por F. Morais Gomes

19
Jul 11

As notícias sobre as reservas de ouro ultimamente reaparecidas nos jornais recordavam a Ulisses Caldeira histórias que seu avô Geraldo lhe contara, do período da guerra. Guarda-fiscal em Elvas durante os anos quarenta, muitas vezes ali vira chegarem camiões vindos da Europa beligerante, a proibição de circulação em território luso de veículos estrangeiros obrigava a um transbordo no Caia. Aí conhecera em Agosto de 1943 Auguste Jacquet, um suíço que regularmente fazia a Península Ibérica, conduzindo camiões com carregamentos para o Governo português. Elementos da PIDE, a polícia política, aguardavam religiosamente a mercadoria a cada dois meses, Auguste dirigia-se geralmente ao tenente Lobato, e entregava-lhe umas guias, das quais a Guarda Fiscal era afastada, de soslaio invariavelmente nelas vira aposta a palavra Campfranc.

Certa vez, Auguste chegou um dia antes do previsto, o veículo de contacto da PIDE vindo de Lisboa estava atrasado. Geraldo, com algum tempo mais a sós com o suíço, tentou sondar o conteúdo do camião, que nunca inspeccionara, Auguste, lacónico, pouco adiantava, mas metia militares e alemães. Numa saída do camionista à casa de banho, espreitou o conteúdo, eram caixas de madeira com expressões em francês, umas dez, quase enchendo o camião.

Terminada a guerra, não mais as estranhas entregas se voltaram a realizar, e Geraldo esqueceu o camião de Auguste, até que um dia, dois anos depois, o reviu, agora ao serviço duma empresa de transportes francesa, Geraldo era já sargento, um sorriso de familiaridade acompanhou o reencontro dos dois, ia o Outono de 1947. Auguste vivia em Marselha, a empresa para que trabalhara antes fechara, os donos, alemães,  haviam fugido depois da libertação da França. Ocasião aproveitada para satisfazer curiosidades antigas, nunca o estranho carregamento de Auguste, recebido com sigilo por agentes da polícia internacional lhe fora desvendado. O suíço, mais solto, convidou Geraldo para almoçar, depois duma soneca, e dispôs-se a falar:

-Os carregamentos que você nunca viu, eram geralmente remessas de ouro, em lingotes, enviadas a partir de contas alemãs no Banque National de Suisse, para pagamento de fornecimentos portugueses ao Reich: volfrâmio, conservas, têxteis, muito ouro trouxe para o seu país em quatro anos. Só que, vou-lhe contar um segredo, entre as remessas oficiais, havia coisas menos claras, está a ver….

-Não, não estou. Coisas menos claras? E a PIDE colaborava? Como pode ser isso?- Geraldo bem sabia que ali havia marosca.

Auguste decidiu-se a abrir o jogo, a guerra terminara, já não era nada com ele:

-Muitas das vezes que saí de Berna com o carregamento, recebi instruções sigilosas para fazer a rota  via Biarritz. Aí deveria fazer um reforço de carga, antes do posto fronteiriço de Campfranc. Aliás, não era só eu, outros colegas meus o faziam também, com destino a Fuentes de Oñoro e Valencia de Alcântara, outros ficavam em Espanha…

-Mas o que iam carregar aí de especial? Armamento?

-Não…- Auguste fazia suspense….-Ao principio também eu desconhecia, mas depois descobri. Ouro! Lingotes de ouro! Só que este não era para pagamentos a bancos, era uma carga especial…

-Como assim?

-Mon ami, durante dois anos, a par de pagamentos internacionais da Alemanha ao vosso governo, via Suíça, aqui entraram para cima de 80 toneladas de ouro clandestino! A Alemanha controlou a Alfandega internacional de Canfranc durante a Guerra Mundial com um grupo de oficiais da SS e um membros da Gestapo, viviam no hotel da estação e numa cidade próxima, no lado francês. A Espanha não estava em guerra, mas Franco queria retribuir a ajuda que Hitler lhe dera na Guerra Civil, o que se traduziu em facilidades na circulação em toda a Península de ouro de várias proveniências...

Geraldo ouvia, mas que tinha isso a ver com o nosso país, a resposta veio célere:

-Portugal também esteve envolvido, e para cá vieram 74 toneladas de ouro,prata, armas relógios, etc, mas atenção: riquezas que altas patentes alemãs haviam confiscado a judeus em campos de detenção no Leste, e com que pensavam garantir o seu futuro depois da guerra.Os nazis permaneciam do lado da França ocupada,em Canfranc, aguardando os envios, viviam na estação, até realizavam lá concertos de piano para ocupar o tempo, estavam ali só para fazer o “despacho” para meter o ouro e outras coisas saqueadas aos judeus  a salvo. Até dentes de ouro, e relógios...Depois, não sei o que sucedeu, mas no fim da guerra muitos deles fugiram para a Argentina e Brasil. Quanto ao ouro… alguém está hoje a fazer uma vida regalada com ele, por certo. É assim a guerra, meu amigo, o azar de uns é a sorte de outros!

Geraldo nada disse, a sua posição de guarda-fiscal impedia-o por precaução de criticar a colaboração da temida PIDE em manobras no mínimo irregulares. Despediu-se de Auguste e voltou para o seu posto. Seria a última vez que se veriam, meses mais tarde aposentou-se da vida de estrada e foi viver  de vez para Saint Moritz.

Nessa mesma noite, em Elvas, onde morava há já sete anos, Geraldo, depois do serviço, após o jantar foi até uns galinheiros que tinha recuperado num terreno para os lado da Achada, já fora da vila, ali entreteria os seus dias com umas batatas e uns pintos quando a reforma da Guarda chegasse. Munido de um candeeiro a petróleo entrou no galinheiro, as poedeiras agitadas saltaram fora, dois ovos para uma açorda, brancos, estavam já a jeito. Atrás dum tijolo, e enterrado num buraco, um saco de sarapilheira guardava aquilo com que num futuro compraria muitos ovos, se preciso fosse: um lingote em ouro, amarelo e reluzente. Tanta viagem do Auguste havia-lhe aguçado a curiosidade, num dia em que o apanhara desatento, boquiaberto descobrira o conteúdo dos misteriosos camiões. E ladrão que rouba a ladrão….

Os anos passaram, já com mais de setenta, Ulisses, o neto de Geraldo, ouvia agora de novo falar do ouro que  Salazar deixara, para precaver o futuro dos portugueses. Sorriu, ouvindo a SIC Notícias, não fora só Salazar quem fora previdente. E nem de propósito, estava na altura de visitar as propriedades herdadas do avô em Elvas, a ver se continuava a haver ovos  no galinheiro…

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:52

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