por F. Morais Gomes

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Jul 11

Alberto Andrade, abastado empresário de mármores e comandante honorário dos bombeiros, assediado pelo partido do governo, aceitou ser cabeça de lista às autárquicas desse ano. Mecenas de varias agremiações, habituado a contribuir para as campanhas, entendeu  ter chegado a altura de também ele dar a cara, ao menos pagaria cartazes onde apareceria, benemérito e filho da terra, até a oposição se renderia aos seus méritos. Visitadas as agremiações, prometidos os melhoramentos, reclamadas obras sempre adiadas, suplantou o melhor resultado do partido. Com maioria absoluta e total desconhecimento das funções, foi eleito presidente da Câmara e lá tomou posse num dia frio de Janeiro, o Andrade da pedra era agora o senhor presidente, prestimoso e patriarcal. Vitorioso, no dia da posse o carro da presidência, solene, lá foi buscá-lo e à D. Leontina, agora ufana primeira dama, para raiva das vizinhas.

No discurso de posse, prometeu trabalho, citou autores que o Frederico,recente advogado e seu sobrinho lhe alinhavou num papel, terminadas as ovações, estava inaugurada uma etapa decisiva a caminho do progresso.

Alberto,patrão de três fábricas, accionista dum banco, duma gráfica, sócio de uma central de betão e de uma imobiliária, chegado à Câmara e nomeado o Frederico para chefe de gabinete, logo começou a despachar: primeiro, os processos de obras, a construção era o progresso, uma casa para cada casal, nada que a sua imobiliária ou central de betão beneficiassem directamente, apenas cumprir promessas eleitorais, os alvarás de loteamento aguardavam na pasta do despacho, havia que dar prioridade e ser criterioso: primeiro os empresários do concelho, ninguém lhe perdoaria a falta de atenção, sem parar,o voice mail do telemóvel recordava nomes e números de processos,  as suas gruas e betoneiras dariam apoio, criando futuro e colhendo dividendos. Depois, escolher os mais competentes, sem olhar a ideologia ou amizade. Nos cargos sensíveis, não, aí havia que assegurar fidelidades, a matilha da oposição espreitava por todo o lado. Ao cunhado, de licença sem vencimento nos correios, fez administrador da empresa dos resíduos, a varrer o lixo dos antecessores, o Gameiro, contabilista da firma de betão, passou a avençado do pelouro de obras, magnânimo, mandou admitir o neto da Gina, os filhos da terra primeiro, havia que sacudir as toupeiras de Lisboa enfeudadas aos aparelhos.

Tamanho voluntarismo e só para uns começou a preocupar o partido, os nomes sugeridos para chefes não avançavam, depois de eleito, o candidato que a concelhia antevira como corta-fitas amansado, tomava rédeas e alforria, capitão da indústria com provas, seria agora firme condutor de destinos. Em reuniões e em privado, o Albino, vice-presidente e chefe local do partido ia soltando remoques, Alberto estava a esquecer a concelhia, a distrital, ultrapassada, bufava. Certo dia, a medo, o Albino discordou do despacho isentando de taxas um loteamento do Alberto, acumulando reparos, ia tudo num sentido só. Alberto, presidencial e vingativo, retirou-lhe os pelouros, para os jornais, Frederico gizou uma nota, alegando “cansaço do senhor vereador”. Com legislativas à porta, impunha-se prudência, e não levantar ondas. Posta a eleição, Albino entrou em guerra aberta com o antes grande conterrâneo e aos poucos, relatos selectivos  de excessos iam sendo soprados a jornais amigos, denunciando nepotismo e uma vergonhosa cedência a “cunhas”. “Com grande pesar, e para respeitar os eleitores”  o partido acabou tirando-lhe  o apoio.

Alberto Andrade desdenhou, era o presidente, nas festas de Verão ou nos almoços de bombeiros era com ele que todos vinham ter, os antigos sabiam quem era, vindo de baixo, ganhara calos a trabalhar, os aperaltados do partido que se danassem, nas próximas eleições concorreria por outros. A máquina partidária, porém, começou a pressionar, os comunicados com farpas para os jornais e duelos verbais em reuniões da câmara iam-se sucedendo, ironicamente, era a oposição quem defendia Alberto, assim almejando dividir e  atingir o adversário. Num agravar da guerrilha, a concelhia  pediu intervenção do governo, da mesma cor política, por sinal: eram os alvarás aos amigos, os ajustes sem concurso, os empregos a conhecidos, alguns, de outros partidos até, como era possível desprezar tanto quem lhe dera a mão para a política. Inveja, comentava Alberto com os amigos, nas eleições seguintes se veria, como compreendia agora tipos trabalhadores como o Isaltino. Não negava que por vezes fora bafejado, industrial do concelho, era natural, ganhando ele ganhavam todos, mais construção, mais estradas, mais escolas, mais empregos, garantia de carreiras, bem compreendia agora os abutres do partido, que o queriam marioneta, mas haviam-se enganado, já ele cá andava, no duro ainda os patetas não haviam nascido.

Correndo solitário, teimoso e não escutando ninguém, não tardou que várias irregularidades fossem detectadas, o Albino e o partido não desarmavam, despejando queixas sobre queixas contra o poderoso homem dos mármores. Contratado um advogado afamado, Alberto desdenhou, com um despacho manuscrito pelo seu punho mandou mesmo despejar o Albino da câmara, colocando-o num anexo ao canil, “enquanto durarem obras urgentes no gabinete do senhor vereador”, justificava o Frederico, em comunicado à imprensa. A coisa azedava, por fim já nem se falavam.

Meses mais tarde, o tribunal decidiu: Alberto cometera irregularidades e deveria deixar o lugar, qualquer recurso não suspenderia a decisão. Incrédulo e furibundo, quis almoçar com o juiz, para cara a cara  perguntar como ousara tal dislate, o advogado, moderado, a custo tentou demovê-lo, o juiz veria mal tal interferência, seria melhor acatar. Atirando com as flores da jarra à parede do gabinete, onde com a força do arremesso o seu retrato em pose se quebrou em cacos, jurou vingança. Em poucas horas teria de deixar o gabinete, os engravatados sem calos haviam ganho uma batalha, mas não a guerra, jurava.

No café anexo à Câmara, Albino e mais vereadores do partido, ufanos, pagavam rodadas e celebravam. Como novo presidente, atenta a lei em vigor, Albino Carneiro, eufórico, prometia influentes lugares de assessor e todos os processos despachados com celeridade. Mas com total isenção, garantia,  eivado de espírito de justiça e equidade, nada que lembrasse o despótico Alberto, era o seu voice mail que se enchia agora. Na pele e de surpresa, o partido aprendera o quão perigosos podem ser  os independentes.


 

publicado por Fernando Morais Gomes às 17:23

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