por F. Morais Gomes

08
Jul 11

Depois de quatro horas de voo desde Hong Kong, o periclitante avião da Air India aterrava no Indira Gandhi International Airport, Bruno Gavião, veterinário em férias suplicava pelo ar condicionado do hotel. Depois da experiência civilizada e em grande do Aeroporto de Hong Kong, o moderno Kai Tak, numa ilha artificial construída perto de Chek Lap Kok, a aventura de pouco mais de quatro horas até Nova Deli mostrara-se decepcionante: sikhs maltrapilhos tirando os sapatos e dobrando as pernas sobre os assentos, o horroroso filme de Bollywood com cantores pimba piores que o Toy, caril de frango logo às seis da manhã, já era de mais. Para cúmulo, a casa de banho de bordo avariara atolada em trampa, nem meia hora havia passado desde que o avião descolara.

Depois das verdes selvas do Camboja e Vietname, a aridez castanha do Rajasthan a partir do avião foi-se desenhando lá em baixo, os casebres periclitantes e a ausência de estradas ou algo que se parecesse antevia uma realidade bem diversa da pujante China onde estivera três semanas, em progresso e modernizada. Tocado o solo, logo um bando de velhas com saris azuis e rosa se precipitou para a porta, Bruno, já veterano de aeroportos deixou-se estar, não tinha pressa, um guia da agência deveria esperá-lo com um carro para o acompanhar nos dias que ia estar na cidade.

Olhando pela janela o cenário era pior do que o esperado: para um país quase continente, o aeroporto da capital da Índia era à primeira impressão um barracão de madeira, lembrou-lhe a Rodoviária Nacional em Castro Verde, no tempo em que fazia visitas às suiniculturas do Alentejo. Nada de “mangas”, pista esburacada, os passageiros tinham de ir pelo seu pé para a zona da alfândega, o calor era forte e seco. Dentro do barraco, a que chamavam aeroporto, impotentes ventoinhas de plástico faziam  por atenuar o calor abrasador, ar condicionado era algo que ainda não chegara àquelas bandas. Dezenas de indianos de bigode e cabelo escuro oleoso deambulavam carregados de embrulhos enrolados em cordas, muitos com barrigas proeminentes, exterior sinal do excesso de tandoori e chamuças, Bruno começava a ficar com náuseas e só esperava que o hotel de cinco estrelas que escolhera fossem cinco estrelas mesmo e não cinco estrelas da Índia. Aquela viagem fora um fetiche romântico e exótico, só para as vacinas passara duas horas no Egas Moniz um mês antes.

Atarantado entre setas que tanto mandavam virar à esquerda como à direita, lá chegou à zona de recolha de bagagem, um indiano desdentado e de sorriso grotesco descarregava malas de vinte pessoas, quase todas trouxas de roupa e material informático adquirido em Hong Kong, pelo aspecto encomenda de alguém, pois o indiano não parecia distinguir um computador dum micro ondas. As suas duas malas levaram vinte minutos a aparecer, uma cinzenta grande, com a roupa, e outra azul onde trazia os souvenirs adquiridos na China: um conjunto de guerreiros terracota adquiridos em Xian, um dragão trabalhado em jade, miniaturas de pagodes e alguma roupa contrafeita adquirida em Xangai, boas imitações de uma mala Louis Vuitton e chás vários, para oferecer aos colegas da Zona Agrária. A mala azul ao passar na passadeira foi marcada com um giz branco por um polícia mal cheiroso, que marcava aleatoriamente algumas malas, aí de cinco em cinco, para controlo na zona da alfândega. Pegou nas duas malas e no passaporte e meteu-se na fila, era o único português, e europeu, segundo lhe pareceu.

Chegada a vez, mostrou o passaporte, o visto estava em dia, para 6 meses, já se preparava para seguir quando um polícia com bigode escuro e barba mal aparada o mandou abrir a mala azul. Lá seguiam os guerreiros terracota e o dragão de jade, alguma roupa da manhã que não lhe apetecera arrumar na mala grande e alguns livros. O polícia, com ar de Poirot asiático pegou num dos guerreiros, mirou-o cirurgicamente, e sondou Bruno, com voz grave, num inglês com sotaque arrastado:

-What’s this?- perguntou, com ar de quem detectara a jóia da coroa ou o ceptro do marajá de Jaipur. Bruno, descontraído mas saturado do calor e do cheiro a caril apressou-se a explicar, em inglês:

-Souvenirs. Venho da China, de férias, são coisas para os amigos, vou ficar uma semana. O trivial, sabe: Deli, Jaipur, Taj Mahal, o Triângulo Dourado….

O polícia colocou um ar grave e meneou a cabeça, estava só e o passageiro seguinte a mais de três metros:

-Hummm… não sei… não será roubado? É preciso licença para entrar com isto na Índia!- pareceu desencantar na altura, Bruno nunca tal escutara, eram meras estatuetas das que se vendiam às centenas nas feiras  de Xian e Beijing.

-Pode crer, são souvenirs. Onde está escrito que é proibido?

O polícia chegou-se a ele e baixando a voz abordou-o com voz complacente:

-Bom… digo-lhe o que vou fazer. Você dá-me 50 dólares, e eu, para provar a  minha boa vontade para com  o sahib, deixo-o ir. Se não…

Bruno pasmava. O próprio polícia “fazia-se” a uma propina. Olhou em volta, nenhum europeu, estava entre a espada e a parede. Tentou refilar, mas, acabado de chegar e sem conhecer as praxes locais, sacou de 50 dólares, enfiou-os no passaporte e entregou ao polícia, que, sorridente, discretamente surripiou a nota, meteu-a no bolso e carimbou o passaporte, não sem desejar um sonoro “welcome to India!” que Bruno, danado já não ouviu.

Era demais! Bem o haviam avisado, países do terceiro mundo, mas logo a polícia e ainda no aeroporto! Lá fora deveria estar um guia com um Tata para o levar ao Taj Palace, acelerou o passo, suando em bica a caminho da saída da área internacional. Poucos passos faltavam para transpor a porta, suja de dedadas e rangendo por falta de óleo, outro polícia, quase sósia do primeiro, chamou-o, pedindo os papéis e que abrisse a mala azul, a marca do giz ainda recente alertara para a mala, era supostamente suspeita, fosse lá porque razão fosse. Ruborescido, abriu e lá repetiu que não, não ia fazer negócio com as peças e que os malditos guerreiros eram para oferecer aos amigos, “souvenirs, bloody souvenirs, only, understand?”.

Com uma calma de jumento e enrolando o bigode, o polícia colocou um ar clemente e lá repetiu o “formulário” de boas vindas à Índia:

-Bom, digo-lhe o que vou fazer….- espumando, Bruno lá sacava de mais 50 dólares, logo correria para a porta antes que o dinheiro acabasse e outro zeloso funcionário lhe quisesse aliviar a carteira com mais um fraterno welcome.


publicado por Fernando Morais Gomes às 22:26

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