por F. Morais Gomes

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El-Rei D.João III passeava a cavalo nas escarpas da Roca, promontório do Inferno que sempre o atemorizara, os relâmpagos sobre o mar aconselhavam que recolhesse ao mosteiro da Penha Longa, onde se detinha com a rainha naquele Maio de 1539. Quisera o destino que dias antes morresse de bexigas o infante D.Filipe, seu herdeiro, e de Espanha o embaixador Francisco Lobo reportasse a morte em sofrimento de sua irmã, a imperatriz D.Isabel. Rei em luto permanente, era dado à solidão, e se bem que privilegiasse seus domínios de Tomar e Almeirim sempre que se recolhia no termo da Penha Longa percorria a cavalo a costa ventosa e atlântica, ultima fronteira do Reino em solo europeu. Pêro de Alcáçova Carneiro, seu conselheiro, que o acompanhava junto com Rodrigo de Castro, aconselhava o regresso, viria chuva e anoitecia.

D.João apeou-se e deixou que o vento lhe açoitasse a face e os cabelos, o desafio à zanga do Altíssimo despejando sua fúria sobre o mar era próprio do rei dos mortais. Místico, Pêro benzia-se e esconjurava as tempestades, temente a Deus, reconhecia o som familiar e perturbador da Roca  e lembrava o  segredo daquele local que seu pai lhe confessara ainda em tempos do defunto rei D.Manuel:

-É bom que nos vamos, Majestade, a borrasca está perto, manda o Senhor que observemos respeito a Seus sinais de desagrado! Destas costas devemos manter distância…

El-Rei nada disse, o seu espírito não estava para argumentos, assustado, o valido despejava medos e temores de outras tempestades:

-Há quase vinte anos, a cidade de Milão foi batida por  relâmpagos assim, de modo que todos pensaram ser esse o último de seus dias. Caindo um raio sobre uma torre da fortaleza onde se guardavam munições para a artilharia, foi de tal força a destruição que até alicerces foram arrancados, fazendo saltar pedras que logo despedaçaram pernas e braços. O estrago foi de tal ordem que de duzentos homens sobreviveram apenas doze, sendo horrível o espectáculo de pedras lançadas a mais de quinhentos pés, vinte bois não as teriam conseguido levantar. Devemos temer e recolhermo-nos em dias como este!

Carneiro exagerava, com pressa em partir, divertido com o temor do secretário o rei deteve-se um pouco  mais à chuva,lá em baixo numa nesga de areia peixes voadores saltitavam assustados. Carneiro cerrou o fácies, qual arauto do fim do mundo e continuou a arenga:

-Também no ducado de Brabante no sétimo de Agosto de 1527, um trovão abalou Malines de tal modo que a todos ocorreu ter a cidade sido engolida pelas entranhas da terra, deixando um insuportável cheiro a enxofre!

O monarca sossegou o atarantado fidalgo, mas este coloria de horror o desejo de escapulir para a Penha Longa, D.João achava que ele não lhe dizia o que o preocupava:

-Quando existia o templo de Hánon, na Líbia, e Satanás se fazia adorar na forma de um bode, este juntou ali uma infinidade de tesouros dos peregrinos. Ora quando o rei Cambises da Pérsia enviou o seu exército para pilhar o templo, o chifrudo encheu o céu de turbilhões, trovoadas e trovões matando cinquenta mil homens, sufocados e queimados. Há sempre que pôr a salvo quando ele ronda as escarpas da Roca, Majestade!

Rodrigo de Castro, até ali afastado junto ao cavalo, reforçou os temores de Pêro de Alcáçova Carneiro:

-Melhor seria que fossemos, sim. Não há muito, notícias de um clarão entrando na catedral de Siena quando o Santo Padre rezava missa, deixaram todos em pânico, fugindo da Santa Missa. A Deus o que é de Deus, Senhor!- rematava o fidalgo, benzendo-se.

D.João anuiu, e debaixo da tempestade retomaram a estrada da Penha Longa, o mar estava roxo e as ondas ameaçadoras. Já afastados uns minutos, lá em baixo, no mar revolto, entre peixes voadores com corpos de morcego, uma besta despertada do sono assomava à entrada da gruta, de cabeça com escamas achatada e asas descomunais. De poderes diabólicos, tinha como prodígio dominar os demais peixes e instruí-los no afundamento de navios que intrusos lhe invadissem os domínios. Poucos o haviam avistado, o poder do fel que expelia sobre incautos pescadores condenava-os à cegueira e infertilidade. Nem âncora, ou arma, corda ou máquina jamais pudera contra o monstro da Roca, senhor de naufrágios e dramas. Com apenas dois dedos e escamas cobrindo as pernas, ali tecia o destino dos mares, já Plínio descrevera ao tempo do imperador Tibério a existência na Ibéria daquele monstro, que em noites de tempestade fazia soar seu canto lancinante soprando uma branca e enorme concha e provocando catástrofes nos reinos da Cristandade.

D. João III e os validos chegavam entretanto à Penha Longa, encharcados e sob o eco de trovões lancinantes recolhiam-se ao mosteiro.

Senhor do Mar Oceano, das Índias e da Navegação, grande rei do Ocidente, nada podia porém contra o eterno e desafiador monstro marinho, implacável ocupante das grutas da Roca, Senhor das Tempestades e dos Mares Profundos.

publicado por Fernando Morais Gomes às 07:23

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