por F. Morais Gomes

28
Ago 11


"Um Glenffidich, com gelo. Em fundo, a dança dos espíritos abençoados, do Orfeu e Eurídice. É domingo, e cada vez mais Outono, saltado que foi o discreto verão, para quê sol nos corpos quando gelam as almas. Odeio os domingos. Dantes a família almoçava, depois da missa, em seus fatos domingueiros. Já não há fatos, nem famílias, nem missa. Saudades da infância, do passeio de barco ao Ginjal no fatinho à marujo, comer enguias e voltar no cacilheiro a visitar a avó que esperava com aquele bolo de noz e scones com geleia. Nunca mais comi bolo como esse, os sabores também têm passado, Rogério, e muitos deles sem futuro. E o rádio, com o relato da bola, como frenéticos pareciam os jogos, gritado cada canto como  antecedendo um enfarte.

É, o passado está todo ali. Na prateleira. Nos retratos em álbuns , arquivos mortos de vidas passadas. Cansei do Gluck, põe o Strauss, a valsa do esquiador, seja, encerra juventude e nostalgia, só por isso outro Glenfiddich, raios partam o Famous Grouse. Engraçado. Nunca estive nesse passado, com valsas e palácios,mas também ele é passado do meu passado. Cliché. Bonito. É sempre bonito falar do passado, por nostalgia ou arrependimento. Tem uma vantagem: ao menos tem-se passado. E apaga a televisão, chega de electrodomésticos, por hoje!

Não mexe uma palha lá fora, sabes, mas dentro, corre um vento intranquilo. Que presente recordaremos daqui a vinte anos como bom passado? Os copos que se beberam? A infância dos filhos, ingénuos e puros, azul ou rosa como os fatinhos em que os envolvemos à nascença?

Queria ouvir o Morrison, mas estou intemporal, apetece-me o salão, hoje. Põe aí a Annen, Rogério, sim, a polka 117 de Strauss, grande música para um slideshow de vida feliz e realizada. Para os infelizes, antes Philip Glass ou Bartok, eu quero evadir-me, quero Glenffidich!!, aumenta o som, diz à vizinha que enlouqueci, que o som é a conselho médico!

Engraçado, Rogério, sinto-me um pássaro em melodia de Dvorák, ainda bem que o domingo acabou. Naquele tempo não importavam os domingos, todos os dias eram de Vida, sem separar por semanas, décadas, gerações.

Amanhã será segunda. Monday. Dia da Lua. Na Serra da Lua, curioso. Olha, esconde a garrafa de Glenffidich e diz ao mundo- ou pelo menos ao caseiro- que Arnaldo da Nóbrega desistiu de viver. Só ouvia vinis e num mundo onde não há pontas de diamante, riscou-se da lista de convidados. Que partiu, ao som de Annen, levando os livros, os sonhos, o perfume de Sofia e muitos passeios ao Ginjal por fazer e bolos de noz da avó por comer. Auf Wierdersehn! É forte, o adeus em alemão,seguro e sem lamechas. Rogerio! Maldito boneco de porcelana, se não fosse a tia Zita já te tinha esfrangalhado, degenerado!

Arnaldo da Nóbrega

Vendedor de Insónias"

publicado por Fernando Morais Gomes às 22:22

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