por F. Morais Gomes

20
Jul 11

Sangue. Vísceras. Justiça. Sim, foi justiça o que aqui aconteceu, estou puro agora, eliminado o pecado e Satã que neles morava. Eles não entendem, nunca o entenderam,  fui eu a a mão de Deus nessa noite libertadora, muitos restam ainda, reféns de fraca carne e luxúria acesa.

Libertaram-me ontem. Catorze anos. Serial killer, perigoso, psicopata, chamam-me os jornais. Idiotas. Libertador, braço avançado da virtude, isso sim, o sangue dos impuros foi justamente lavado nas ondas do mar”.

Escrevinhando um diário, Vítor Jorge voltava ao local do crime, no dia imediato ao da sua libertação de Coimbra. Apanhara 20 anos, mas saía ao fim de 14. Nunca tivera uma precária, os juízes receavam.

Tudo ficara claro para si naquela noite de 1 de Março. O sinal fora dado, sentia-o. Seria nessa noite, depois da festa, uma orgia em grupo soltando as carnes e chamando o sexo faria dele o justiceiro de Sodoma. Álcool, lascívia, fornicação, essa noite o Osso da Baleia seria altar de limpeza, ofereceria não um, mas vários cordeiros em sacrifício, cinco, todos. Como o infernizavam, os risos soltos pela bebida em excesso e o fútil desejo de prazer na penumbra das dunas. Ébrios, nem saberiam porque que morriam. Antes assim.

O diário, cúmplice, soubera das intenções antecipadamente, após o aperitivo, a verdadeira ceia: a mulher e a filha, pecadoras, todas, como Eva, expulsas do paraíso, indignas de viver, servas do chifrudo inebriadas por sexo, vaginas sequiosas sob a lua cheia de Março.

Leonor, a amante, fizera anos, convidara dois casais amigos, a cena compunha-se: beberam, conversaram, por volta da meia-noite, a praia, corpos nus no Osso da Baleia. No areal, um amigo de Leonor terá desafiado, uma bacante sessão de sexo ao luar. Vítor Jorge aproveitou a euforia, chegado o momento, da Citröen branca sacou caçadeira e faca. E a sua festa, orgia de cérebro capturado começou, a amante primeiro, os quatro amigos depois, qual despojos de talho os corpos despedaçados, esquartejados, dupla morte para que dúvidas não restassem. Areia avermelhada de sangue pintalgava o mar azul de morte, o Anjo do Mal soltava a foice enlouquecido.

Dois corpos logo levados na maré, os demais jazentes, não houvera tempo para reagir.

Seguindo o sórdido guião por tecido, Vítor virou então a fúria para a própria família. Invasor na própria casa, acordou a mulher e pediu-lhe que o acompanhasse, tinha atropelado uma pessoa, precisava de ajuda. Carminda de nada suspeitou. Num pinhal perto, cravou-lhe a faca nas costas, cinco vezes. Sem tempo a perder, voltou a casa, o mesmo à filha mais velha, sangue do seu sangue. Exausto, regressou uma vez mais e trouxe a mais nova. Sandra suspeitou e fugiu por entre os pinheiros, aí Vítor hesitou. Sete. Sete vidas. Queria mais ainda. Muitas mais. Ardia em febre. Corujas assustadas sobrevoavam o pinhal, era noite de Walpurgis nas matas da Marinha Grande.

Depois dos sobressaltos, a paz. Era uma estranha paz o que sentia quatro dias depois, quando a polícia o apanhou. Nada interessava mais, fizera justiça, a dele, indecifrável e divina, também ele Deus, dando e tirando vidas. No tribunal dos homens pediu que o prendessem, poderia repetir. Consternado, o juiz deu-o como saudável, vinte anos, rezou o acórdão.

Saía agora, ao fim de catorze apenas, sete vidas, dois anos por cada uma, avara sorte, a de vítima na Marinha Grande. Os jornais calaram, Vítor saíra do mundo, o sofrimento fechara-se atrás das portadas de famílias atónitas. O chifrudo existia e morara entre eles, palmilhando os pinhais e a praia, exangue, possesso. Saía. Era feriado cá fora, 5 de Outubro, o milénio mudara entretanto, Sandra, a filha que escapara esperava-o, silenciosa, assim ficaram durante uma hora, de Coimbra até Pombal. Para que vida voltava, morto que os vivos não esperavam já e que a morte poupara para vivendo devagar morrer?

Voltava agora ao local, sozinho. Volta-se sempre. Ao longe, um cão corria levando um cepo na boca. Deserta, a praia ainda cheirava a morte, era a perturbante praia de Vítor Jorge. Após uns minutos, partiu sem olhar para trás. Envelhecera, ali ficara também, ainda que viva, a sua vida, no dia em que também ele morrera. Havia que partir. França, um recomeço. Tempo de sofrer agora, em remorso, para os que não lhe perdoavam estar vivo, alma penada fosse até ao fim dos seus dias.

Treze anos passaram, vinte e sete já desde aquela sangrenta noite. Em Nice, vida reencarnada, “petit portugais” sem passado, talvez um dia destes desça à praia,  se divirta noutra festa, nova orgia, numa lua cheia de Março,  talvez. A Terra, por purificar, ainda clama por Vítor Jorge.

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 14:47

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