, mas que diabo, estava no Mónaco, e se não era uma cabeça coroada era príncipe de úteros alheios, como costumava dizer aos amigos, trabalhava no sítio onde outros se divertiam.

Um estranho de farda branca chegou entretanto, deixando um envelope, que o homem de imediato rasgou, abrindo um enigmático sorriso depois de lido o conteúdo. Aguinaldo, animado, pediu outra garrafa e foi-se deixando estar, a noite caira já e todo o rochedo reluzia com o casamento do príncipe. A dada altura, o homem da mesa ao lado dirigiu-se a Aguinaldo e pediu lume, o obstetra solícito puxou do isqueiro e acendeu-lho:

-Merci, monsieur. Italien?- sondou o homem do casaco azul.

-N..non, non. Portugal…. Cristiano Ronaldo…- o cliché usual sempre ajudava a facilitar as conversas.

-Ah oui…Veio para a festa?

-Não, não, sou médico e estou num congresso em Nice, aqui ao lado...

-Ah medecin. Aqui muitos precisam de um, sabe. Há muitos loucos.

Aguinaldo sentiu que o magricela precisava de falar e convidou-o a sentar. Depois de uma baforada na cigarrilha, apresentou-se:

-Eugene Charles de Polignac, conde de Menton e Ventimiglia!- desbobinou pausadamente- diga-me, conhece a história deste principado?

-Pouco, pouco, é a primeira vez que aqui estou,  vejo o Grande Prémio na televisão, só isso!

-Hummm…Sabe que em 1918 se colocou a questão da sucessão de um anterior príncipe, Alberto I, que tinha apenas um filho, Louis, o último Grimaldi e solteiro. Uma fatalidade com o seu único herdeiro e o principado seria devolvido à França, um tratado a isso obrigava.Alertado, Louis  apressou-se  a reconhecer uma filha ilegítima, Charlotte Louise-Juliette, nascida em 1898 e fruto de um romance com Marie Juliette Louvet, uma cantora de cabaré.

-Sim…ignorava, alteza…hã… senhor conde- Aguinaldo estava por fora destas coisas de reis e rainhas, por cortesia mandou vir mais uma garrafa de vinho, para o conde outra flûte, o Visa do consultório pagaria, estava no estrangeiro e no Mónaco, afinal. O companheiro de mesa continuou:

-A princesa Charlotte Louise-Juliette casou-se com o conde Pierre de Polignac em 1920, que aceitou trocar o apelido para Grimaldi, seguindo a linhagem familiar, e a princesa passou a ostentar os títulos de "Princesa Charlotte, Duquesa de Valentinois, Marquesa de Baux e Condessa de Polignac", Sua Alteza a Princesa Charlotte!- a conversa saia-lhe como um livro de História, o francês italianizado do parceiro de mesa facilitava a compreensão, bebendo outro gole continuou a narração:

- Do casamento nasceram dois filhos, Antoinette que nasceu em 1921 e Rainier, que veio a substituir o avô no governo do Mónaco, após a morte do pai e a abdicação de Charlotte em favor do filho, que à época tinha 25 anos. Mas, por não ter origem nobre, a história da princesa Charlotte é ocultada da maioria dos livros de história do Mónaco. E…- aqui o conde ficou subitamente em silêncio, agarrou os peitos com um esgar na cara e pareceu ter um ataque cardíaco, caindo desamparado para cima do obstetra. Dois empregados acorreram a ajudar, após alguns minutos, cambaleante retomou os sentidos, visivelmente atordoado e envergonhado:

-Desculpe, caro senhor, mes excuses, deve ser do calor….

-Quer que lhe tire a pressão? Se quiser eu…

-Não, não se preocupe. É do calor. Vou retirar-me, é melhor, o meu motorista virá buscar-me ao foyer do casino. Uma vez mais as minhas desculpas…

O aristocrata saiu, pelo seu pé, respirando fundo e um pouco combalido. Aguinaldo já tinha uma história para contar em Lisboa, conde e tudo, Mónaco agora para ele era tu cá tu lá. Terminado o vinho chamou o empregado e pediu a conta. Cento e oitenta euros. Enfim, não estava na Costa da Caparica, chegado a Lisboa as clientes pagariam em consultas.

-Muito bem! Aceita cartão Visa?

-Bien sur monsieur!- atalhou o empregado, impecável na farda negra e de máquina para aceitar o pagamento já na mão.

Aguinaldo puxou da carteira, mas aparentemente não estava no bolso de trás, onde a trazia, e estranhamente em mais lado nenhum. Buscou mais uma ou duas vezes e olhou para o chão à volta, preocupado.  De súbito, uma luz fez-se no seu espírito: o conde! Ao cair para cima de si tinha-a surripiado por certo, com mãos de veludo, nem conde deveria ser.

A essa hora, noutra esplanada de Monte Carlo, pejado de turistas para o casamento de Albert, um já etilizado australiano pagava um copo a um simpático arquiduque francês, herdeiro da Casa de Sabóia, que conhecera minutos antes no casino, fatalmente este desfaleceria sobre si algum tempo depois,  o calor mediterrânico da Côte d’Azur é mau para a tensão, sobretudo para quem tiver sangue azul.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:08

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