por F. Morais Gomes

27
Jul 11

Simães, para os lados de Fonte Arcada, acordou acabrunhada e de luto, Custódia Teresa, a mulher do José Joaquim finara-se de noite ardendo em febres, na flor da idade ainda, iria fazer falta ao José. Passada a notícia porta a porta, mulheres da aldeia amortalharam o corpo e velaram-no em casa, hirto, lenço atado à cabeça para que a boca se não abrisse. O padre Lopes sabia já, a Maria Vidas avisara e esperava para saber a hora do enterro no adro do mosteiro de Fonte Arcada. Apreensivo, o padre informou que aí não poderia enterrar a Custódia, leis novas obrigavam a que um médico observasse o cadáver e que o enterro fosse fora do templo, teriam de falar com o administrador do concelho, na Póvoa de Lanhoso. Era 22 de Março de 1846 e desde 1844 que o governo de António Bernardo da Costa Cabral havia proibido enterros nas igrejas e imposto o depósito dos restos mortais dos falecidos, após o registo do óbito e paga a taxa de covato, em cemitérios em campo aberto. Graves distúrbios haviam ocorrido já a 20 de Janeiro, aquando do enterro do Joaquim Ribeiro, o povo discordava da medida, herética e jacobina:

-Pode lá ser, senhor padre Lopes!- gritou a Maria Vidas, larga de ancas, um ponto negro no buço a realçar-lhe a cara desfavorecida - aqui nunca houve médico, e os nossos sempre repousaram em lugar pertencente aos filhos de Deus! Desalmados! Julga mandar mais que o povo, esse Cabral lá de Lisboa?

A Maria Angelina, vinte anos, moça trigueira e irmã do sapateiro, acompanhava a vizinha, exaltadas, invectivaram o pároco, a face irada realçava-lhe os traços esbeltos, roliça, com saia vermelha e segurando a foice que trazia do espigueiro. Não podia ser, tal desaforo e impiedade, o inusitado alvoroço matinal no adro da igreja despertou a vizinhança, juntando o mulherio em segundos, meia hora mais tarde eram mais de vinte, à porta da taberna, poltrões, os homens comentavam, sem interferir. Chegado o médico para atestar o óbito, à vista da ameaçadora turba de saias, correu por poiso seguro, valeu-lhe o major Veloso, da Arrifana, que o  recolheu na adega. Na casa do José Joaquim, o corpo de Custódia esfriava, quente, o povo pedia sangue.

No dia seguinte, desafiadoras, as mulheres juntaram-se no adro do mosteiro, desta feita com alguns homens atrás, a Maria Angelina trazia duas pistolas nas saias, herdadas do pai. Receosos, o padre Lopes, o acólito e o Válerio, o mordomo da cruz, acharam melhor acatar a nova lei, e conduzir o corpo ao terreno escolhido para cemitério. Novo burburinho se instalou então, à vista do féretro em bolandas pela freguesia. Resolutas, quatro raparigas pegaram no caixão, escusando-se o padre a desobedecer, uma mulher de sobrepeliz tomou as vezes do pároco e insurgente, um cortejo fúnebre de roçadoras e forquilhas erguidas,  desafiador, levou a Custódia à última morada no mosteiro de Fonte Arcada.

A medo, surgiu-lhes o administrador do concelho, aconselhando recato, se insistissem teria de chamar a guarda, Maria Angelina, à cabeça das mulheres, não deu sinais de hesitar, o povo decidira:

-A Custódia descansará onde descansam os pais e avós, senhor administrador. Abaixo os Cabrais! Abaixo os Cabrais!- gritava, secundada pelo povo, em uníssono, o chefe do governo e seu irmão,  ministro da Justiça e autor da iníqua lei eram invectivados como falsos e hereges, pecadores, arderiam no Inferno. Á porta da igreja, as mulheres montaram guarda para que não entrassem homens e deram missa, quatro delas, mais novas, abriram uma cova, sob gritaria da turba, ali  nesse mesmo dia repousaria a Custódia, como todos antes dela.

Na manhã de 24,a notícia dos desacatos em Simães trouxe a autoridade, três das supostas cabecilhas foram identificadas e presas, a Maria Vidas, a Custódia Buceta e a Joaquina Carneiro, da Fonte Arcada, e levadas sob prisão, nas ruas gritava-se e agarrava-se tudo com que se pudesse atacar os escrivães. Só no dia imediato as autoridades se deslocaram à igreja para elaborar o auto de enterramento e removerem o corpo da Custódia. Tocados os sinos a rebate, mais de duzentas mulheres apareceram, enchendo o adro. Sob insultos, o juiz Joaquim de Sousa foi agredido nas costas com uma pá de forno, o pobre do escrivão, o Narciso, amedrontado, na fuga, perdeu o chapéu, que algumas espetaram num varapau como troféu guerreiro, a autoridade era desautorizada e no adro os coveiros que retiravam o caixão da Custódia apedrejados no interior da cova. Por toda a Fonte Arcada e Póvoa do Lanhoso se pedia sangue.

Em magote, a Maria Angelina e outras mulheres dirigiram-se ao cruzeiro a pedir a libertação das amigas presas, Maria Angelina, saia vermelha e pistola na mão, destacava-se na multidão. Desculpando-se o juiz com o carcereiro ausente, e único com a chave das celas, sacando de um machado partiram a porta, soltando as heroínas detidas. O povo delirava, a autoridade temia. Tomando-se de pruridos, o escrivão até ali amedrontado, ganhou coragem e de caneta em riste perguntou às mulheres qual o nome de Maria Angelina, a mais barulhenta, de saia vermelha e pistola, uma das mais agitadas frente ao cartório do juiz. Sem desarmar, uma delas, olhando o escrivão com desprezo, gritou-lhe o nome, orgulhosa:

- É a Maria! A Maria, da Fonte Arcada!

Sem tempo para pormenores ou apelidos, canino e servil, o escrivão anotou:” Maria… da Fonte..”, já tinha um nome para dar ao juiz. No cruzeiro, as mulheres abraçavam-se, com Maria Angelina em destaque, por essa vez a Custódia descansaria em paz, à cautela,dois covais ficariam abertos à espera dos Cabrais, ou de outros que  por lá aparecessem.

Durante dias, a sanha libertadora das mulheres da Póvoa de Lanhoso, ao rebate de sinos nas aldeias e paróquias mostrou sem medo quem eram os de lá do Marão. Tendo sido ordenado o recenseamento das propriedades, para melhor se cobrar impostos, mulheres do Minho sem medo haviam assaltado casas dos administradores e queimado as papeletas da ladroeira, as bilhetas que identificariam os prédios, até José Teixeira, o temido Zé do Telhado ajudara, amigo dos pobres. Maria Angelina, desafiadora, ainda respondeu em tribunal, mas o povo por essa levara a melhor, cantando empolgado no largo da praça da Fonte Arcada:

É avante, portugueses!

É avante, não temer!

Pela santa liberdade,

Triunfar ou perecer!

Triunfar ou perecer!

 

publicado por Fernando Morais Gomes às 16:02

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