por F. Morais Gomes

06
Jul 11

“Sorria, você está na Bahia!”. O slogan era ajustado, depois de uma viagem de sete horas, Salvador aí estava, tombava uma tempestade tropical dos lados de Itapuã. Apesar de ir para férias na praia, Jorge Videira deteve-se uns dias na cidade, antes de se isolar em Porto Seguro no resort do Wanderley,  brasileiro e seu sócio no atelier de  arquitectura em Cascais.

A Salvador chegava com a ideia de baianas roliças fumando charutos e mães de santo exorcizando turistas em terreiros de candomblé. E o axé. Não ficou desiludido. Interrompendo o projecto de um colégio em Lisboa, aproveitou para merecidas férias, o português açucarado do Brasil e as inevitáveis caipirinhas intervalariam dias de stress, o projecto atrasava, o cliente de Lisboa não se decidia a adjudicar.

Logo na primeira noite, um taxista vendo que estava só levou-o a “cair no pedaço”, no Casquinha do Siri, o melhor bataclã da cidade, quatro mulheres para cada homem, dizia, a tempestade tropical que fazia danos nos morros da cidade não o demoveu, caindo nos braços de três Jandiras e duas Letícias. Premonitório, o slogan previra, “sorria, você está na Bahia”. Aquilo sim, eram férias, forró do bom, caipirinha barata, moqueca de camarão apaladada. O calor pegajoso e os batuques dos bares nas imediações do Pelourinho já no fim da noite  libertavam os poros, quase dia uma Jandira levou-o para o hotel, convenientemente aliviado de duzentos euros. Que interessava, só se vive uma vez, se Deus fez o mundo, o português fez a mulata, e era bem certo.

No  dia seguinte a Jandira que o levara ao hotel telefonou, pela tarde. Se estava tudo bem, se tinha saudades. Havia show  à noite no Solar do Unhão, oferecia-se para acompanhar, a melhor picanha da cidade, seguido de capoeira. Sozinho e solteiro, Jorge aceitou, ela apanhá-lo-ia perto do Elevador Lacerda, vinda no barco de Itaparica. Depois do jantar, iriam dançar noutro botequim na cidade. Caminhando pela rua, colorida e tórrida entre o frenesim dos “camelôs”, um batuque cadenciado e de toada indígena foi tomando conta dos ares, vindo de um terreiro de candomblé ali perto, explicava Jandira.

-Quer ir, Jorge? É legal, tem mãe de santo que tira o mau olhado, viu?

Jorge ficou interessado, afinal ir à Baía e não ir ao candomblé era como ir a Roma e não ver o Papa, o aproximar do batuque e a cadência dolente exerciam um efeito hipnótico e arrebatador, fazendo subir a adrenalina. Seu Orestes, velho carcomido e espécie de porteiro explicava o ritual:

-Aqui nossas mães ou pais de santo falam com os orixás criados por Olodun. É só escolher o orixá e mãe Jociara fala com ele pra’ocê, viu?

Umas miniaturas em pano e estopa, artesanato local, identificavam os orixás, sobretudo os mais populares:  Oxóssi, orixá da caça e da fartura, Xangô, orixá do fogo e trovão, protector da justiça, Obaluaiyê, orixá das doenças epidérmicas e pragas, orixá da curas, Iemanjá, orixá feminino dos mares e limpeza, mãe de muitos orixás ou  Yewá, orixá feminino do Rio Yewa, considerada a deusa da beleza, da adivinhação e da fertilidade. Orestes explicou:

-Na África, de onde nossos antepassados escravos vieram trazidos pelos portugueses, cada orixá estava ligado a uma cidade ou a uma nação inteira. Aqui se pratica o candomblé Ketu,  Iaôs entram em transe com um Orixá. A mãe de santo chama o orixá, e o batuque do tambor vai chamando, quando ela fica em transe, o orixá “incorporou “ nela, aí ela fala com ele e pergunta tudo o que você quer saber, viu moço?.

Jorge era incrédulo, mas decidiu-se a experimentar. Largados os reais, deixando Jandira com um chope, mãe Jociara, uma gorda e alva mãe de santo mandou-o deitar no terreiro, poeirento, os demais faziam um círculo em volta, o batuque em crescendo chamava pelos orixás. Jorge sorria, naqueles propósitos, sempre tiraria fotos para mostrar ao Wanderley.

Uma vez deitado, qual presa a mãe de santo começou a trautear um palavreado incompreensível, tambores iam cadenciando a chamada, aos poucos a velha parecia em transe, e com a mão ia percorrendo o corpo de Jorge, sobretudo a testa e o pescoço, como se por indicação oculta do orixá localizasse os pontos fracos a purificar, levou vinte minutos a "incorporação", a assistência parecia possessa, a cada minuto esperando um milagre e a chegada de novo orixá, consoante a escolha do cliente. Jorge, como qualquer bom turista, já comprara as fitas da Senhora do Bonfim, para usar até que rompessem e depois deitar na sétima oda do mar, esta experiência faltava ainda, até que valia os quarenta euros. No fim, mãe Jociara, transpirada e de olhar aliviado chegou junto dele, ufana e deu o trabalho como realizado:

-Moço, está livre agora. E olhe que deu trabalho, estava cheio de mau olhado, viu?

Jorge sorriu, com o calor tropical queria era algo fresco. Já se afastava a ir ter com Jandira, a velha chamou-o de volta e olhando-o com ar maternal deixou recomendações:

-Pegue esta semente. Esta é uma semente de pinhão, meta em sua carteira e nunca largue, enquanto tiver este amuleto sua sorte vai sempre sorrir e ninguém deitará mau olhado pra’ocê!.

Jorge guardou o pinhão na carteira e seguiu, as fotos de Jandira estavam boas, nessa noite depois do terreiro regressaram ao Casquinha do Siri e a mais uma noite de forró e desbunda. No dia seguinte, seguiria para Porto Seguro. Salvador não desapontara, multicultural, plena de misticismo e  boa gente, dolente e caipira, como um paulista no hotel classificara os baianos.  

Em Porto Seguro encontrou um grupo de Sintra e descontraído fez praia no Arraial da Ajuda, à noite o frenezim da Passarela do Álcool e nova Jandira em terras de Pedro Álvares Cabral garantiram mais dias (e noites) de relaxado prazer na chácara do Wanderley. Até uma família de caranguejos uma noite caminhara da praia direito à varanda do seu bungalow. Era o paraíso, o marisco ali até vinha pelo pé ter com os turistas, que mais poderia desejar.

Findas duas semanas de epidérmica luxúria voltou a Lisboa, saciado e de baterias carregadas. Dois dias depois seria a reunião com os clientes do projecto do colégio, Wanderley trabalhara durante as férias, estava um mimo, seria na Quinta da Marinha. Apesar do bom trabalho, os clientes roeram a corda, invocando a crise, e, como azar nunca vem só, nessa tarde teve um acidente de carro, um “toque” na recta do autódromo, culpa sua, distraído a pensar na Jandira e no calor do Brasil.

Ao chegar a polícia para a participação, sacada a carteira, faltavam trezentos euros, e, pior que tudo, o pinhão oferecido pela mãe de santo em Salvador havia desaparecido, caíra por certo, inadvertidamente. Apesar do trabalho de mãe Jociara,não seria ainda aquele orixá que lhe traria a sorte prometida.


publicado por Fernando Morais Gomes às 00:55

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