por F. Morais Gomes

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Jul 11

Manuel Martins, irmão da Misericórdia de Évora aparecia sem designação de ofício no livro das eleições dos irmãos, André Escária, mesário antigo, afirmava que sendo boa alma padecia de cabeça fraca, muitas vezes o haviam visto dos lados das Portas de Avis falando aos pombos e agoirando calamidades para a cidade. Mas bom coração,  acólito em S. Francisco, trabalhara na construção da Capela dos Ossos.

Nesse mês de Agosto, estafetas de Lisboa informavam André de Morais Sarmento, corregedor da cidade, da decisão do governo de El-Rei Filipe III de elevar o imposto real de água, bem como o valor das sisas. O tesouro régio carecia de 500 000 cruzados, visando minimizar as dificuldades agravadas pela quebra de remessas das Índias Ocidentais, em todas as cidades do reino se deveriam acatar os aumentos, o selo da vice-rainha não deixava margem a hesitações.

-É uma usura! Tivesse o reino um rei  português e tais desaforos se não verificariam!- vociferava o procurador da cidade, informado das medidas pelo corregedor. Espanha mais não faz que alijar a canga sobre os povos!

-Há que tomar posição, isto é um desaforo!- concordava o escrivão, Aires de Gusmão- imitar o que aconteceu há poucos anos, na cidade do Porto, com o imposto do linho fiado! –a lembrança do gorado motim das maçarocas em 1628 animava os espíritos, ia para 57 anos que os Filipes governavam Portugal,desejado,nunca D.Sebastião regressara, apesar dos oragos. Um corpo, supostamente seu, havia sido sepultado nos Jerónimos mas o povo não se deixara convencer, não podia ser ele.

-Creio bem que o povo receba com desagrado estes aumentos, senhor corregedor!- vociferava Armando da Nóbrega, o procurador.

Efectivamente, afixados os editais, grandes clamores se ouviram na Praça do Giraldo e no Rossio de São Brás, na missa da Sé, aludindo ao assunto em favor do governo, o arcebispo irritara o povo, vários fiéis abandonaram o ofício, indignados com a posição do prelado. Armando da Nóbrega e Aires de Gusmão convocaram comerciantes e representantes do povo para uma reunião na casa de Armando, havia que tomar medidas. Entretido com os seus pombos no Rossio, Manuel Martins, alheio, não se pronunciava, asceta, desinteressado de bens terrenos, apenas o silêncio eremita lhe importava, mendicante e boa alma. Para a cidade, era o Manuelinho, a quem ninguém negava uma sede, se bem que não raras vezes falasse por enigmas, a que só os antigos davam alguma importância, descortinando alusões proféticas.

Decorrente das reuniões, decidiu-se por aclamação não pagar os novos impostos, e fazer mesmo patrulhas, evitando que oficiais régios o fizessem. O corregedor, coarctado, não se pronunciava, em minoria, Armando e Aires encabeçavam a insurreição. Livros de assentos das contribuições reais foram queimados e acometidas algumas casas dentro da cidade. Isolados, e sem reforços militares, os adeptos de Castela, entre eles muitos portugueses passados para o partido castelhano, mal se dispuseram a enfrentar a multidão enfurecida, Évora, briosa, erguia-se por Portugal. Da casa de Armando da Nóbrega, durante duas semanas, pela noite saíram proclamações ao povo,  afixadas nas ruas, para salvaguardar as identidades, eram insolitamente assinadas por um tal Manuelinho. Notícias rapidamente espalhadas traziam a nova de se espalhar a revolta a Sousel, Ourique, Vila Viçosa e Abrantes, uma janela se abria, os povos ousavam respirar.

André Escária, lendo um dos editais dos indignados, pasmou da assinatura. Manuelinho…. Quem seria Manuelinho, o chefe sem rosto que assinava as proclamações? Seria o mesmo em quem estava a pensar?

Curioso, buscou-o, estava no Rossio de S.Brás, Manuel Martins, tranquilamente repousando debaixo duma oliveira, os pombos não longe aguardavam nova refeição, a que durante anos  Manuel nunca faltara. André chegou-se e sondou o lunático irmão da Misericórdia, aparentemente o ar tranquilo e distante nada envolvia na refrega em curso na cidade:

-Manuel, por aqui com teus pombos?

Manuel empapava pedaços de pão em água, pronta a malga chamaria os amigos, retiraria depois para uma sesta, perto da Cartuxa.:

-Os pombos são como as pessoas, André Escária. Andam em bandos, onde um vai vão os outros. Mas também sabem quando não querem vir, ou quando lhes fazem mal. Aí arrulham. Nunca ouviste os pombos arrulhando zangados?

André deixou Manuel, alheio, não sabia de nada, não seria ele por certo o Manuelinho sob cujo nome se haviam resguardado os revoltosos.

Durante mais uns dias, Évora e demais cidades fizeram ouvir a voz do desagrado, a casa de Morais Sarmento acabou incendiada, junto com outras. O movimento insurreccional não conseguiu destituir o Governo em Lisboa, sucumbindo ao reforço de tropas castelhanas que vieram em seu auxílio para reprimir a revolução. Nobres locais, afectos ao governo, ainda procuraram responder, criando a Junta de Santo Antão, na Igreja de Santo Antão se reuniram alguns dos chefes, captando de forma soez a simpatia do povo, queriam pacificar a cidade.  A população, desconfiada, pouco aderiu,  porém, a força das armas acabaria vencendo, três anos ainda se haveria de esperar para colocar um Bragança no trono.

No Rossio de São Brás, Manuel, suposto Manuelinho continuou alimentando os seus amigos, frases intraduzíveis denunciavam uma alma entre o profético e o demente. Nas vilas e aldeias do Alentejo, e de Portugal aos poucos, em surdina o povo ia arrulhando, o voo da glória surgiria numa madrugada de Dezembro, logo no dia primeiro, varrendo os biltres do pombal e de novo esvoaçando em liberdade.


publicado por Fernando Morais Gomes às 13:44

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