por F. Morais Gomes

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Jul 11

Virgílio Madureira terminava dois mandatos como vereador na Câmara, incompatibilizado com a concelhia, não se recandidatava, uns ingratos, vociferava, tinha sido ele quem os levara todos para lá, pagara inscrições e quotas, queriam agora o João Martins, veterinário municipal, que ficassem com ele, besta amigo das bestas. Oito anos a pugnar pelas estradas alcatroadas, centros de saúde, rotundas, orientara-lhes a vida a todos, seguros no quadro da Câmara, e agora isto. Chegara a pensar ir como independente, capciosos, os da oposição até o sondaram para uma empresa municipal, o seu apoio ainda valia uns votos entre os mais velhos, com a eleição renhida, nada se podia desprezar. Nos oito anos conseguira algum pecúlio, é certo, as empresas da família haviam ganho empreitadas, que culpa tinha ele se as únicas de jeito eram as do pai e do cunhado, nunca interviera na decisão dos concursos.

A próxima eleição e o fim do mandato colocavam a necessidade de pensar no futuro, política activa não, melhor esperar que os novos se desgastassem esses anos, no fim surgiria salvador e compreensivo para salvar a câmara do desastre, desinteressado e bom filho da terra. Havia que encontrar uma montra onde sem estar na política não estivesse longe dela. Pensou nos Bombeiros, mas os chefes estavam de pedra e cal, quis adquirir um jornal que fosse caixa de ressonância mas os existentes tinham passivos proibitivos, finalmente uma ideia: a presidência do Imortal, o clube de futebol, o mandato dos actuais orgãos terminaria daí a um mês, sem dinheiro e resultados a despromoção era segura. Nunca vira um jogo da equipa, curioso foi a um e reconhecido pelo público, lançou o tema das tradições clubísticas e de como era preciso ter um clube na Primeira Liga, dava visibilidade, ele, apesar de ocupado, faria o sacrifício pessoal, se preciso fosse, de constituir uma lista e até avançar com um aval pessoal para as obras do campo de treinos, conhecido como era, traria patrocínios, jogadores de topo, um treinador com créditos e até a televisão. O salto qualitativo tinha de ser dado.

A proposta animou os velhos adeptos, cansados de peladinhas e jogos nos distritais, alguns, antigos jogadores agora entrados na idade, aplaudiam, aos poucos, em jantares e reuniões no escritório de Madureira a lista foi tomando forma, o vereador que não sabia o que era um canto ou um livre e que julgava que os cinco violinos eram peças de arte de algum museu, em duas semanas tirava fotos ao lado da bandeira do clube, na sala dos troféus, reiterava o seu clubismo desde a nascença e prometia cem mil euros só para começar, iria fazer uma grande equipa, um craque brasileiro que o Viegas, antigo treinador e militante do partido lhe sugerira, estava a caminho, por cinco épocas. Sem opositores, uns descapitalizados, outros descrentes, com uma lista de incondicionais recrutados no café do Bigodes, num serão depois do snooker, Virgílio Madureira tornou-se presidente do Imortal com 97% dos votos, logo celebrados com uma rodada geral e a promessa de vitórias e obras no estádio.

Na primeira semana, num mundo até então estranho para ele, surgiram os pequenos problemas: os jogadores tinham prémios de jogo em atraso, havia que pagar, a tesouraria estava nas lonas. mas o velho Lucas, o cobrador, garantia a chegada de verbas da Associação de Futebol e da Santa Casa, nos duches do balneário faltava a água quente, Zezito, o craque brasileiro contratado ao Fanhões ameaçava assinar pelo Alcains, havia até 31 de Julho para decidir. Era um mundo novo. Na primeira saída da equipa venceram por 2-1, na terça a seguir, à porta da direcção os jogadores reclamavam os 300 euros de prémio regulamentar, a ser pago na hora, atrasos dos patrocinadores obrigaram a pagar do seu bolso. Entre problemas e guerrilhas na direcção, ao fim de umas semanas, Virgílio Madureira começava a ficar cansado do clube, sem dinheiro e nas mãos de jarretas que o tomavam como seu, tais os anos que ali levavam, os resultados começaram a desiludir, só  empates, teve mesmo de despedir o treinador, o Vítor de Jesus, que desculpava a falta de soluções com a necessidade de dois trincos, mais barato, optou por demiti-lo e contratar o Alves do talho, que já treinara os juniores.

Certo dia, uma carta das Finanças, justiceira, surgiu a cobrar vinte mil euros de IVA, resultado de facturas falsas que anteriores direcções haviam passado, parte delas de favor para ajudar  contabilidades de amigos, dez dias para pagar ou penhora de bens. Sem dinheiro em caixa e com quotas de cinquenta cêntimos, a situação parecia negra, os directores olharam para ele, estava na hora de ver algum dos cem mil euros, silencioso, Virgílio nada disse e marcou uma reunião com todos os órgãos sociais, a situação era de emergência, os jornais locais falavam em “buraco” e nos riscos de o Imortal fechar.

Dois dias depois, à hora agendada, lá se juntaram os directores, o Tomás do videoclube, vice-presidente para as modalidades, o eterno Serafim, que já estivera em vinte direcções, sócios antigos exigiam firmeza com as Finanças, eles contribuíam já com seis euros anuais, o que tinham feito ao dinheiro, perguntavam. Passavam dez minutos das nove, um sujeito de blaser azul apareceu trazendo uma carta para o presidente da Assembleia. Curioso, o dr. Figueiredo, e igualmente médico do clube abriu e leu em voz alta: pesaroso, o presidente alegava graves problemas de saúde e pedia a demissão, confiante que o vice e agora novo presidente, pelos estatutos, o Tomás do videoclube, faria um grande lugar, conduzindo o clube ao lugar que merecia. Por ele, descansaria uns meses em Marbella, a conselho médico, era outro o seu futebol, para ele chegara a hora de mudar de jogo.


publicado por Fernando Morais Gomes às 20:27

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