por F. Morais Gomes

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Jul 11

O Verão em Sintra era sempre um projecto de Verão, noites cacimbadas, o glaciar da Praia das Maçãs para descobrir, a nortada agreste e certa, soprada desses Açores desmancha-prazeres. Quando se está em Sintra, está frio, quando se volta a Lisboa anseia-se pela rápida fuga desse inferno marroquino, tórrida África com Torre de Belém dentro. Não havia meio termo. Gilberto pensara em Albufeira, a doença da mãe aconselhava a ficarem por perto, há vinte anos que não veraneavam na casa de Colares. O sítio pouco mudara, o Pomarinho, os patos no rio, agora sustido na estival represa, o quiosque dos jornais para o diário abastecimento de notícias com que se entreteriam as meias de leite com torradas no Cantinho da Várzea. Os plátanos junto à adega, que tanto barulho haviam gerado, lá estavam, renovados, tudo nos seus lugares, o Miguel Esteves Cardoso, recente morador na zona, escrevia agora esotéricos monólogos sobre couves, nabos e outros magníficos tesouros do mundo das hortaliças, a sua fase bucólica pós-menopausa, por certo. Nunca o vira pelos cafés da zona, pelo Público se sabia por ali andar em transumância, ia-o seguindo ao pequeno-almoço na coluna ao lado do Bartoon.

Colares conservava aquele ar anos cinquenta, carente de obras, chalés onde o dinheiro fugira ingrato para outras bandas, pérgulas a carecer de pintura, jardins irregulares e selvagens onde  aloés e sardinheiras imutáveis cresciam há muitos anos. Apesar do tempo, pouco mudara, melhor assim. A praia denunciava um ar decadentemente suave, amontoado branco de casas desordenadas, de várias épocas e cada vez piores gostos, o pátio do Búzio deprimia pelo dissonante  quintal das traseiras sem jeito,  que saudades do velho barracão do cinema, dois filmes, cinco escudos, a Xana pasmara de ali ter havido um cinema. Mas houve. E o Quivuvi, e o Casino, e a Concha, e o Bibió com as bandejas do sr.Rui, e o Xiripiti junto ao Neptuno, e a parafernália de baldes e pás para as ruidosas construções na areia. Gilberto tinha nostalgia desses tempos, outra encarnação, talvez por os saber desaparecidos veraneava mais noutras bandas, menos epidérmicas e com menos passado, aos miúdos apenas chamara a atenção venderem-se pizzas, e o Maçãs, onde com novos amigos do Banzão curtiam agora os sábados à noite.

O escritório fechara em Julho, Gilberto, para lá dos cinquenta, com os seus calções verdes e panamá azul enterrado na cabeça, diária e religiosamente dava a volta à praia depois de se abastecer de notícias no quiosque de Colares, familiar,  o velho Alberto do Búzio arrastando décadas de praia lá estava, sentado junto às sapateiras e robalos, o eléctrico partia e chegava rangendo como nos velhos tempos, Gilberto nunca mais nele andara, perdera a piada, com a idade já não podia ir no estribo a roubar fruta das árvores, os carros  acelerados na estrada ao lado não seduziam.

A praia perdera carisma,  prédios plantados na Tomadia a lembrar a Quarteira de mau gosto e espetados a ferros, até lojas chinesas havia já. O vento, esse, familiar, continuava o mesmo, que saudades da velha das bolas de Berlim e das batatas fritas Ti-Ti. Em tempos jogara futebol no recinto da praia, agora sintético, alguns velhos amigos ainda por lá andavam, barrigas de cerveja e carecas recentes, sempre jovens uns para os outros, o passado logo celebrado com uma amarela fresquinha a cada reencontro: o Tavares vivia em Inglaterra, dois putos já casados, o Adriano morava em Janas e era bate chapas, ele, como veraneante, sumira uns bons anos, gestor numa empresa informática, os anos das vacas gordas mais em Ibiza ou  no Algarve.

A casa de Colares levara obras uns anos antes, janelas, esgotos, churrasqueira nova, pouco restava do alçado à Raul Lino construído pelo pai nos anos sessenta, memórias, sim, muitas, o mundo era outro porém, os filhos dos velhos amigos adultos e feitos, os pêssegos e peras de vez sumidos, até o pão quente de Nafarros às cinco da manhã, após noitadas heróicas, reconfortante a fazer lastro acabara. Era bem diferente, nesses tempos, a aventura de deixar Lisboa para dois meses em Colares, qual viagem ao interior profundo, os cobertores, o fogão, as compras frescas na praça de Sintra ou na feira de S. Pedro ao domingo, galinhas e coelhos vivos, uvas, pão de Mafra a estalar. Agora eram as romarias para o shopping, industrial, o anódino código de barras, algumas tias renitentes haviam inventado o  mercado de frescos em Almoçageme, aí aos sábados seriam de novo chamadas “madames” e hierarquizadas as compras, nada que tivessem na caixa do hipermercado, como eram engraçadas com as unhas pintadas de vermelho vivo simulando sabedoria a escolher os rabanetes e melões que velhotes, agora rebaptizados de produtores biológicos, vendiam à beira da estrada.

Gilberto viera por quinze dias mas o verão chocho e avaro em sol mal o tirara de casa, lendo e tratando da relva. Até o calor a maldita troika levara, canibalizando o sacrossanto verão lusitano, pensava. Como a maioria, trocara o lavagante pelos percebes, James Marten’s nem ver, diabetes oblige, de quando em vez uma salada de polvo ou de ovas acompanhava a fresquinha da tarde. Descobrira uma moqueca de camarão num restaurante da praia, a repetir, os dias iriam correndo entre a leitura e o portátil e vespertinos passeios no calçadão da Praia Grande. No fundo,vivia tranquilo. Cortara Cancún e o resort, os anos despreocupados iam agora distantes, estava em casa, afinal, navegando seguro num passado que nenhum spread ou rating poderia apagar. Afinal, quem tem saudades do Inverno, sempre passa o Verão em Sintra, não é verdade?

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:59


Depois de ler em voz alta à minha noiva (com quem vivo há 27 anos e de quem tenho um filho de 23 já no mestrado de engenharia mecânica no IST...), tendo sempre vivido no concelho de Sintra (Queluz, Mem Martins, Marcês e Algueirão, actualmente), impossível cometer a indelicadeza de não deixar um vigoroso aplauso por nos ter emocionado com um saboroso périplo pela região de Colares, mãe do Ramisco e de tanta coisa boa.
Tivemos um jornal, o "Sintra Ilustrado", escrevi para o "Jornal de Sintra" e fui colaborador da Rádio Ocidente e da Rádio Clube de Sintra, na área de cinema.
Li o seu texto como um filme que desfilou em imagens, conhecidas desde há 36 anos, tratadas com um recorte e um humanismo fascinantes.
Por isso lhe agradeço este valioso pedaço de vida que nos devolveu, quando, passadas tantas férias na costa de Sintra, passámos a fazê-lo em casa própria na Areia Branca, sem o mesmo sabor do parque de campismo ou dos apartamentos da piscina da Praia Grande.
Obrigado por este excelente final de domingo, bem estávamos a precisar de algo assim que descobri via Facebook.
Fernando Mateus a 25 de Julho de 2011 às 00:08

Está aqui tudo! Fica a nostalgia...
Anónimo a 25 de Julho de 2011 às 10:20

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