por F. Morais Gomes

14
Jul 11

Negócios de mármores levavam Baltasar Antunes naquele friorento 14 de Dezembro ao Porto, de Montelavar seguiria para o Rossio onde pela noite desse sábado apanharia o comboio, toda a noite em viagem, trinta e dois anos enxutos e a necessidade de não descurar os negócios herdados do pai metiam-no a caminho. Os clientes eram de Matosinhos, com um pouco de sorte almoçaria em Leça umas tripas no boteco do seu amigo Leónidas, anos antes companheiro no Exército.
Em Lisboa havia que esperar umas horas, uma ginginha no Rossio aqueceria os pés antes do embarque, previsto para as sete. Na bilheteira o funcionário, enervado, despachava os clientes, chegara uma reserva urgente de vinte lugares para o comboio da noite, o presidente da República, o major Sidónio Pais e comitiva viajariam nele.

Baltasar ficou desagradado, ir no mesmo comboio do presidente só atrasaria a viagem, além do mais não apreciava muito o actual. Sidónio Pais tomara o poder um ano antes, a 5 de Dezembro de 1917 e juntara em si os lugares de presidente da república e do Ministério, como dizia o Dr. Rabaça, lá em Montelavar, o homem governava em ditadura, proibira jornais, chegara da Alemanha onde fora embaixador cheio de ideias esquisitas.

Despachada a bagagem ficou a deambular no exterior da estação, a vista sobre o castelo de S.Jorge em fim de tarde era sublime. A um canto, um grupo de três cochichava, não pareciam passageiros, pois não traziam bagagem, um deles tinha um bigode extravagante e boina negra. De resto, um grupo de professores de Famalicão, que viera a um Congresso Católico, camponeses com cestas retornando às aldeias, a primeira classe estava já reservada para a comitiva presidencial. Um dos que cochichavam aproximou-se de Baltasar, pedindo lume para um cigarro, este acendeu-o, o estranho, em silêncio, retirou-se e voltou para junto dos outros, eram cinco e meia, o comboio sairia às sete.

Pelas seis começou a chegar a comitiva de Sidónio, vinda de Belém: adidos militares, oficiais com dragonas, alguns cavalheiros de ar sisudo, adiantados, detinham-se despachando a bagagem que carruagens a cavalo traziam para embarcar, iria a conversações com a Junta Militar do Norte. Baltasar comeu num café do Rossio, regressado à estação um cavalheiro de meia idade meteu conversa com ele, segundo apurou seria seu companheiro de carruagem:

-Este Sidónio tem feito um bom trabalho, sim senhor. Olhe, na zona de Alcântara, onde moro, não há pobre nenhum a que uma malga de carne  não falte. Ele com o Afonso Costa é que não quer nada, mas o povo está farto do “Mata-Frades”…- interrompendo, o estranho, que apurou chamar-se Baldaia , instou Baltasar- o amigo não é republicano fanático, creio?

Baltasar acalmou-o:

-Não, não, nem ligo a política, mas olhe, acho que ele tem-se aproximado muito à Igreja. E nem se pronunciou sobre aqueles eventos na Cova da Iria o ano passado. Se fosse o Afonso Costa, já estavam todos no desterro! Se conseguiu tirar o país da Grande Guerra já fez muito!.

Passados uns minutos uma algazarra soou do lado dos Restauradores, o jovem e carismático presidente chegava em carro aberto e uma multidão espontânea dava vivas ao Pai dos Pobres, a que ele respondia acenando, brioso na sua farda militar. Sidónio gostava das multidões e do povo, por ocasião da epidemia de tifo desdobrara-se em visitas a hospícios. O ambiente político, porém, era pesado: a derrota do Corpo Expedicionário em La Lys, em 1915, onde morreram ínumeros oficiais e milhares de praças, o perigo do retomo à monarquia, a revolta republicana mal sucedida de 13 de Outubro em Coimbra e Évora, a União Operária Nacional que gritava nas ruas contra Sidónio, faziam adivinhar que algo inesperado podia acontecer, o Dr. Rabaça num jantar lá em Montelavar já o antevira, com o seu cachimbo sempre acesso.

A Guerra acabara entretanto, com a assinatura do armistício em 11 de Novembro, mas Sidónio fora a uma cerimónia na semana anterior de condecoração dos sobreviventes do "Augusto Castilho" e aí se abafara um atentado contra si, como de costume, as facas andavam desembainhadas, eram dias tortuosos os de Lisboa nesses dias, nada como o sossego de Sintra e os bailes da Sociedade em Montelavar.

Baltasar a um canto viu chegar o magro e aquilíneo presidente, passando por si e Baldaia cumprimentou-os com um aceno e uma espécie de continência, consigo seguia um grupo de pessoas, bem como um filho e o irmão. Uma banda da Guarda Nacional
Republicana chegada minutos antes, tocou o hino nacional, solene e garbosa. Sidónio vaidoso e bem disposto comentou com o seu chefe da casa civil o contentamento pelas manifestações de simpatia, Reinaldo Ferreira, o conhecido repórter X que seguia a seu lado, tomava apontamentos. Um guarda entretanto mandava os passageiros ainda na gare tomarem lugar, mal o Chefe de Estado entrasse, arrancariam de imediato.

Entravam Baltasar e Baldaia na sua carruagem quando um eco de tiros soou na estação, alguns pombos até ali aninhados nas traves esvoaçaram agitados. Num relance pela janela, uma multidão rodeava o presidente que jazia numa poça de sangue, fora alvejado, bem como outros acompanhantes. Saindo a correr a ver o sucedido, foi barrado por um agente da guarda, ao longe, correndo, vislumbrou nitidamente o vulto que lhe pedira lume uma hora antes, corria na direcção do Rossio.

Jacente e esvaído em sangue, Sidónio Pais murmurou umas palavras que Baltasar ainda captou: "Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria...". Perdeu os sentidos, e no meio de confusão foi conduzido ao hospital de S. José. Mais três corpos jaziam na estação do Rossio. Retirado o agonizante presidente, o chefe da estação correu a cancelar o comboio para o Porto, a confusão no local era total. Já tarde, Baltasar não podia voltar a Montelavar, alojou-se num hotel do Rossio.

No dia seguinte, a morte do presidente era profusamente relatada pela imprensa, dois dos atiradores haviam perdido a vida também, o homicida era um tal José Júlio da Costa, que havia sido preso e estava detido na escola de Guerra, pela foto, o homem que lhe pedira lume na véspera. Pelo sim pelo não, decidiu cancelar a viagem e voltar para casa. De novo na estação do Rossio, mais calma, um mendigo pedia uma esmola. Lembrando a sopa do Sidónio, Baltasar deu dois tostões, decididamente andar de comboio estava a ser um verdadeiro transtorno por esses dias.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 20:56

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