por F. Morais Gomes

22
Jul 11

“Senhor Director do Diário de Notícias. O meu nome é Eduardo Gralheiro, major de Lanceiros e leio na edição de hoje algo profundamente perturbador: no dia de ontem, 8 de Janeiro de 1902,quando seguia num coupé a caminho de Benfica o major Mouzinho de Albuquerque,  grande soldado e meu antigo comandante, pôs dramáticamente termo à vida. Cometeu suicídio o herói de Chaimite, perda irreparável para o Exército e para o Reino!. Recordo, senhor director, com saudade e orgulho aqueles dias, sete anos atrás, em que sob o seu comando vergámos o vátua  Gungunhana e como depois de aprisionado  o escoltei até Lisboa.

Ngungunhane. Filho de Muzila, neto do grande Manicusse, que à frente de um exército vindo das terras dos zulus fundou o Império de Gaza, submetendo duas centenas de tribos em torno do Limpopo, fundador da aldeia sagrada de Chaimite. Ngungunhane, o neto herdou-lhe a fibra guerreira, como a de Shaka, o grande chefe zulu. Intimado a assumir-se como súbdito de Portugal, mobilizou as suas forças,  grande foi o alarme em Lisboa, António Enes prometeu mesmo a D. Amélia trazer-lho aos pés. Em Janeiro de 1895, estando em Moçambique, avançámos para Marracuene, nas margens do Incomati e enfrentámo-los em Coolela, já em Novembro desse ano. As nossas Kropatscheck, que tinham substituído as velhas Snider, esmagaram os regimentos de Ngungunhane, apenas cinco dos nossos morreram contra as centenas de baixas entre os guerreiros de Gaza.

Soube-se que Ngungunhane acusou  os tios de traição pela ausência na frente de combate. A capital de Gaza, Manjacaze, ficava apenas a 7 km de Coolela. Estava aberto o caminho para a sua queda em nosso  poder. A 11 de Novembro de 1895,  com uma coluna militar comandada pelo coronel Galhardo, entrámos sem oposição em Manjacaze, o kraal estava abandonado e a população em fuga. Galhardo ordenou a pilhagem da povoação e o seu incêndio. Ngungunhane entretanto refugiara-se em Chaimite, junto à campa de seu avô Manukuse, o fundador do Império de Gaza, oferecendo-lhe sacrifícios humanos e aos antepassados em procura de protecçao.

Foi por essa altura que o nosso major Mouzinho foi nomeado governador de Gaza, a hora era a sua. Ngungunhane, pressentindo a derrota, ainda tentou entregar o príncipe ronga Zixaxa, que perseguido pelos nossos se acolhera sob a sua protecção, mas Mouzinho, a bordo da Capelo, mostrou-se-nos  encorajado pela onda de vassalagens que ia obtendo dos chefes tribais da região, e apontou o dia de Natal para a captura de Ngungunhane, seria acompanhado por mim,  um médico , 49 praças  e duas centenas de auxiliares africanos. Nos três dias de marcha forçada que se seguiram, juntámos vários régulos que se ofereceram para o combater, na retaguarda ficara  a canhoneira Capelo, em posição no Limpopo. Sabendo-se perseguido, Ngungunhane enviou emissários ao nosso major, com presentes e juras de amizade,libras de ouro, dentes de marfim, o próprio filho, Godide trouxe libras de ouro e uma manada de búfalos. Na madrugada de 28 de Dezembro de 1895, chegámos frente às paliçadas de Chaimite, pelas sete, Mouzinho resolveu entrar na aldeia por uma estreita abertura da cerca, por onde caberia apenas um homem, no que foi seguido por mim e pelos demais. Surpresos, os cerca de 300 guerreiros da manga Zinhone Muchope,  não esboçaram resistência, e fugiram.  Com Ngungunhane capturado e humilhado, o major ordenou o fuzilamento de Mahune e de Queto, tio do imperador, não contente, e verdadeiramente possesso, ainda mandou que o coração dos mortos fosse trespassado por uma espada. Pelas 10 h, estava terminada a destruição de Chaimite e a coluna partia de volta à Capelo levando os prisioneiros. O percurso iniciou-se às 10 horas da manhã de 28 de Dezembro de 1895, quando trazendo Ngungunhane e as sete mulheres escolhidas para o acompanhar, partimos de Chaimite. A comitiva integrava ainda Godide, o  herdeiro, e dois tios de Ngungunhane. Foi uma caminhada árdua, em marcha acelerada, durante a qual sempre que os prisioneiros caiam eram pontapeados e chingados. Chegámos a Zimacaze, onde nos aguardava a Capelo, na manhã de 29 de Dezembro.
Perante milhares de pessoas que se tinham juntado nas margens do rio, Ngungunhane foi arrastado, tal era o seu estado de inanição. Seguiram-se vivas ao rei de Portugal, e uma saudação de três bayetes, um grito que era levantado apenas perante ele, mas que Mouzinho obrigou a ser dado em honra do rei de Portugal. Também se entoou a canção Incuaia, uma saudação ao imperador que só podia ser cantada com sua autorização, agora  usada como insulto.

A partir daí sucederam-se as humilhações, com Ngungunhane a ser pontapeado quando, de joelhos, implorava clemência, e os interrogatórios, com o fito de descobrir onde estaria o famoso tesouro que se dizia ter escondido. Mouzinho anuía, sem clemência, era a justiça dos vencedores.

Em  Languene, embarcámos Matibejana de Zixaxa e algumas das suas mulheres, que nos havia sido entregue por Ngungunhane. Passaram a partilhar o cativeiro.

A 31 de Dezembro de 1895 chegámos à barra, onde o vapor Neves Ferreira, nos transportou para Lourenço Marques. Aí me despedi do major e não mais o tornei a ver. Em Lourenço Marques foram exibidos,a cidade  estava engalanada e em festa pela caçada.

Permaneceram na cadeia da cidade até 13 de Janeiro, dia em que, por ordem do Ministro da Marinha os embarcámos no vapor “África” com destino a Lisboa, só a 13 de Março arribámos a Lisboa. Em todas as escalas os prisioneiros foram postos a ferros, para evitar fugas.Fundeámos frente a Cacilhas. Sabendo-se da presença a bordo dos prisioneiros, logo o navio foi rodeado por dezenas de embarcações a remos e à vela no intento de ver o Gungunhana. Lisboa estava em festa, para ver os os prisioneiros num exíguo espaço mal iluminado com dois patamares de beliches. Nas esteiras superiores, Ngungunhane as suas mulheres. No beliche inferior Godide, o primogénito de Ngungunhane, o príncipe Zixaxa Matibejane e as suas três mulheres, Molungo, tio de Ngungunhane, e Gó, o cozinheiro. O cheiro era nauseabundo, Ngungunhane, exausto e horrorizado, receava o fuzilamento. Às três e meia da tarde desembarcámo-los no Arsenal, os enfeites das mulheres nativas despertaram a curiosidade, Godide tornou-se objecto de cobiça por parte das esposas dos funcionários, jovem, alto, falava, português, não estava assustado como o pai. Ao fim da tarde metemos o grupo em seis carruagens abertas, escoltadas por 30 praças de cavalaria, com destino ao Forte de Monsanto. Nas três primeiras iam as 10 mulheres, na quarta o cozinheiro Gó, a quinta levava as bagagens, algumas trouxas e às esteiras onde habitualmente dormiam. A carruagem com Ngungunhane, Godide, Matibejane e Molungo fechava o cortejo. Foi tal afluência de povo que, nalguns locais, o cortejo dificilmente avançava. Os ditos e as humilhações que os prisioneiros sofreram foram de tal monta que nos dias seguintes a imprensa protestou pela passividade da polícia.

Em Monsanto foram instalados nas casamatas do Forte, uma estrutura subterrânea húmida e fria. Fora do Forte, o clima era de festa, eram milhares as pessoas que em cada dia íam ao alto de Monsanto na esperança de avistar os prisioneiros, o que levou à instalação de barracas de comes-e-bebes,  um verdadeiro arraial popular.

Não tornei a ver o major Mouzinho depois de Moçambique, o rei deu-lhe outras atribuições e eu parti noutras missões. Voltei ao meu regimento, e só pelos jornais fui sabendo de Gungunhana e dos demais.Uma pleurisia levou Ngungunhane ao Hospital da Boa Hora, em Belém, foi bem tratado,instalado num quarto destinado a oficiais. Curou-se e voltou a Monsanto .Fora do Forte,os insultos aos prisioneiros eram constantes e diários, com os populares a fazer gestos de degolação cada vez que os avistavam na esplanada. O Governo tomou a decisão de os desterrar para a ilha Terceira, a bordo da canhoneira Zambeze, foi decidido   também separar as mulheres dos homens, para elas veio ordem de deportação para  São Tomé. Ngungunhane teve de ser novamente levado em braços para bordo do rebocador Voador que conduziu os prisioneiros à canhoneira, fundeada no Tejo. Chegaram à ilha Terceira a 27 de Junho de 1896 e foram instalados no Castelo de São João Baptista, na península do Monte Brasil, em Angra. Naquele local Ngungunhane permanece ainda, morto está hoje o seu captor.
Soube que há três anos foram baptizados na Sé pelo bispo de Angra, e de seguida crismados, recebendo como padrinhos os principais notáveis da ilha. São cristãos agora.

E Mouzinho? O major nunca perdoou a forma como o trataram, oscilando o herói e o facínora, na boca dos pasquins liberais de Lisboa.  Depois dos combates em Naguema, Mocutumudo e Macontene, partiu para Portugal, com o intuito de resolver questões relacionadas com a administração da colónia de Moçambique, viajou pela Europa, só em 1898 regressou a Moçambique sem levar qualquer resultado prático da sua presença na Metrópole.  Apenas em Julho de 1898, Mouzinho de Albuquerque recebeu  a notícia de que tinha sido concedido o tão esperado empréstimo à colónia. No entanto foi nesse mesmo dia afastado de Comissário Régio. Apesar de pomposamente ter sido  depois nomeado ajudante de campo do rei D. Carlos, oficial-mor da Casa Real e aio do príncipe D. Luís Felipe, Mouzinho, como Ngungunhane, sangrava, incompreendido pela Pátria!. Senhor director, morreu um herói de Lanceiros!. Sintra, 9 de Janeiro de 1902

Eduardo Gralheiro,  Major de  Lanceiros”

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:25

Julho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

12
13
15

23




Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO