por F. Morais Gomes

23
Ago 11

Toda a noite levara emborcando vodkas pretas, férias sem mulher e filhos, na noite algarvia, só sabia onde começar, nunca onde acabaria. Apesar da crise, as praias estavam cheias, tirando uns dias de folga do escritório, Vítor alugou um bungalow na Manta Rota e instalou-se para uns dias sem jornais e sem net, no remanso das cadeiras de praia e dos bares ao fim da tarde. Num deles conheceu Craig, um polícia da Irlanda do Norte, que devidamente afogado em Guiness ia contando as vezes que insurgentes de Belfast o tentaram matar, com ele bebia copos  na happy hour. Outras aves raras pululavam pelas ruelas e esplanadas, numa parafernália estival: emigrantes com charutos pedindo champanhe francês, ostentando o sucesso aos patrícios, ganho nas betoneiras do Luxemburgo; crianças embirrantes com crocodilos insufláveis e baldes de areia; famílias da margem sul, e de outras margens, abastecendo nos mini-mercados; ingleses pouco sóbrios e holandeses menos sóbrios ainda, toda a fauna, enfim, exótica ou rafeira, da grande reserva turística a que hoje pomposamente chamam o Allgarve.

Vítor gostava de praia e de mar, viajante inveterado, das Caraíbas aos mares do Sul,  tudo sulcara já, vira peixes exóticos e corais coloridos, golfinhos brincalhões e cardumes voadores, pinguins e lontras, e mar, muito, verde, azul-turquesa, imenso e belo. Uma coisa o apavorava porém:  tubarões. As imagens do filme de Spielberg com trinta anos já, assaltavam-no sempre que chegava perto da água, coisa ridícula, mas assim era, acontecia o mesmo com os aviões, palmilhara milhas, adorava viajar, mas detestando voar, sempre temendo acidentes. O dr. Rebelo dissera-lhe ser irracional, conhecido como selachofobia, ter medo de tubarões, como outros têm de ratos ou aranhas. Hipnoterapia, terapia comportamental ou medicamentação, seriam os tratamentos adequados, aconselhara. Passado o verão, o medo sumiria, só ressurgindo com o regresso às praias, as portuguesas apesar de tudo seguras, e livres desse tipo de perigos.

Na Manta Rota, diariamente esticada a toalha e passado o creme, umas braçadas nas águas cálidas mais não deixavam ver senão algas ou seixos, indo e vindo. Baleias, sim, muitas, as que nem as dietas de verão eliminaram, tubarões, só os da troika ou dos mercados, a esses muitas vezes vira a barbatana, na costa e na algibeira, vorazes e trituradores. Filipe, também advogado e colega do escritório, em férias com a mulher na mesma zona, sabedor da fobia, gozava com Vítor, gritando ter avistado um tubarão sempre que ele ia ao banho, ao que ele inicialmente reagia assustado, e sorrindo depois, aliviado mas cauteloso, a verdade é que efectivamente ninguém vira nenhum por perto, nem Vítor se afastava muito de terra firme. Aliás, a bem ver, nem o tubarão que aterrorizara a ilha de Amity no filme de Spielberg existira, o aterrador animal com 5 metros e 2.000 quilos, que irrompia predador pelo barco dos três amigos ou nas praias da costa leste e que tanto o angustiava, escutando a música que culminava em ataque destruidor. Vítor, autoflagelando-se, vira o filme várias vezes, apavorado com aqueles olhos negros sem vida, o ronco abafado, sempre que as imensas mandíbulas se cravavam na vítima, puxando-a para a água e deixando uma mancha de sangue em volta. Mas esse era um tubarão branco, nunca visto nas costas portuguesas, só o vira, artificial, nos estúdios da Universal em Los Angeles como atração para os turistas, lembrava-se de na altura ter fugido a nove para o espectáculo do E.T. e  tal como ele, na bicicleta, ter tido o impulso de gritar “home…” a caminho dos céus.

No último sábado de férias, como habitualmente, Vítor, Filipe e a mulher, Rute, encontraram-se sob o toldo alugado na praia, uma bica no café dos pescadores, antes, dispunha para uma manhã de sol, que finalmente rompera, depois da trovoada da véspera, e para a leitura do Expresso na diagonal. Domingo seria o último dia, depois de noitadas no Bliss e Kadoc e dos copos em Albufeira, fariam um ultimo jantar no Zé do Peixe Assado, antes do regresso à crise e aos empates do Sporting. Vítor, cansado da noite anterior, deixou-se ficar espojado, roncando mesmo, mal os primeiros raios de sol lhe açoitaram as costas, ao fim de dez minutos. Filipe e Rute foram experimentar a água e mergulhar. Ao fundo, miúdos faziam fila para o parapente, três deles adornavam já os céus azuis da Manta Rota, um dia mais de dolce fare niente em perspectiva. Cinco minutos não eram decorridos quando uma algazarra junto à água e um magote de gente subitamente reunido denunciava ter ocorrido algo, a chegada dum barco de pesca, pensou Vítor, sem abrir os olhos na toalha, um bando de gaivotas anunciava  peixe na zona, todos os dias por essa hora chegavam barcos da faina, com safios, douradas e sardinha, bastante, e gorda agora. Um grito de mulher, gutural, fê-lo enfim despertar e levantar da toalha a ver o que se passava, o grupo de banhistas era agora maior e alguns apontavam na direcção do horizonte, para poente. Rasgando caminho entre eles, Vítor deu com Rute aos gritos, com a mão na cabeça, ao lado, meio sem sentidos, Filipe, deitado na areia. Uma poça avermelhada jorrava-lhe da perna esquerda, à aproximação, a visão horrorosa do pé esquerdo decepado, colhido por objecto cortante, o motor de algum dos barcos, alvitrava o nadador-salvador.

-Que se passou, Rute?  Que houve com o Filipe? Já chamaram o INEM?

Filipe dava gritos e chorava, sem um pé, a água salgada acentuava a dor. O vendedor de bolacha americana, um brasileiro bronzeado, vira-o entrar na água e nadar, despreocupado,para ele nenhum barco passara perto sequer, era estranho o sucedido. Já as sirenes do INEM anunciavam a chegada da ambulância para o evacuar, quase sem sentidos, quando um miúdo com uma boia, para aí com doze anos, apontou para o mar e desatou aos gritos:

-Tubarão! Há um tubarão na praia! Olhem ali!

Todos os olhos se viraram para o sítio indicado, e sinuosa, lá estava uma barbatana preta, a duzentos metros da praia. O pânico foi geral, com várias mães com os filhos pela mão fugindo para os lados da amurada e para zona segura, deixando Rute e Filipe quase sós. O nadador salvador pasmava, nunca tal vira na Manta Rota, a Polícia Marítima, via rádio, confirmava, um navio de guerra ao largo avistara não um, mas três tubarões, algo que os biólogos consideravam raro e sinal de alterações nas migrações da espécie nesta parte do Atlântico, bom sinal até, sintoma de peixe com fartura.

Vítor ficou estarrecido, e branco como a cal da parede, atarantado entre esperar pela evacuação do amigo, que dele zombara, e a fuga pura e simples, em areia firme, aguentou, quase desmaiando, e acompanhou Rute na ambulância. Ao fundo, a perturbante barbatana do inesperado turista marinho serpenteando, aproveitando algum pacote low cost no Algarve, transportou-o para o filme de Spielberg, o que sempre temera acontecia agora. A praia foi de imediato interditada e mirones com binóculos, desde o calçadão, avistavam já uma dúzia deles, garantiam, tudo o que mexia, a televisão chegava para um directo, e o correspondente do Correio da Manhã ganhava uma primeira página, destronando a velha assaltada no Pingo Doce da Amora.

Prometendo não mais voltar à praia senão para piscinas, Vítor, após a evacuação de Filipe para Lisboa, regressou também, findas as férias, para o amigo de forma dramática. Com o tempo, uma prótese ajudaria Filipe a andar, vítima do atípico Verão de 2011 e dum ataque de beachjacking. Ao chegar a casa, findas as férias, sem comida em casa, optou pelo restaurante chinês ao fundo da rua, um placard à entrada aconselhava uma ementa completa por sete euros, a começar com hóstias e  sopa de barbatana de tubarão…

publicado por Fernando Morais Gomes às 15:32

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