por F. Morais Gomes

30
Jul 11

"Chove na mente, é um dilúvio a alma, o fim, sempre ele espreitando, sinistra silhueta da esperança fugidia. Encafuado poeta de café, apátrida dos tempos, sombra velha dos espaços, em silêncio calcorreio o pontão sem gente, como desolada está a praia apesar de Julho, cinzenta como o espírito,  náufragos de ridículo calção circulam no SOS das miragens. Recolho ao carro, e ao cúmplice rádio de tranquilizantes melodias.

Julho. É Inverno no país das flores, de vez  foram os cravos furtados das armas, agora apontadas a subjugados prisioneiros no país que já foi do Zeca. Volta Zeca, volta de teu túmulo, adormecida guitarra talhada no ventre dum povo acusado de sonhar. O mar provoca, desafia a vencer, qual Gama, da nau catrineta, cavalgar a onda, ousando, e logo atávico o apelo a desistir, vencido de si, temeroso. Os amanhãs perdem cor, pardacentos, longe, muito longe, no chamuscado purgatório entre o pesadelo e a ilusão. No leitor do carro,, passo Kurt Weil, por onde o escape para o próximo whisky bar?…

Escrevo. Apago. Escrevo de novo. Rasgo, despótico. Que fazer? Dar o corpo à arma? Recomeçar, com novos cravos em cano velho agora, distraído apontado a nós? Brancos, desta vez querem-se brancos, alvos e puros. A Primavera fugiu… Volta, és nossa, és Sul, és Sal, estás longe de Portugal…

Pedro Toscano, és um idiota,  ululantes hordas de conformados seres patrulham a Cidade, raptada pelo tédio e pelo spleen, assustam-te, confessa. Mudaram as madrugadas, antes límpidas e ledas mas ameaçadoras agora, promessa de castigos, cruéis e castradores, estivais armagedeões relampejados. Que fazer para não mais despertar, para de vez voltar ao filme onde todos são felizes, que inveja, ah, como é puro o cheiro límpido do iodo, é avaro o Verão, mas magnânimo o iodo.

Caneta, papel, umas linhas para a imortalidade esculpidas no areal, ao lado trilhos de passos na areia molhada. Empolga, a canção do CD, a velha Alabama Song, sejam Doors ou David Bowie, é Portugal amarelo cor de scotch passando em fundo, albergue  de errantes, trôpego de futuro e sem pedras de gelo. Vamos todos para Alabama, acolhidos no whisky bar!. Cheers! lá vai a Sílvia com o caniche, a caminho do Angra, e eu sóbrio ainda.

O Chico emigrou, cansado de desesperar, emigrou não, globalizou-se, como se diz agora, o Zé Luís morre aos poucos, licenciado em currículos mas catedrático de bares. Ao Manel surpreendi ouvindo o Zeca e Doors, cinco aguardentes durou, no esconso da casa do Fred, só alta madrugada alcançou o nirvana, enroscado no sofá do canto.

No quiosque, anorécticos jornais vendem insegurança e medo, intranquilos, invasores, cardíaco relato dum diário crepúsculo. Aconselhado deixar de ler jornais. Aliás, deixar de ler em absoluto. De tão abusadas, gastaram-se as palavras, analfabetos, não descobrimos novas, entre silêncios soltamos enredos, esboçamos adjectivos,  talvez salvemos o mundo aí pelo quinto gin. Limão. É o limão que tira a piada à vida.

Deixou-me, a Mafalda, cansou-se. Também eu a havia deixado já, amancebado com o álcool redentor e concubino. Amigo certo, presenteou-me  com uma poética cirrose, maleita de intelectual, é o mínimo. Não morrerei de pijama, mas de fraque, não se vai para o outro mundo de pijama, espero que no tal Céu haja Visa, parece que não deixam levar dinheiro. De partida agora, posso pensar em novas madrugadas com cravos brancos, quero cravos brancos sobre uma laje fria, fica bem nas fotos, com Chopin em fundo, talvez o Fernando faça um poema. Campa, sim, quero uma campa, grunge, alistado no exército de cruzes entre memoriais de defuntos imortais, nada do irrespirável e tórrido crematório, coisa para frango ou Joana d'Arc.

Neste último texto registo silenciosos gritos, cúmplices cirroses servidas com caneta de aparo. Passou a Ângela no calçadão, trauteio baixo para comigo a Alabama Song, pelo retrovisor vejo o Max no banco de trás, grande Max, já partiu, e de fraque, sete Outonos atrás, espera aí Max, vou a caminho!

É cruel,a caneta de aparo. As palavras sangram e impiedoso  o aparo mata, invasiva arma contra as palavras vãs, com tinta preta se deviam proclamar revoluções, gritar esperanças, borrar  epitáfios, apunhalar palavras errantes  em confidenciais cadernos.   

É Sábado. Cristo morreu, Marx também, e não me sinto lá muito bem. São cruéis os sábados, convocam à lassidão do corpo. O homem de Nazaré morreu numa sexta, aninhado entre pregos de aço, ressuscitou num sábado à noite, hora de Greenwich. Todos os dias ressuscito para tornar a morrer. Melhor ir a um copo no bar. O sol, esfíngico, põe-se no horizonte, não serviu de nada hoje, fugido do Verão, o CD no carro repete Alabama em looping, talvez o Kurt e o Brecht queiram um bourbon, fico-me com o Jim. Aguarda, Max, vou já!…"

Pedro Toscano, poeta de cirroses, sempre em copo alto, na véspera da Libertação. E o Visa?

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:56

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