por F. Morais Gomes

18
Jul 11

Os frascos lá estavam, vazios, aos pés da cama do quarto do Hotel de Nice em Montmartre, o suicida, morto, olhava os frascos, olhos vidrados, uma calma exterior que o vulcão interior nunca alcançara. José Araújo acompanhara o último dia, em Lisboa o amigo Pessoa receberia a última carta, para ele já póstuma. No hotel, enquanto gendarmes e o médico confirmavam o óbito, recolhia alguns papéis, um lençol branco da medicina legal cobria o corpo inerte do jovem amigo de vinte cinco anos.

Morte anunciada, pensou Araújo, nunca a imagem de Tomás Cabreira Júnior pondo termo à vida na escada do liceu Camões, sete anos antes se  desvanecera a Mário. Saudoso Tomás, com ele escrevera “Amizade” peça de teatro a duas mãos, na flor da idade sumiam os dois agora, mortos de mão morta e não de morte morrida.

Mário nessa última noite estivera sempre em silêncio, escrevendo, frenético, despedindo-se de si, lembrando rostos, sobretudo os que lhe fugiram na estrada da vida. A mãe, que lhe partiu aos dois anos, o pai ausente em África, financiador do “Orpheu” e no fim sem dinheiro para o terceiro número, o Santa-Rita Pintor, agora em Lisboa, encharcado em aguardente, Helena, a rameira francesa que o amara a troco de cobiçados francos. Só José ficara, testemunha obrigatória do rito da despedida, e a estricnina libertadora, milagrosa e lenta dentro daqueles cinco frascos.

Paris. Primeiro o deslumbramento, depois do desagrado com Coimbra, o Café de la Paix e Baudelaire, as garçonettes, a Sorbonne, os devaneios em Pigalle, um tal Pablo Picasso pintando de tronco nu numa varanda do Boulevard des Capucines. E depois a rotina, a usura da novidade, solitário pelas ruas esperando a mesada que o pai Carlos Augusto a custo mandava de África. Ainda voltara a Portugal, dois anos antes, com o Pessoa e um castiço, o Almada Negreiros, lançara o Orpheu, Lisboa era pequena e serôdia, saíram apenas dois números, à conta do Carlos Augusto. E Paris de novo, as cartas para Pessoa, dois irremediáveis perdidos à distancia confessando a perdição, cruzados em seus labirintos. Poeta do impossível, incapaz de amar ou ser amado, exercitando poética masturbação e escrita-flagelo, em busca da impossível salvação.

José Araújo contemplara-o ainda vivo, sentado ao fundo da cama, descamisado, o éter num psyché de madeira, apenas a ele, único confidente em Paris, confessara cansaço. Cansaço por abraçar e não ser amado, cansaço por ver um arco-íris ao fim dos olhos e apenas chuva ao aproximar, cansaço por Não Ser, pilar duma ponte de tédio vinte cinco anos entediado. Morreria cedo, dizia, a tempo de não ter biografia. Nos últimos tempos, secretamente escrevera a Pessoa para Lisboa, o corpo mortificava-se pela alma, Pessoa nada ripostava, alma gémea só podia partilhar um sentimento igual, e no entanto não podia escrevê-lo, ateando impulsos suicidários no amigo. Não serviria de nada, o plano estava gizado. Órfão de amor, pária de si mesmo, só poderia escrever as linhas finais dum livro ainda no segundo capítulo.

Encerrado o quarto pela polícia francesa e removido o cadáver, José Araújo voltou a Lisboa. No Martinho, uma semana mais tarde, encontrou-se com Pessoa. Acabrunhado, tomava um café e uma “Águia Real”, a poção que o mantinha vivo para os heterónimos sem nome arrastando-se pela cidade, cambaleantes como ele. Araújo levou-lhe uns textos, inéditos, Mário deixara ordens de só a ele entregar, confidente e siamês. Sem ler, guardou-os no bolso do sobretudo, e incompreensível, como se falasse sozinho ripostou-lhe:

-Quem di diligunt adulescens moritur!. Ante o silêncio expectante de Araújo, traduziu: “Morre jovem o que os Deuses amam. Plauto.!

Turbilhão emocional, morrendo para finalmente viver, Mário de Sá Carneiro, decadentista redentor, futurista negando-se um futuro, esvaíra-se em frascos de estricnina, narcisista demais para só morrer quando quisesse, niilista de emoções, tristes e logo trágicas. Escrevera pouco, e a cada livro, acrescentara páginas decisivas ao diário da sua morte. Pessoa sentia-o, mas nada dizia, exilado em Lisboa, feiticeiro do Caos.

Era Junho de 1916. Noite cerrada, no esconso da sua casa no Largo de S.Carlos, leu as cartas de Mário, e logo buscou uns papéis na secretária de madeira. Entre as cautelas da casa de penhores e uma carta astrológica, encontrou o poema-testamento que Mário lhe enviara tempos antes:

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Abúlico, emborcou um absinto de um trago e apagou a luz. A de Mário acendera-se.


publicado por Fernando Morais Gomes às 18:25

Esta história fez-me recordar o que publiquei aqui: http://arrumario.blogspot.com/2009/11/mario-sa-carneiro-por-mario-cesariny.html
Eu adoro este poema, e particularmente a forma como é dito por Mário Cesariny neste video.
Abraço.
Zé Maria a 18 de Julho de 2011 às 21:46

Boa noite, caro Zé Maria. Não conhecia o vídeo do Cesariny, mas o poema é intemporal. Sá Carneiro como Antero, Camilo, António Nobre, Cesário Verde, devem muito do relevo que posteriormente lhes foi dado pelo "prenúncio de tragédia anunciada" que de certa forma a sua vida empresta como cenário das suas obras. Afinal, poeta que é poeta, não morre na cama. Só o Eugénio de Andrade, que quis ser enterrado de pijama. Um abraço para as ilhas encantadas.

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