por F. Morais Gomes

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Ago 11

Alto, forte, musculado, não se ficava indiferente a Reinaldo Barros. Segundo sargento do Exército, antigo ranger em Lamego, em 2008 oferecera-se para seis meses no Afeganistão. Nunca esqueceria a manhã da partida em Figo Maduro, a Marília com a Inês ao colo, orgulhosas e com receio ao mesmo tempo, o barulho do C-130 em fundo. Logo à chegada a Cabul, a notícia de dezanove franceses mortos numa emboscada, a sua companhia ficaria destacada nos arredores da capital, uma babel onde o odor a morte se misturava com o cheiro a ópio. Cabul era anárquica, sem placas indicando os nomes das ruas ou os número das portas, letreiros publicitários ou toldos, apenas buracos e pó, e grupos armados, Kalashnikovs por todo o lado. Sem muito que fazer, passava o tempo em Camp Warehouse, o quartel dos portugueses da IFOR, onde à noite ruidosos italianos soltavam o calor da grappa cantando pelas casernas.

Naquela altura já os taliban mostravam sinais de reorganização, e no aquartelamento as ordens eram quase sempre de prevenção, os poucos momentos de descontracção preenchidos com o snooker e o Messenger, onde diariamente procurava notícias e fotos de casa e da pequena Inês.

Três meses e várias patrulhas depois, certo dia saiu em missão no centro da cidade, com o cabo Henriques e dois soldados, patrulhando uma paisagem povoada de Toyotas em segunda mão, ruidosos pashtuns, panziris e hazaras,  mulheres com e sem burka e a habitual parafernália de camiões kitch e extravagantes. Desgovernado, um carro velho azul irrompeu pela rua do mercado, cheia de gente, e num ápice galinhas esvoaçaram esganiçadas rua fora, seguindo-se uma explosão junto ao Ministério da Justiça, tudo muito rápido. A cabeça despedaçada dum pashtun caiu-lhe em cima, separada do kameez e atarantado da surpresa, deu em disparar, não sabendo para bem quem. O Henriques, caído, sangrava da perna, e só segundos depois reparou que a tinha ensanguentada, não demorou a desmaiar, enfraquecido. Fumo negro escurecia o ar e por toda a rua jaziam corpos, além do condutor do carro suicida, do ministério poucos vidros se aguentaram.

Acordou numa cama do hospital americano, uma enfermeira ainda nova sorria, serena. Tinham passado dois dias. Fora evacuado pelos americanos mas os danos eram irreversíveis, as pernas não puderam ser salvas. Sentiu o mundo desabar-lhe em cima, a cabeça do afegão despegada do corpo, a rir, aparecia-lhe sistematicamente à noite, o Henriques, com sequelas graves, acabou por falecer.

Duas semanas depois, foi evacuado para Lisboa. O C-130 que levara o garboso ranger trazia de volta um homem mutilado, traumatizado, com uma cabeça sem corpo sempre pairando como num pesadelo.

Afastado da vida militar, passou a preencher os dias no café do Dino, em Rio de Mouro, afogando os dias em amêndoas amargas, acometido de suores frios sempre que um carro parava perto, certa vez em pânico chegou mesmo a agarrar a pequena Inês contra o peito, e fechar os olhos à espera duma explosão, que depois, tranquilizado, verificou ser apenas o barulho das paletes da cerveja descarregadas para o café do lado. E aquela cadeira de rodas, símbolo de humilhação, que como antigo futebolista e campeão de torneios militares não suportava. À noite, com suores frios, não dormia, Marília agarrava-o, acariciando-lhe a face, paciente, aguardando o passar do torpor. Quando o telejornal noticiava escaramuças no Afeganistão, fixava o ecrã hipnotizado, lembrando Cabul, os pashtuns, a cabeça…

Com o tempo Marília começou a ficar cansada, Reinaldo não ajudava, reagia com violência a qualquer comentário que insinuasse a sua diminuição física, sempre bêbedo, o Ricardo, amigo de Lamego e colocado na Carregueira aparecia no bar do Dino e levava-o ao colo para casa. O corpo atlético de outrora começava a dar lugar a uma barriga protuberante pelo sedentarismo e o álcool.Certo dia, tentou ir para casa sozínho, teimoso e já ébrio, caiu pela escada enrolado na cadeira de rodas. Foi a gota de água. A Marília cansou-se, saiu com a Inês para casa da mãe, adensando ainda mais o declínio na sua já diminuída auto-estima. Ficou só, ocorreu-lhe o suicídio.

Passadas umas semanas, deslocando-se guiando a cadeira perto duma escola, deteve-se observando por uma vedação uns miúdos que alegremente jogavam futebol no recreio, interessado, deu consigo a falar sozinho e a conceber tácticas.-Passa, passa, marca o da frente, isso, isso…

Alguém a seu lado, achando piada, aproximou-se metendo conversa:

-Já vi que  aqui o amigo percebe de futebol…

-Coisas doutro tempo, cheguei a treinar uma equipa em Lamego, no Exército. Reinaldo Barros, já agora -estendeu a mão e cumprimentou o homem, um tipo de óculos de massa, aparentando quarenta anos.

-Rafael Caldeira, presidente do conselho executivo desta escola. Diga-me, já alguma vez pensou em treinar miúdos?

Surpreendido, abanou a cabeça:

-Está a ver o meu estado, não está….

-Não precisa de dar aulas de ginástica, nem cuidar da parte física, temos connosco bons professores, seria uma espécie de treinador teórico, para estudar as tácticas, está a ver, os miúdos ficariam entusiasmados, estou certo. Fazemos o seguinte: você fica aqui com o meu telefone e se mudar de ideias, apite -retorquiu, escrevendo o número num cartão de visita. Raramente me engano acerca duma pessoa, acredite!

Reinaldo matutou dois dias, de longe voltou a espreitar pela vedação os miúdos que corriam, contentes, na flor da idade, fazendo fintas, virtual selecção de sub-10. Decidiu-se e aceitou.

Apesar da cadeira, Reinaldo tinha chama e carisma e os miúdos ganharam empatia com ele. Criaram uma equipa unida, ganharam jogos, treinavam ao fim de tarde, no final dos treinos alguns levavam-no mesmo a casa, transportando a cadeira até ao segundo andar.

Motivado, deixou de beber, no café do Dino só o cafezinho da manhã. Um dia esperou Marília com um ramo de rosas à porta do emprego, e perdoando, voltaram a viver juntos, a Inês recuperou o sorriso, agarrada aos dois e ao peluche voltaram a passear juntos aos domingos no jardim. Aos poucos, a cabeça do afegão e as ruas poeirentas de Cabul foram-se dissipando e tornando difusas, confiante, voltava a marcar golos na baliza da vida.

publicado por Fernando Morais Gomes às 23:34

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