por F. Morais Gomes

17
Jul 11

O velho almirante ficou pálido e algo transtornado. Confirmavam-se os piores rumores: o avião pilotado por Sacadura Cabral despenhara-se. O Fokker 4146 de Amesterdão para Lisboa, um dos cinco adquiridos por subscrição pública e que seriam utilizados no projecto da viagem à Índia, caíra no mar do Norte, o corpo desaparecera nas águas revoltas e gélidas.

Gago Coutinho ficou em silêncio, o amigo vivera a vida em desafio, um dia poderia acontecer. Sacadura fora um dos primeiros instrutores da Escola Militar de Aviação, director dos serviços de Aeronáutica Naval, comandante de esquadrilha na Base Naval de Lisboa. Lembrava bem o dia em que se haviam conhecido, em África, e como ele se entusiasmara pelo seu sextante de bolha artificial. Juntos inventaram um corretor de rumos. para compensar o desvio causado pelo vento, era um espírito inovador. Em Moçambique Sacadura fora um dos oficiais escolhidos para fazer a carta hidrográfica do rio Espírito Santo e de trechos dos rios Tembe, Umbeluzi e Matola, em 1906 trabalhara como topógrafo na rectificação da fronteira entre o Transvaal e Lourenço Marques, em concorrência com os agrimensores ingleses. Foi nesse ano que se conheceram e assim continuaram até 1910, em missões geodésicas e geográficas. Já bons amigos, haviam participado na missão do Barotze, a fim de se delimitarem as fronteiras leste de Angola, trabalho árduo, feito ao longo de mais de 800 quilómetros de savana e floresta onde quase nunca os portugueses se aventuraram. Separaram-se depois: Sacadura foi para França e deu entrada na Escola Militar de Chartre, em Janeiro de 1916 fez o seu primeiro voo como piloto e em Março as provas de brevet com aprovação. Ainda em França seguiu para a Escola de Aviação Marítima de Saint-Raphael, onde se especializou em hidroaviões e esteve na Escola de Buc, pilotando aviões Blériot e Caudron G.3.

Voltaram a encontrar-se em 1921, quando com Ortins de Bettencourt realizaram a viagem Lisboa-Madeira, para experiência dos métodos e instrumentos por si criados para navegação aérea. Tendo obtido os melhores resultados, esse aparelho foi apresentado ao Congresso Internacional de Navegação Aérea, em Paris, em Novembro de 1921, onde teve boa aceitação e a memória descritiva do "Corrector" foi aceite e publicada nos Anais do Clube Militar Naval.

A tarde caía. Amigos do almirante na leitaria da R. Morais Soares, onde recebeu a notícia de chofre, consolavam-no em silêncio e respeito, morrera um herói nacional, um descobridor do século XX rasgando os ares e sobrevoando mares alterosos antes também por portugueses palmilhados, gaivotas livres e desafiadoras dos ares e dos ventos, desfraldando a bandeira das quinas sob aquele Atlântico português.

Fora Sacadura quem tivera a ideia, atravessar o oceano. Como nascera radiosa a manhã de 30 de Março de 1922, apenas dois anos antes, quais crianças subindo ao "Lusitânia" em Belém. A primeira escala foi nas Canárias, de onde partiram para São Vicente, em Cabo Verde e daí para os Penedos de São Pedro, com problemas de combustível. Ao amarar, uma vaga arrancou um flutuador do "Lusitânia", o que provocou o afundamento do avião, foram recolhidos pelo navio "República". O "Lusitânia" acabara de realizar uma etapa de mais de onze horas sobre o oceano, sem navios de apoio, mantendo uma rota matematicamente rigorosa. Apesar da contrariedade, provava-se a precisão do sextante modificado. A viagem estava a meio e já se fazia História. O governo enviou um Fairey 16, cujo motor veio a avariar entre os Penedos de São Paulo e Fernando de Noronha. Foi pedido um novo Fairey, que foi enviado no "Carvalho Araújo". Três dias depois partiram para o troço final, chegando à baía de Guanabara e terminando a viagem no Rio de Janeiro a 17 de Junho, depois várias escalas. Haviam sido apenas sessenta e duas horas de voo, mas quase setenta e nove dias de viagem, com as paragens e as trocas de avião. Os dois, o mar, as noites estreladas, o ruído dos motores, o falar português à partida e também triunfante à chegada.

Sacadura era osso duro de roer. Teimoso, fumador inveterado, nunca esquecera os meses passados em África, onde a amizade se sedimentara. Gago Coutinho recordava com emoção redobrada os trabalhos de astronomia nas noites enluaradas de África, e os negros pequenitos que vendo-os e aos seus estranhos aparelhos comentavam, ingénuos, que os brancos nunca se perdiam, à noite perguntavam a Deus onde estavam. Meses a fio perguntavam sim, e Deus respondia, era um amigo velhote lá dos céus que por vezes visitavam numa barulhenta caranguejola voadora, assustando os flamingos e as aves dolentemente migrando para Sul.

Aclamados como heróis em todas as cidades brasileiras, haviam concluído com êxito não apenas a primeira travessia do Atlântico Sul, mas pela primeira vez na História da Aviação, tinha-se viajado sobre o Oceano Atlântico apenas com o auxílio de navegação astronómica. Dois maluquinhos e uma barcaça voadora.

Em Lisboa, o nevoeiro estava cerrado, premonitório, de luto por Sacadura, como o país, consternado. Como nesse cruel mar do Norte, no nevoeiro de onde sairia um dia o rei D. Sebastião, desaparecera Sacadura Cabral, o herói da Madeira e do Brasil, frágil e impotente no imenso mar, nada mais senão destroços da aeronave, ruínas impessoais duma vida plena de vida, da coragem que uns chamaram loucura, da tenacidade que descrentes chamaram teimosia, do perfeccionismo que invejosos chamaram doença. Depois de Luís de Noronha, que se despenhara com o seu Voisin no Tejo, e  Óscar Monteiro Torres, abatido por um Fokker alemão em Soissons durante a Guerra, era a terceira grande vítima da nossa aviação militar.

Gago Coutinho, o velho lobo-do-mar, enfiou o gorro de lã e seguiu solitário Almirante Reis abaixo. Olhou para o céu de Lisboa, cinzento e ameaçador, e quase distinguiu sorridente atrás das nuvens o rosto másculo e o bigode inconfundível do companheiro com quem patrulhara as estrelas fumando o inseparável cigarro. Não se perderia, como nos tempos dos sertões de África, Deus à noite lhe haveria de dizer onde estava.


publicado por Fernando Morais Gomes às 11:51

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