por F. Morais Gomes

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Jul 11

Indeciso entre Filosofia e História, militando na senda de amanhãs libertadores, Jaime acabou ingressando em Direito, à rotineira repetição dos feitos pátrios que um curso de História propiciava, apesar de apaixonado pela História, atraiu-o a visão detectivesca do advogado à Perry Mason, onde a meio do processo entra a prova decisiva que vai arrasar a acusação e salvar o inocente. Lírico, ingénuo mas puro, nos finais de setenta lá ingressou na Clássica, mausoléu frio e sem alma, ainda arrefecendo de acaloradas disputas entre fascistas e maoístas, as pinturas de Ribeiro dos Santos e Maximino de Sousa, à moda de Mao e Lenine, saudavam os heróis da casa, bastião do poder velho e balão de ensaio para futuros mestres da lei.

Direito era uma coisa anódina, de classe, pouco aberta ao mundo, cheia de “de cujus”, e “quid juris”, manuais gongóricos teorizando um mundo virtual onde por vezes até pessoas cabiam. Pensou desistir, impregnado de Marx e Gramsci, do Che e Neruda, as miúdas mais giras estavam em Letras, só a Manuela, olhos verdes, “res nullius” doce e sem namorado, o fez ir ficando, estudando juntos na biblioteca, aos poucos trocando olhares por entre a sebenta do Direito Civil e os manuais de Marcelo Caetano, nunca como nesses dias acharam tão acertados os direitos reais de gozo, amigos pela usucapião do tempo, amantes por vontade expressa, em contrato-promessa primeiro, sinalagmático e com execução específica depois. Ao segundo ano assumiram a relação, as mãos entrelaçadas nas aulas do professor Marcelo seguiam nem sempre atentas o estudo dos sistemas políticos, Jaime e Manuela concordavam, recentes conversos, democratas nas ideias, ditadores no amor. O professor Marcelo, atrás da barba mefistofélica ria divertido, no dia da oral de Constitucional sendo Jaime o último da tarde, convidou-o no final para jantar. Um bife na Trindade a coroar o suado 14, já depois das dez da noite premiava o promissor constitucionalista.

Ao terceiro ano, desistir estava já  afastado, as coisas com a Manuela estavam firmes, casariam no fim do curso, ela com ideias no CEJ, futura juíza, ele entre a diplomacia e a barra, tinha dois anos pela frente. As paredes antes frias, eram agora familiares, muitos  envolviam-se na política, à esquerda e à direita, os mais velhos, na fase da gravata, iam ostentando antecipado o epíteto de doutor que com o tempo viraria nome próprio. O caderno na mão e a sacola do primeiro ano virava pasta de pele, camisas com botões de punho, óculos sem aros, às barbas hirsutas e revoltas sucedia o penteado tratado, o jurista em construção, artigo a artigo, diploma a diploma, fazia o caminho iniciático de cavaleiro do Direito. No quarto ano, Jaime integrou uma lista para a associação, a morte recente de Sá Carneiro e a crença cada vez mais ténue em soluções de ruptura, levaram-no ao PPD, Santana Lopes, veterano aluno e antes extremista de direita, tambem aderira, o país arrefecia do atribulado PREC. Extinto o Conselho da Revolução, no arco  moderado de partidos do centro se desenharia o futuro. Filiou-se, foi a um congresso, Manuela, equidistante, encafuava-se nos códigos, refinava o aspecto, a teennager inconsciente ia-se apagando à medida que chegava o dia em que o canudo dourado e a caricatura do Zambujal no livro de curso premiariam os novos doutores, qualificados quadros, esperançosas reservas para grandes voos, no foro e na política. No quinto ano, Jaime pela primeira vez envergou traje académico, excrescência fascista banida nos anos setenta e com o tempo recuperada, de chicote em riste ,veterano, praxou os novatos acabrunhados, obrigados a flexões à porta do anfiteatro. Estava quase lá.

Quase doutor, deixou os bares do Cais de Sodré, substituídos pelo Stones e o Ad Lib, frequentou palestras na Ordem, ia agora de carro para as aulas, abandonando o 31 para Moscavide cheirando a suor dos primeiros anos. Aos mais novos, falava dos mestres como de tias velhas mas estimáveis, feras por vezes, “crânios” brilhantes outras, todos com características distintas: os perdigotos voadores de Jorge Miranda, a orelha de Sousa Franco, a quem por só ter uma, tudo entrava por um ouvido sem sair pelo outro, os duzentos quilos da Magalhães Colaço, o velho Soares Martinez, lenda viva de quem inúmeras histórias, verdadeiras ou falsas se contavam, histórias fantásticas de alunos que a exames dele haviam sobrevivido. Finalmente, já com o casamento marcado numa quinta de Azeitão, num dia quente de Julho ele e Manuela acabaram o curso, ela primeiro, com melhor média, ele depois, escritório em perspectiva, uma avença num banco na calha. Com outros duzentos, nesse ano engrossariam o restrito clube de senhores doutores. Longe ia o dia em que Jaime atravessara aquele átrio ladeado de vitrinas com pautas, repletas de notas avaras e angustiado hesitara sobre o passo a dar. Com o tempo, percebera que Perry Mason jazia poeirento em velhos filmes sem cor, que mais que a Justiça interessava o Direito, e mais que o Direito estar com quem o aplica e o escreve. Loquaz, a sociedade abriria portas aos moldados e tolerante suportaria os críticos mantendo assim no ar o perfume brando da democracia e pluralismo.

Passaram trinta anos, Manuela é hoje uma respeitada desembargadora da Relação, com Jaime teve três filhos, um deles recém-acampado do Rossio talvez siga Direito, para já, de mochila, vai com a namorada a caminho do Sudoeste. Jaime, uns quilitos a mais, é poderoso chefe de gabinete dum dos novos ministros, depois de tranquilo deputado por Faro por mais de dez anos. Há dias, acompanhando o ministro a um colóquio, reentrou pela primeira vez em anos no átrio de Direito e sorriu. Lá estavam ainda as vitrinas, os baixos-relevos do Almada, o cheiro familiar e austero. Anos antes, ali entrara querendo salvar o mundo, felizmente e a tempo,  conseguira salvar-se a si próprio.


publicado por Fernando Morais Gomes às 17:46

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