por F. Morais Gomes

07
Jul 11

 

"Escute - disse o director olhando-o com ar grave e apreensivo. - Esse país de que falo é um país na ponta da Europa sem tino nem gente com bom senso, todos se digladiam e, pior, já delapidaram os recursos. É pena, tem um sol e uma luz maravilhosos já lá passei férias uma vez, a melhor cozinha da Europa – Raymond McDaniel, CEO da Moody’s avivava o cachimbo, reapreciando o relatório que tinha na sua frente com a classificação de urgente, a manhã em Washington raiara tímida dos lados do Potomac, a emissão da Bloomberg não se calava com a história do corte do rating português.

-Qual é a urgência, sir?- sondava Michael Turner, regressara duma missão de monitorização na Grécia, nova tarefa lhe pedia já o chefe, sempre stressado.

-A questão é: um terço dos bancos espanhóis têm lá activos, a exposição ao risco é grande, o Steve disse-me que tudo podia acontecer, apesar do dinheiro recente e da mudança de governo. E depois os políticos lá não percebem nada de economia, o novo ministro fala tão baixo que nem os portugueses ouvem o que diz, see what i mean….

Michael sacou do portátil e fez um download dos relatórios de visitas anteriores, o budget do país era trash, qualquer vendedor de pizzas de Times Square faria um plano de negócios melhor. E depois, tudo com base em previsões e estimativas não suportadas, nos últimos dez anos nunca cumpriram nada do que diziam.

-“Aumento das exportações em 7%”….Estes tipos são uns cómicos. A vender para onde?- sorriu McDaniel, devorando um cheeseburger com cogumelos, o Tony , funcionário de ascendência açoreana ajudava a traduzir o documento em português - Mistura de Chicago boy e Keynes! O Paul Krugman bem lhes tem malhado no New York Times!- confidenciava com  Tony. No dia seguinte voltou a reunir com Turner:

-Li os documentos disponíveis, e creio bem que só uma severa cura de emagrecimento na Administração deles pode ajudar a reduzir o défice. Mas um stimulus plan é necessário, actuar sobre o emprego e dinamizar o investimento público. Reduzir taxas do imposto sobre as empresas e a despesa corrente- Turner ia debitando, a Grécia reagira de forma difusa, mas trabalhar com os gregos era complicado, trapaceiros, as estatísticas não eram fiáveis. Ah e teria de haver acordo consensualizado para um plano a 3 anos, recomendava a bold no memorando que agora entregava. McDaniel franzia o sobrolho:

-Isso é que é pior! Sabe como é, Michael, latinos, lá a política é feita na base do soundbite, é preciso muita pachorra. Temos de lhes dizer o que fazer deixando sempre a ideia que foram eles que decidiram sozinhos. Any way, eles é que sabem. Vai ser necessário um segundo bailout, como com os gregos…

O telefone interrompia a conversa, o governo em Lisboa barafustava e ameaçava não cumprir com as recomendações que  haviam formulado uma semana antes, depois dum meeting com o novo Treasure Secretary em Lisboa.

-Michael, estes tipos estão a deixar-me exasperados. E ainda por cima pensam que são smart guys. O défice real é 7,7%, diziam ser apenas 5,9% mas disfarçaram alguns itens. Como os gregos, estão a ver. É o que dá deixá-los entrar no clube sem terem condições.-Raymond aproveitava para dar umas tacadas de minigolfe na alcatifa do gabinete, era bom para o stress.

-Os alemães têm muita culpa nisso, criaram o euro mas esqueceram-se dos mecanismos de regulação. Foi até à primeira crise! - perorava Turner professoral, da  escola de Yale- e nós também não podemos falar muito….o  Madoff…

-Well, well, that’s diferent, we always knew….- McDaniel desvalorizava.

-Sabíamos?- Michael pasmava, mas melhor seria tornar ao dossiê Portugal. Raymond, sentando-se na secretária, de mangas arregaçadas, gizava um plano:

-Vai fazer-se o seguinte, já combinámos com o ministro alemão, o Schauble, ele chama os políticos de Lisboa a uma reunião, assinam um documento em como se vinculam a tudo o que propusermos, e nós respondemos dizendo que vamos respeitar a soberania deles, como sempre fazemos aliás, e, no Outono talvez subamos um nível, em sinal de boa vontade

-Of course…- sorria Turner, quatro anos na função já lhe dera traquejo destas coisas, na Irlanda até fora giro, comemoraram tudo com Guiness no Temple Bar, McDaniel continuou:

-Eles lá entretêm a opinião pública falando do interesse nacional, and stuff like that.Mas, first stage: despedir funcionários públicos, congelar os vencimentos e privatizar as empresas do governo enquanto estivermos neste nível, há aí uns fundos de pensões de Dallas que querem comprar, cheap. Depois segue a segunda tranche. Ah, é os nossos rapazes têm de acompanhar o plano com minúcia, Michael você vai para lá, olhe marque reuniões com um tal Catroga, é um velho bem disposto,é amigo do prime minister. Leve-o a jantar e vá-lhe dando instruções, como se fossem ideias dele. Com um bocado de sorte ele ainda lhe tira uma foto com o telemóvel, é um brincalhão!- o chairman sorria. Tocava o telefone entretanto:

-Sim?....Yes…Yes…Oh No!- Raymond franzia o sobrolho, o jantar com o George Soros teria de ser adiado, maldito lugar, caíam  ali todos os aflitos, se soubesse teria aceite a presidência da Wall Mart, bastante mais tranquila.

-Algo de grave, sir?-  Turner tentava perceber, algo grave se passava.

-A Espanha! O BBVA entrou em bankrupcy,por causa de exposição aos activos portugueses. Não tínhamos previsto!. Malditos europeus!

Posta a reunião regressaram agitados aos gabinetes, telemóvel sempre a tocar. Ameaçava chover em Washington e a rotineira adrenalina invadia os arejados mas frenéticos gabinetes da Moody’s Investors Service.

publicado por Fernando Morais Gomes às 10:52

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